O rosto apresentado como o do Homo sapiens mais antigo já encontrado é uma aproximação digital feita a partir de fósseis de Jebel Irhoud, no Marrocos, datados em cerca de 315 mil anos. O estudo saiu em 13 de setembro de 2026 na revista científica Heritage, da editora MDPI, e tem como primeiro autor o designer brasileiro Cícero Moraes, de Sinop (MT).
A imagem mostra como esse ancestral pode ter sido, não como ele era. Os próprios autores, no artigo publicado na Heritage, definem o resultado como uma projeção plausível do ponto de vista anatômico, e não como uma estimativa que a biologia consiga verificar. Há duas versões: uma em tons de cinza, sem cabelo, que acompanha o osso, e outra colorida, com pele, cabelo e barba tratados como escolha artística.
A figura também não é inédita. Moraes divulgou uma primeira versão em junho de 2024, sem revisão por pares, como noticiou o Canaltech na época. A novidade de 2026 é a publicação revisada, com o método descrito e uma estimativa do volume do cérebro.

Um crânio montado com peças de vários indivíduos
Segundo o resumo do site Sci.News, um trabalhador que extraía minério em Jebel Irhoud achou um crânio no começo dos anos 1960, de início tomado por um neandertal africano de uns 40 mil anos.
Datações posteriores empurraram a idade para 100 mil a 200 mil anos, em 1991, e para cerca de 160 mil anos, em 2007, ainda de acordo com o Sci.News. A classificação atual veio em junho de 2017, com dois estudos na revista Nature.
Um deles, de Daniel Richter e colegas, chegou à idade de cerca de 315 mil anos, com margem de 34 mil para mais ou para menos. O outro, liderado por Jean-Jacques Hublin, do Instituto Max Planck, descreveu os novos fósseis e os atribuiu ao Homo sapiens, o que os tornou os mais antigos conhecidos da espécie.
O rosto não pertence a uma única pessoa. O modelo é um composto feito pelo Max Planck em 2017, com a calota e a parte de cima da face do Irhoud 1, a mandíbula de outro indivíduo, o Irhoud 11, e fragmentos de outros três achados da mesma camada.
Como o rosto do Homo sapiens mais antigo foi reconstruído
Não houve tomografia do fóssil. A equipe gerou o crânio em 3D por fotogrametria, a partir de quadros de um vídeo de divulgação do Max Planck, com escala tirada do mesmo material.
Em seguida, entrou um “doador virtual”: a tomografia de um adulto atual, anônimo, deformada até se encaixar no crânio antigo. A espessura de pele e músculos veio de um levantamento de Taylor, de 2000, com dados de pessoas de ascendência africana, aplicada como uma malha contínua, sem os marcadores de profundidade usados em reconstruções clássicas.
O processo usou programas abertos, o Blender e o OrtogOnBlender, segundo o resumo do artigo, o que permite a outro grupo refazer e conferir cada etapa.
O que a imagem revela e o que ela não permite dizer
O dado mais sólido do trabalho é o volume interno do crânio: 1.364 mL, segundo os autores, próximo dos 1.375 mL medidos por Neubauer e colegas em 2018 e dentro da variação dos humanos atuais.
Isso conversa com o que a equipe de Hublin descreveu em 2017 na Nature: face e dentes já parecidos com os nossos, mas uma caixa craniana mais alongada e arcaica. A espécie, ao que tudo indica, mudou primeiro o rosto e só depois o formato da cabeça, num caminho parecido com o de outras adaptações que o corpo humano ganhou aos poucos.
Cor da pele, cabelo e olhos não deixam rastro no osso, e o sexo do indivíduo não aparece estabelecido no material publicado. O artigo ainda se contradiz sobre a mandíbula: uma seção a atribui ao Irhoud 11 e outra ao Irhoud 10.
Também não se trata do “primeiro ser humano” nem do ancestral de todos nós. É um retrato possível de uma população do norte da África, tão hipotético quanto as reconstruções de fósseis de crianças neandertais como o Amud 7.
Ciência brasileira feita em Sinop
O estudo tem dois autores de Sinop: Moraes, ligado à empresa Ortogonline, e Lis Moura. Assinam com eles Elena Varotto e Michael Habicht, da Universidade Flinders, na Austrália, Francesco Maria Galassi, das universidades de Pavia, na Itália, e de Lodz, na Polônia, e Johari Yap Abdullah, da Universiti Sains Malaysia, conforme o registro do artigo no Crossref.
Moraes contou ao Canaltech, em 2024, que usou características de diversas pessoas para compor o rosto. A versão revisada documenta cada escolha.
A versão em cinza chama menos atenção nas redes, mas é a que tem o osso por trás de cada linha.




