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Início Curiosidades

Cerâmica de 6.600 anos no Maranhão está entre as mais antigas das Américas, aponta estudo

Por João Victor
08/06/2026
Em Curiosidades
Vasilha de cerâmica antiga avermelhada com fragmentos de concha na massa, ao lado de cacos, sobre bancada clara.

Cerâmica do litoral do Maranhão está entre as mais antigas das Américas. Foto: ilustrativa.

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No litoral do Maranhão, entre as baías de São Marcos e São José, está guardado um dos capítulos mais antigos da história das Américas. Um estudo publicado na revista científica Minerals analisou fragmentos de cerâmica de três sítios arqueológicos do Golfão Maranhense e confirmou: ali se produziu cerâmica de forma contínua por quase 7 mil anos, em uma das tradições mais antigas do continente.

Os artefatos vêm de três sambaquis — sítios formados por acúmulo de conchas e restos da vida cotidiana de povos antigos: Sambaqui do Bacanga, Sambaqui da Panaquatira (ambos na ilha de São Luís) e Rabo de Porco (na região do Itapecuru).

Quase 7 mil anos de história

A ocupação humana na região começou há cerca de 9.500 anos, com povos caçadores-coletores. A produção de cerâmica veio depois, e em datas que impressionam (medidas em “anos AP”, ou antes do presente):

SítioProdução de cerâmica começouFragmentos analisadosTemperante (média)
Sambaqui do Bacangahá ~6.600 anos174,23%
Sambaqui da Panaquatirahá ~5.700 anos260,96%
Rabo de Porcohá ~4.870–4.410 anos200,34%

A produção do Bacanga se estendeu até por volta do século XIV; a da Panaquatira, até a chegada dos europeus; e a do Rabo de Porco, até o século XVII.

Cinco técnicas para “ler” um caco

Para investigar 63 fragmentos sem danificá-los, os pesquisadores combinaram cinco métodos científicos, vários deles nucleares: fluorescência de raios X (EDXRF), emissão de raios X induzida por partículas (PIXE), espectroscopia Mössbauer, difração de raios X (DRX) e radiografia computadorizada. Juntas, essas técnicas revelam a composição química da argila, a temperatura de queima e até a estrutura interna das peças.

Fogo entre 750 °C e 900 °C

Uma das descobertas centrais é a temperatura de queima: entre 750 °C e 900 °C, sempre em ambiente oxidante (com oxigênio). Como os cientistas chegaram a isso? Por dois marcadores:

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  • Hematita: acima de 600 °C, esse óxido de ferro se forma e dá à cerâmica o tom avermelhado característico.
  • Mica (muscovita): esse mineral “desaparece” acima de cerca de 900 °C. Sua presença ou ausência funcionou como um termômetro do passado.

As peças do Rabo de Porco, queimadas a cerca de 750 °C, mostraram um domínio técnico diferente das demais — sinal de tradições distintas convivendo na mesma região.

O segredo estava nas conchas

Talvez o achado mais revelador esteja na “receita” da massa. As cerâmicas continham grãos de quartzo, fragmentos de outras cerâmicas e, sobretudo, fragmentos de conchas misturados ao barro. Essa adição é uma marca da chamada tradição Mina, e tinha função prática: aumentar a resistência da peça e evitar que ela trincasse ou rachasse ao secar e queimar.

O Sambaqui do Bacanga teve a maior proporção de temperante (4,23%), indicando escolhas técnicas próprias de cada grupo.

Radiografia de padrão de alumínio e fragmentos de cerâmica do SP, RP e SB, respectivamente. Figura 9. Radiografia de padrão de alumínio e fragmentos de cerâmica do SP, RP e SB, respectivamente. As regiões mais brancas das amostras representam as partes mais densas do material.

Duas “escolas” e a argila secreta

A análise química permitiu agrupar os sítios. Bacanga e Panaquatira usaram argilas semelhantes; já o Rabo de Porco usou um barro diferente, identificado como vindo da margem do rio Bacanga. As diferenças apareceram em elementos como estrôncio, cálcio e zinco — e no rubídio, presente só nas peças do Rabo de Porco.

Curiosamente, os autores lembram que, historicamente, os oleiros costumavam escolher suas fontes de argila em segredo e em locais de difícil acesso — o que ainda hoje dificulta rastrear a origem exata das matérias-primas.

Por que isso importa

O estudo reforça que o Brasil abriga um patrimônio pré-colonial de valor mundial — e que a ciência consegue, hoje, reconstruir gestos técnicos de povos que viveram há milênios. É um lembrete de que a riqueza histórica do país vai muito além do período colonial e de seus casarões preservados: começa milhares de anos antes, no barro moldado às margens da Amazônia maranhense.

Estudo de referência: Ikeoka, R. A.; Appoloni, C. R.; Scorzelli, R. B.; dos Santos, E.; Rizzutto, M. de A.; Bandeira, A. M. Study of Ancient Pottery from the Brazilian Amazon Coast by EDXRF, PIXE, XRD, Mössbauer Spectroscopy and Computed Radiography. Minerals, v. 12, art. 1302, 2022. MDPI. Licença Creative Commons Attribution (CC BY 4.0). DOI: 10.3390/min12101302.

Tags: Amazôniaarqueologiacerâmica pré-colonialHistória do BrasilMaranhãopovos pré-coloniaissambaqui
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