Dividir a cozinha, esperar a vez do banheiro e guardar tudo o que se tem no mesmo espaço onde se dorme: muita gente no Brasil conhece essa rotina de perto. Viver num cômodo nos fundos da casa de parentes é uma das formas de coabitação que entram no cálculo do déficit habitacional do país. A moradia modular, produzida em fábrica e montada no terreno, vem sendo testada na habitação social como forma de encurtar a espera de quem vive de favor.
Cômodo nos fundos da casa conta como déficit habitacional
Morar num cômodo junto de outra família entra na estatística oficial de falta de moradia. A Fundação João Pinheiro, que calcula o déficit habitacional do país, chama essa situação de coabitação. Ela inclui famílias que dividem cômodos e domicílios com mais de uma família em adensamento. O indicador soma ainda a habitação precária e o ônus excessivo com aluguel.
Com dados de 2022, a fundação estimou o déficit em 6.215.313 domicílios, o equivalente a 8,3% das moradias ocupadas no Brasil. Na coabitação, São Paulo lidera em números absolutos, com 262 mil domicílios. O Pará tem o maior peso relativo desse componente, com 40,5%. Já o ônus com aluguel considera lares com renda de até três salários mínimos que gastam mais de 30% dela com aluguel.

A moradia aparece entre os direitos sociais do artigo 6º da Constituição Federal, ao lado de saúde, educação e trabalho. É esse princípio que sustenta os programas de habitação social de União, estados e municípios, que hoje testam formas mais rápidas de construir para encurtar a espera.
Como a casa pré-fabricada sai da fábrica e chega ao terreno
A casa pré-fabricada é produzida quase inteira em fábrica, numa linha de montagem, e segue de caminhão até o lote. Um exemplo documentado pelo Governo do Rio Grande do Sul é o de 500 unidades provisórias feitas em 2024 para atingidos pelas enchentes. Cada uma tem 27 metros quadrados, com dormitório, banheiro e sala conjugada com cozinha, em estrutura de aço galvanizado.
No terreno, a obra não começa do zero. Segundo o governo gaúcho, depois do transporte é preciso assentar as sapatas, um tipo de fundação, e fazer as ligações de água, esgoto e energia elétrica. Por isso a chegada dos módulos é o momento em que o lote vazio ganha a forma da casa que até então existia só no papel.
Outras experiências de moradia montada rapidamente para famílias em situação vulnerável já chegaram a comunidades brasileiras. Uma delas, feita com blocos de plástico reciclado, foi contada pelo CB Radar.
Programas de habitação social já aceitam a construção modular
A construção modular já é uma das opções previstas em programas públicos de moradia popular. No programa A Casa É Sua, do governo gaúcho, as prefeituras podem aderir a atas de registro de preços para steel frame, painel de concreto e módulos. O município doa o terreno com água, energia e esgoto e seleciona as famílias em vulnerabilidade social.

Em Lagoa dos Três Cantos, o estado entregou 20 casas de cerca de 44 metros quadrados, com dois quartos, em 15 de outubro de 2026. Quem vive em coabitação e busca uma vaga deve procurar a secretaria de habitação da própria cidade e manter o Cadastro Único atualizado. Desconfie de quem cobra para garantir inscrição, porque os critérios variam conforme o programa e a prefeitura.
O que muda para a família quando a moradia própria chega?
Para a família, a principal mudança é a separação dos núcleos: cada um volta a ter porta, cozinha e banheiro próprios. É justamente isso que o indicador de coabitação mede, e cada entrega nessa situação ajuda a reduzir o déficit habitacional. A casa modular, porém, só cumpre esse papel com terreno regularizado, ligações definitivas e manutenção prevista.
No fim, a chegada dos módulos ao lote importa menos pela técnica do que pelo que devolve: privacidade, rotina própria e a chance de receber os parentes como visita. Se você conhece alguém que vive de favor há anos, que tal ajudar essa pessoa a procurar a secretaria de habitação da cidade e ver se há inscrições abertas?
Construir em módulos não é ideia recente, e a arquitetura tem exemplos famosos de prédios montados como blocos. Um deles fica no Canadá e continua habitado até hoje.




