O calor do sertão mineiro divide espaço com grutas escondidas, festas populares centenárias e o aroma intenso de pequi espalhado pelas feiras de Montes Claros. No norte de Minas Gerais, onde o cerrado encontra a caatinga, a chamada Princesa do Norte surpreende ao reunir tradição sertaneja, cavernas calcárias e o maior centro urbano de toda a região norte-mineira.
Do Arraial de Formigas à capital do Norte de Minas
A ocupação da região começou no século XVII, quando bandeirantes paulistas avançaram pelo interior em busca de ouro e pedras preciosas. O primeiro povoado ficou conhecido como Arraial de Formigas, nome ligado à grande quantidade de insetos na área. Com o tempo, os morros claros de formação calcária que cercavam a paisagem passaram a identificar o lugar, dando origem ao nome Montes Claros. O município foi elevado à condição de vila em 1831 e recebeu oficialmente o título de cidade em 1857.
Ao longo do tempo, Montes Claros se consolidou como elo entre o Sudeste e o Nordeste brasileiros. A cidade revelou nomes como Beto Guedes e Ciro dos Anjos e hoje concentra hospitais, universidades e serviços que atendem toda a metade norte de Minas Gerais. Segundo o IBGE, o município já ultrapassa os 414 mil habitantes, tornando-se o principal polo urbano da região.

Cavernas, trilhas e um rio que abastece a cidade
O Parque Estadual da Lapa Grande, administrado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), protege 15.360 hectares de cerrado e caatinga com mais de 50 cavidades naturais catalogadas. A gruta principal tem 2,2 km de extensão e abriga estalactites, estalagmites e um rio subterrâneo com bagres despigmentados. Esse mesmo rio responde por cerca de 30% da água consumida pela cidade.
- Trilha da Lapa Grande: 40 minutos até a caverna principal. Visitação livre, sem necessidade de guia.
- Trilha do Boqueirão da Nascente: passa por mata ciliar até a ressurgência do rio. Saídas guiadas a cada hora, das 9h45 às 14h45.
- Trilha da Lapa Pintada: revela pinturas rupestres. Saída às 9h30.
- Trilha da Ponte de Pedra: cruza formações rochosas em meio ao cerrado. Saída às 13h30.
O vídeo é do canal Cidades do Interior, referência com mais de 60 mil inscritos, e detalha o Parque Estadual da Lapa Grande, o Mercado Municipal e o crescimento do polo farmacêutico na região:
Catopês, marujos e a tradição que atravessa gerações
Há mais de 180 anos, Montes Claros mantém viva uma das manifestações culturais mais importantes do interior brasileiro. Durante as tradicionais Festas de Agosto, grupos de catopês, marujos e caboclinhos percorrem as ruas centrais em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e ao Divino Espírito Santo. A celebração é considerada a maior expressão do congado no norte de Minas Gerais e uma das mais antigas do país.
Os catopês representam a herança africana, os marujos simbolizam os navegadores europeus e os caboclinhos remetem aos povos indígenas. Pelo menos seis ternos participam da festa, reunindo cerca de 300 integrantes em cortejos marcados por tambores, cores e danças tradicionais. Paralelamente às cerimônias religiosas, o Festival Folclórico de Montes Claros ocupa a Praça da Matriz com shows, rodas de conversa, cinema ao ar livre e feira de artesanato, transformando o centro histórico num grande encontro das culturas sertanejas.

Centro histórico e mais atrações a pé
O roteiro urbano se resolve em poucas horas de caminhada pelo centro.
- Mercado Municipal Christo Raeff: cachaças artesanais, requeijão, carne de sol, doces caseiros e tudo que envolve pequi. Restaurantes internos servem arroz com pequi e feijão tropeiro.
- Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição: na Praça Dr. Chaves, marca a origem de Montes Claros. Referência do barroco na região.
- Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida: estilo neogótico, 65 metros de altura, inaugurada em 1950.
- Parque Municipal Milton Prates: área verde com lagoa, pedalinhos e zoológico. Ponto de encontro de famílias aos domingos.
- Parque Sapucaia: 302 mil m² na Serra do Ibituruna, com mirante panorâmico, rampa de asa delta e trilhas.
Pequi, carne de sol e a mesa do sertão mineiro
Montes Claros é reconhecida como a Capital Nacional do Pequi. O fruto do cerrado, de aroma forte e sabor inconfundível, domina a culinária local e ganha festival próprio em dezembro.
- Arroz com pequi: prato-símbolo da cidade, servido em praticamente todos os restaurantes do Mercado Municipal.
- Carne de sol com mandioca: combinação clássica do sertão, encontrada nas barracas e restaurantes do centro.
- Feijão tropeiro e torresmo: herança tropeira que permanece firme na mesa de almoço dos montes-clarenses.
- Cachaça artesanal e licores de frutas do cerrado: vendidos no Mercado e na Feirinha de Artesanato aos domingos na Praça da Matriz.

Leia também: A “Cidade dos Barões” já produziu a maior parte do café do mundo e foi o antigo coração econômico do Brasil império.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima tropical semiúmido traz verões quentes e chuvosos e invernos secos com noites agradáveis. A melhor época para visitar as cavernas e curtir as festas é entre maio e agosto.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Princesa do Norte?
Montes Claros fica a cerca de 420 km de Belo Horizonte pela BR-135, em um trajeto de aproximadamente 5 horas de carro. O Aeroporto Mário Ribeiro recebe voos da Azul Linhas Aéreas partindo da capital mineira e da LATAM Airlines Brasil com origem em Guarulhos. A rodoviária local também conecta a cidade a mais de 250 destinos em Minas Gerais e estados vizinhos.
O cerrado que mistura cavernas, pequi e tradição popular
Montes Claros reúne cenários improváveis no coração do norte mineiro. O município abriga a Parque Estadual da Lapa Grande, com cavernas e rios subterrâneos que atravessam formações calcárias por quilômetros, enquanto o aroma do pequi domina feiras e mercados durante a safra. Ao mesmo tempo, os tambores dos catopês mantêm viva uma tradição cultural que atravessa gerações nas históricas Festas de Agosto.
Percorrer as trilhas da Lapa Grande, provar arroz com pequi no Mercado Municipal de Montes Claros e assistir aos cortejos do congado ajudam a entender por que a chamada Princesa do Norte se tornou um dos destinos culturais mais singulares do interior brasileiro.










