A australiana Dee-Ann Kelly perdeu a casa em um incêndio florestal em 2024 e agora reconstrói o lar com mais de 350 pneus velhos cheios de terra compactada, além de garrafas e latas recicladas. A técnica, chamada earthship, transforma lixo em paredes grossas que seguram melhor o calor e o fogo. A obra, em Pomonal, no estado de Vitória, conta com a ajuda de 35 voluntários.
Como Dee-Ann perdeu a casa no incêndio florestal?
Em fevereiro de 2024, raios provocados por tempestades secas deram início a incêndios na região do Parque Nacional dos Grampians, no oeste de Vitória. Em Pomonal, 44 casas foram destruídas pelo fogo, além de comércios e galpões. Dee-Ann conseguiu fugir levando alguns pertences e os animais de estimação.
Dois anos depois, ela decidiu voltar ao mesmo terreno. Em vez de uma construção convencional, escolheu um modelo pensado para resistir melhor ao próximo incêndio.

O que é uma earthship e como ela é construída?
A earthship é um tipo de casa autossustentável criado nos anos 1970 pelo arquiteto americano Michael Reynolds, no Novo México. A base são pneus usados, empilhados como tijolos e preenchidos com terra socada a marretadas. Garrafas e latas entram nas paredes internas e nos detalhes decorativos.
O projeto de Dee-Ann é conduzido pelo designer e construtor Martin Freney, pesquisador da Universidade do Sul da Austrália, que já ergueu cerca de uma dúzia de casas desse tipo. Os principais materiais da obra são estes:
Por que a casa de pneus resiste melhor ao fogo?
Segundo Freney, a massa de terra em volta da casa funciona como uma barreira contra as chamas. As paredes grossas também demoram a esquentar. Ele faz uma ressalva importante, a de que essas casas não são à prova de fogo e não garantem a sobrevivência em qualquer incêndio. As vantagens apontadas pelo construtor são estas:
- paredes grossas que dificultam a entrada do calor;
- temperatura interna mais estável no verão e no inverno;
- menor gasto com energia para aquecer ou resfriar;
- projeto pensado para reduzir o consumo de água;
- custo semelhante ao de uma casa convencional, segundo Freney.

O que o Brasil faz com os pneus que vão para o lixo?
Aqui, a destinação é regulada pela Resolução 416 do Conama, de 2009, que obriga fabricantes e importadores a recolher uma quantidade equivalente à que colocam no mercado. Segundo relatório do Ibama, só os importadores deram destino a 384 mil toneladas de pneus em 2025. Os principais caminhos são estes:
- queima como combustível em fornos de cimento;
- trituração para produzir borracha granulada;
- laminação para fabricar novos produtos;
- pirólise, que transforma a borracha em óleo e gás.
O descarte correto também é questão de saúde pública. Pneus abandonados acumulam água da chuva e viram criadouros do mosquito da dengue. Borracharias e pontos de coleta das prefeituras recebem os pneus velhos.
A obra de Pomonal deve ficar pronta em três meses
A previsão é que a construção leve cerca de três meses. A argila e boa parte da areia saem do próprio terreno, o que reduz o transporte de material. Dee-Ann diz que os voluntários a ajudaram a recuperar a confiança no futuro de Pomonal e espera que a casa mostre aos vizinhos que existem formas mais seguras de construir em áreas sujeitas a incêndios florestais.
Você moraria em uma casa feita com pneus e garrafas recicladas? Conte nos comentários.




