A frase “aqueles que sonham de dia estão conscientes de muitas coisas que escapam aos que sonham apenas à noite” pertence realmente a Edgar Allan Poe. O trecho aparece no conto Eleonora e apresenta o devaneio como uma forma de perceber aspectos da experiência que podem passar despercebidos durante uma vida guiada apenas pela atenção ao que está diante dos olhos.
A frase aparece logo no início do conto Eleonora
Diferentemente de várias citações atribuídas a escritores famosos sem uma fonte verificável, esta pode ser localizada diretamente na obra de Poe. A Edgar Allan Poe Society of Baltimore preserva uma edição de Eleonora na qual o narrador afirma que quem “sonha de dia” percebe coisas que escapam àqueles que sonham somente durante a noite.
O conto foi publicado originalmente em 1841, em uma coletânea preparada para 1842. A própria Poe Society registra a frase entre as citações autênticas do escritor, afastando a dúvida comum que surge quando pensamentos aparentemente modernos passam a circular nas redes sociais acompanhados do nome de autores do século XIX.
Poe não estava falando apenas de sonhos durante o sono
No trecho, “sonhar de dia” tem um significado próximo de imaginar, divagar e contemplar enquanto se está acordado. O narrador descreve pessoas capazes de entrar profundamente em suas próprias visões e pensamentos, atribuindo a essa experiência uma percepção diferente daquela disponível durante os sonhos noturnos.
A passagem faz parte de uma reflexão muito mais ampla sobre imaginação e consciência. Pouco antes, o narrador chega a questionar a fronteira entre loucura e formas extraordinárias de inteligência, uma provocação literária típica de Poe e que não deve ser confundida com uma afirmação médica ou científica sobre transtornos mentais.

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O contexto de Eleonora torna a frase menos motivacional
Lida isoladamente, a frase pode parecer apenas uma defesa da criatividade. Dentro do conto, porém, ela é pronunciada por um narrador que admite viver entre momentos de razão, sombra e dúvida, preparando o leitor para uma história marcada por paixão, morte, memória e acontecimentos apresentados de maneira deliberadamente ambígua.
Eleonora acompanha a relação do narrador com uma jovem com quem vive em um cenário quase fantástico. Depois da morte dela, uma promessa feita durante o relacionamento passa a exercer grande influência sobre sua vida, reforçando temas recorrentes na literatura de Poe, como amor, perda e estados alterados de percepção.
A psicologia também diferencia tipos de devaneio
A ciência moderna não confirma literalmente a visão poética de Poe, mas pesquisas mostram que nem todo devaneio funciona da mesma maneira. Uma revisão disponível no PubMed descreve o chamado devaneio positivo construtivo, caracterizado por imagens, planejamento e pensamentos imaginativos que podem ter funções adaptativas.
Os pesquisadores também distinguem essa experiência de formas negativas de divagação, marcadas por pensamentos angustiantes, e de episódios relacionados à falta de controle da atenção. Isso significa que deixar a mente vagar pode gerar reflexões produtivas em algumas situações, enquanto em outras pode simplesmente interromper aquilo que a pessoa precisa fazer.
Imaginar acordado pode ter relação com criatividade
Um estudo publicado em 2021 encontrou associação entre o devaneio positivo construtivo e medidas de criatividade. Os pesquisadores observaram ainda conexões envolvendo redes cerebrais relacionadas ao pensamento interno, atenção e controle executivo, embora os resultados não permitam afirmar que simplesmente sonhar acordado torne alguém automaticamente mais criativo.
Outro trabalho disponível no PubMed acompanhou escritores profissionais e físicos e constatou que cerca de um quinto das ideias criativas consideradas mais significativas naquele contexto havia surgido durante períodos de pensamento espontâneo não relacionado à tarefa. O achado mostra que algumas ideias aparecem justamente quando a atenção se afasta momentaneamente do problema.

Devaneio e distração não são exatamente a mesma coisa
Deixar a mente vagar pode facilitar associações inesperadas, mas isso não significa que perder a concentração seja sempre vantajoso. Um estudo publicado em setembro de 2026 no PubMed encontrou uma relação positiva entre devaneio deliberado e pensamento criativo, enquanto também destacou a importância do controle da atenção.
Na prática, há diferença entre reservar alguns minutos para pensar livremente e passar uma tarefa inteira incapaz de manter o foco. A frase de Poe funciona melhor como uma defesa da vida interior e da imaginação do que como uma recomendação para abandonar concentração, planejamento ou contato com a realidade.
A reflexão de Poe continua atual quase dois séculos depois
Em uma rotina preenchida por mensagens, vídeos e notificações, momentos sem estímulos externos podem parecer improdutivos. A reflexão de Poe sugere justamente o contrário: permitir algum espaço para pensamentos que não seguem um roteiro imediato pode revelar lembranças, perguntas e conexões que não aparecem quando toda a atenção permanece ocupada.
Isso não exige transformar cada devaneio em uma descoberta extraordinária. A força da frase está em reconhecer que a mente também trabalha quando aparentemente está distante da tarefa principal. Para Poe, quem sonha enquanto está acordado enxerga possibilidades que outros talvez ignorem; hoje, pesquisas sobre criatividade mostram que essa antiga intuição literária possui paralelos interessantes, desde que imaginação e atenção permaneçam em equilíbrio.




