Novas espécies não precisam estar escondidas em uma floresta distante: algumas podem viver em parques cercados por prédios e avenidas. Armadilhas instaladas em Nova York capturaram cerca de 12 mil insetos, e as primeiras análises apontaram dezenas de possíveis espécies desconhecidas. Só falta uma etapa importante antes que elas possam ganhar oficialmente um nome.
Duas armadilhas encontraram 12 mil insetos em apenas um mês
O projeto instalou grandes armadilhas de insetos no Central Park, em Manhattan, e no Prospect Park, no Brooklyn. Somente durante junho de 2026, elas recolheram cerca de 12 mil espécimes, que foram enviados ao Centre for Biodiversity Genomics, da Universidade de Guelph, no Canadá.
Como analisar tudo de uma vez seria inviável, o laboratório selecionou pouco menos de mil insetos de três grupos para a primeira rodada genética. O recorte mirou justamente animais pequenos e pouco estudados, onde a chance de encontrar algo ainda sem nome é muito maior — e os resultados começaram a aparecer rápido.

As melhores candidatas são moscas e vespas minúsculas
Os cientistas concentraram o trabalho em pequenas moscas conhecidas como scuttle flies e em dois grupos de vespas parasitoides. Essas vespas colocam seus ovos em outros insetos, enquanto muitas das moscas passam despercebidas até por quem frequenta os parques todos os dias.
Esses animais fazem parte do que pesquisadores chamam de grupos pouco catalogados, nos quais uma grande parcela das espécies provavelmente ainda não foi descrita. O paradoxo é ótimo: uma cidade examinada há séculos ainda pode guardar animais desconhecidos no meio de áreas visitadas por milhões de pessoas. O problema era encontrar uma forma rápida de separá-los.
Um pequeno trecho de DNA funciona como código de barras
A equipe usou DNA barcoding, técnica que lê uma pequena região padronizada do material genético de cada animal. Depois, a sequência é comparada a registros de referência no Barcode of Life Data Systems, uma base que reúne milhões de códigos genéticos de organismos já amostrados.
A maioria dos insetos analisados apresentou códigos semelhantes aos já registrados. Mas mais de duas dezenas de grupos de moscas e vespas ficaram muito diferentes do que havia no banco de dados, levantando a possibilidade de serem espécies ainda desconhecidas pela ciência. É uma pista forte, mas não é uma certidão de nascimento.
DNA sem correspondência ainda não significa espécie nova
Uma sequência inédita pode pertencer a uma espécie que já foi descrita no passado, mas nunca teve seu DNA colocado naquela base. Também pode haver variação genética grande dentro de uma espécie conhecida. Por isso, dizer que o sistema não encontrou uma correspondência não basta para anunciar dezenas de novas espécies.
Taxonomistas agora precisam comparar os candidatos com descrições antigas, coleções de museus, características físicas e outros dados genéticos. A análise inicial já indica que pelo menos alguns grupos têm boas chances de serem realmente novos, mas a confirmação exige descrição formal e publicação científica. Até lá, o melhor termo é “candidatos”.

Até uma das armadilhas desapareceu no meio do estudo
Fazer pesquisa de biodiversidade em uma metrópole trouxe um problema que dificilmente apareceria no meio de uma mata remota. No fim de julho, a armadilha do Central Park, com aproximadamente 1,5 metro de comprimento, simplesmente desapareceu. A equipe tinha uma reserva e conseguiu continuar a coleta.
Houve ainda a dificuldade de enviar milhares de insetos conservados em álcool dos Estados Unidos para o Canadá, processo que exige regras específicas de transporte e fiscalização de animais. O episódio deixa um detalhe curioso: encontrar bichos desconhecidos em Nova York talvez seja mais fácil do que transportá-los legalmente até o laboratório. E as armadilhas continuaram trabalhando depois da primeira análise.
O próximo passo é provar quais candidatos realmente são novos
Agora, especialistas em moscas e vespas precisam examinar cada grupo suspeito e verificar se algum organismo igual já recebeu nome científico. Quando um candidato passa por essa checagem, pesquisadores podem preparar uma descrição, apontar suas diferenças e estabelecer oficialmente uma nova espécie.
Vale acompanhar especialmente os resultados dos próximos meses de coleta, já que os números divulgados até agora correspondem apenas a junho. Se algumas dessas dezenas forem confirmadas, Nova York dará um recado simples sobre biodiversidade: a ciência ainda pode encontrar animais novos em lugares onde ninguém pensaria em procurar.




