Na terça-feira, pouco depois das 7h, Renata, 34 anos, designer em São Paulo, saiu do prédio segurando a guia de Bento com as duas mãos. O cachorro avançou até a primeira árvore, mudou de direção diante de uma bicicleta e quase a fez derrubar o café. Cansada, ela encurtou a guia e voltou para casa após doze minutos, convencida de que Bento queria comandar o passeio.
Como o passeio virou um cabo de guerra
Bento tinha 2 anos e passava boa parte do dia deitado enquanto Renata trabalhava diante do computador. À noite, ela fazia um passeio com guia pelo mesmo quarteirão, sempre depressa e sem deixar o animal parar muito para farejar. Quando saía, ele disparava como se cada poste, folha e cachorro do caminho precisasse ser alcançado naquele instante.
A dificuldade aumentou depois que Renata trocou duas saídas diárias por uma caminhada curta, devido a uma mudança no horário de trabalho. Dentro do apartamento, Bento começou a carregar almofadas, latir diante da porta e correr pelo corredor perto das 18h. Ela interpretou o conjunto como desobediência, sem relacioná-lo ao tédio e à redução dos estímulos.
Os puxões de Renata pioraram a caminhada
Por uma semana, Renata tentou parar sempre que a guia esticava e puxá-la de volta com força. Bento tossia, diminuía por alguns segundos e logo avançava novamente, principalmente ao sentir cheiros perto dos canteiros. O passeio passou a durar apenas quinze minutos, mas deixava os dois mais agitados do que quando haviam saído.
Bruno, 41 anos, educador canino que atendia na cidade, observou uma dessas caminhadas e explicou que Bento não estava tentando mandar em Renata. O avanço permitia chegar aos cheiros e, portanto, acabava recompensado; a excitação acumulada também tornava difícil caminhar devagar. Para ele, faltavam exploração, treino gradual e gasto de energia mental, não uma disputa por liderança.

O que a norma protege durante o passeio?
A Lei Municipal 13.131/2001, no artigo 15, determina que animais conduzidos em vias públicas de São Paulo usem coleira e guia adequadas ao porte. A pessoa precisa ter idade e força para controlar os movimentos, e o animal deve portar identificação. O artigo 17 atribui ao responsável a manutenção das condições de saúde e bem-estar.
Já a Resolução CFMV 1.236/2018 define parâmetros para reconhecer abuso e maus-tratos. O artigo 5º inclui agressão física destinada a causar dor, impedimento de movimentação ou descanso e atividade excessiva obtida por coerção. A norma não declara que todo cão que puxa está entediado, mas afasta a ideia de corrigir comportamento por sofrimento.
O que pode ser ajustado na prática
Bruno pediu que Renata descartasse primeiro dor, desconforto respiratório e problemas ortopédicos com um médico-veterinário, sobretudo porque havia tosse. Depois, montou um plano sem prometer data para o resultado: não existe prazo legal único para um cachorro deixar de puxar. Idade, saúde, ambiente, histórico de aprendizagem e frequência do treino mudam a velocidade da adaptação.
- Usar equipamento ajustado ao corpo, sem apertar o pescoço nem limitar os movimentos.
- Levar identificação, sacos para recolher dejetos e água quando o percurso ou o calor exigirem.
- Reservar momentos para farejar, explorar e observar o ambiente com segurança.
- Reforçar a guia frouxa com alimento, atenção ou avanço, em trechos curtos.
- Registrar horários, duração, gatilhos e episódios de tosse para mostrar aos profissionais.
A quem recorrer se nada melhorar?
Se o comportamento surgir de repente, vier acompanhado de dor, cansaço, tosse ou recusa em andar, a primeira consulta deve ser veterinária. Persistindo o problema após a avaliação clínica, o responsável pode buscar educador canino que explique o método e trabalhe com recompensa, sem prometer obediência imediata. A orientação da sociedade veterinária de comportamento sobre treinamento humanitário recomenda métodos baseados em recompensa.
- Médico-veterinário: investiga causas físicas e encaminha para atendimento comportamental quando necessário.
- CRMV do estado: recebe denúncia quando a conduta questionada envolve médico-veterinário ou zootecnista.
- Órgão municipal ou canal 156: orienta sobre regras locais de circulação, identificação e bem-estar em São Paulo.
- Delegacia ou órgão ambiental competente: recebe notícia de possível maus-tratos, acompanhada de vídeos, fotos, laudos e datas.
O passeio mudou quando Bento pôde explorar
Renata levou Bento ao veterinário, que não encontrou lesão e orientou a troca do equipamento que pressionava o pescoço. Nas três semanas seguintes, ela passou a fazer caminhadas de 35 minutos, com pausas para farejar, além de cinco minutos de busca por alimento dentro de casa. Bento ainda acelerava na saída, porém conseguia percorrer trechos maiores com a guia frouxa.
A mudança não veio de cansá-lo até a exaustão nem de tentar vencê-lo pela força. Renata combinou previsibilidade, exploração e treino recompensado, observando quando o cachorro já estava sobrecarregado. Para quem vive situação parecida, o caminho seguro é avaliar saúde, rotina e equipamento antes de tratar o passeio como confronto, mantendo sempre a contenção exigida pela regra local.
Renata, Bruno e Bento foram criados para contar esta história e não correspondem a pessoas ou animal reais. A situação reúne episódios frequentes em passeios com cães e mostra como o problema costuma surgir, quais cuidados ajudam e onde as normas entram.




