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Início Bem-Estar

John Cryan, neurobiólogo, “Temos evidências de que o café, com ou sem cafeína, transforma a microbiota e melhora a saúde mental e cognitiva.”

Por Bruno Vaz
24/10/2026
Em Bem-Estar
café descafeinado

Um dos achados mais interessantes apareceu no grupo que recebeu café descafeinado.

O café pode influenciar a saúde do intestino e do cérebro mesmo quando não contém cafeína. Um estudo publicado na revista científica Nature Communications encontrou mudanças na microbiota intestinal, no humor e em determinadas funções cognitivas após o consumo da bebida. Os resultados indicam que o café tradicional e o descafeinado podem agir de maneiras diferentes no organismo.

O que a ciência descobriu sobre o café e a saúde do cérebro?

A pesquisa foi desenvolvida por cientistas da University College Cork, na Irlanda, com participação do neurobiólogo John Cryan, especialista na comunicação entre intestino e cérebro. O trabalho, publicado em abril de 2026 na Nature Communications, investigou como o consumo habitual de café modifica bactérias intestinais, substâncias produzidas durante a digestão e indicadores relacionados ao comportamento.

Os pesquisadores avaliaram inicialmente 62 adultos saudáveis, divididos igualmente entre consumidores habituais de café e pessoas que não bebiam a bebida. Depois, os 31 consumidores passaram duas semanas sem café e voltaram a consumi-lo durante 21 dias: 16 receberam a versão com cafeína e 15, a descafeinada.

Como o café modifica as bactérias do intestino?

As análises identificaram diferenças na presença de determinados microrganismos, incluindo bactérias dos gêneros Eggerthella e Cryptobacterium, entre consumidores e não consumidores de café. Durante o período de abstinência, alguns indicadores mudaram novamente, enquanto a reintrodução da bebida provocou alterações específicas na composição da microbiota, independentemente da presença de cafeína.

O detalhe é que o café contém outras substâncias biologicamente ativas, como os polifenóis, que podem interagir com os microrganismos intestinais e participar de processos metabólicos. Entretanto, o estudo não demonstrou um aumento generalizado da diversidade bacteriana nem comprovou que todas as mudanças observadas sejam necessariamente benéficas para a saúde.

Leia também: Café ou energético: qual prejudica mais o coração? A resposta pode surpreender

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Café com cafeína apresentou efeitos diferentes sobre a atenção

Entre os participantes que voltaram a consumir café tradicional, os pesquisadores observaram melhoras em testes de atenção e em determinadas medidas de desempenho cognitivo. Também houve redução de pontuações relacionadas à ansiedade e ao sofrimento psicológico, resultados que precisam ser interpretados dentro das condições específicas do experimento.

A cafeína é conhecida por seu efeito estimulante sobre o sistema nervoso central, principalmente pela interferência na ação da adenosina, substância associada à sensação de sonolência. Apesar disso, o efeito não é igual para todos: sensibilidade individual, quantidade consumida e horário da ingestão podem fazer a mesma xícara favorecer a disposição de uma pessoa e prejudicar o sono de outra.

café descafeinado
O café pode influenciar a saúde do intestino e do cérebro mesmo quando não contém cafeína.

O descafeinado também pode influenciar a memória?

Um dos achados mais interessantes apareceu no grupo que recebeu café descafeinado. Esses participantes apresentaram melhor desempenho em algumas avaliações de memória e aprendizagem, além de mudanças favoráveis em medidas relacionadas à qualidade do sono e à atividade física, sugerindo possíveis efeitos de componentes que não dependem da cafeína.

Os próprios pesquisadores, porém, reconhecem que a repetição dos testes pode ter contribuído para parte das melhorias observadas. Isso significa que os resultados não demonstram que beber descafeinado previna perda de memória ou doenças neurológicas, mas oferecem uma hipótese para novas pesquisas sobre a relação entre compostos do café e funcionamento cerebral.

O que os resultados dizem sobre estresse e saúde mental?

Após a reintrodução das duas versões da bebida, os participantes registraram menores pontuações de estresse percebido, sintomas depressivos e impulsividade nos questionários utilizados. As diferenças chamaram a atenção dos cientistas porque apareceram tanto no grupo que recebeu cafeína quanto naquele que consumiu descafeinado, indicando que outros componentes também podem participar dessas respostas.

Mas existe uma limitação: o experimento teve poucos participantes na etapa de intervenção e acompanhou o consumo por apenas três semanas. Como parte dos resultados dependeu de respostas dos próprios voluntários, ainda não é possível estabelecer que o café trate ansiedade ou depressão. A reportagem da National Geographic também apresenta a interpretação de Cryan sobre os efeitos distintos e complementares das duas bebidas.

Quanto café tomar e quando escolher o descafeinado?

Para adultos saudáveis, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) considera que uma ingestão de até 400 mg de cafeína por dia, distribuída ao longo do dia, geralmente não representa preocupação de segurança. Esse limite não serve como recomendação de consumo e não se aplica da mesma forma a gestantes, pessoas com determinadas condições médicas ou indivíduos mais sensíveis à substância.

Quem percebe palpitações, agitação ou dificuldades para dormir após beber café pode reduzir a quantidade, antecipar o horário ou experimentar a versão descafeinada, que ainda contém pequenas quantidades de cafeína. O principal cuidado é não interpretar o estudo como uma orientação para aumentar o consumo: os resultados mostram possibilidades científicas, mas a escolha mais adequada continua dependendo da tolerância e das necessidades de cada pessoa.

Tags: Bem-EstarciêncianutriçãoSaúde
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