Em 1493, a frota da segunda viagem de Cristóvão Colombo partiu da Espanha levando algo que a primeira não tinha levado: cavalos. Uma ordem dos Reis Católicos, publicada pela Real Academia de la Historia e transcrita pelo pesquisador Raúl Perezgrovas Garza na revista Acta Universitaria em 2024, mandava escolher em Granada 20 “lanzas jinetas”, cavaleiros armados de lança curta, e determinava que cinco deles levassem montaria dupla, de éguas.
Os cavalos de Colombo foram os primeiros cavalos europeus a pisar na América. Não foram, porém, os primeiros cavalos do continente. Os animais que desembarcaram na ilha Hispaniola no fim daquele ano estavam, sem que ninguém a bordo pudesse saber, voltando para a terra onde a sua linhagem tinha surgido.
Os cavalos de Colombo não eram os que a Coroa escolheu
A viagem começou com uma trapaça. Segundo o relato reunido por Perezgrovas Garza a partir de crônicas e de historiadores como Samuel Morison, o bispo Juan de Fonseca, encarregado da logística, exibiu em Sevilha cerca de vinte cavalos de boa estirpe e, antes do embarque, trocou os animais em Cádiz por um lote de “tristes rocines”, embolsando a diferença.
Colombo percebeu tarde. Em carta aos reis, citada no mesmo artigo de 2024, reclamou que o melhor cavalo embarcado não valia 2 mil maravedis. Quantos animais chegaram vivos ao outro lado do Atlântico, os documentos reunidos pelo estudo não dizem.
Já na Hispaniola, na tarde de 30 de novembro de 1493, o cacique local subiu a bordo de um dos navios e viu os cavalos. Perezgrovas Garza, apoiado na coleção documental de Martín Fernández de Navarrete, de 1853, trata aquele momento como o primeiro encontro registrado entre um nativo americano e um cavalo. A palavra que importa ali é registrado.
Um retorno depois de milhares de anos

O cavalo é, em sua origem, um animal americano. O gênero Equus surgiu na América do Norte, e o artigo de Alisa Vershinina e colegas na Molecular Ecology, em 2021, descreve o continente como a terra ancestral dos cavalos caballinos, o grupo do cavalo doméstico, e estima que as populações da Eurásia se separaram das norte-americanas entre 1 milhão e 800 mil anos atrás, depois de cruzar a Beríngia, a faixa de terra que ligava o Alasca à Sibéria.
Os cavalos que ficaram na América desapareceram no fim da última era glacial, junto com mamutes e outros grandes mamíferos. A data exata segue em discussão. DNA ambiental recuperado de solos congelados do Yukon, no Canadá, indica que o gênero persistiu por lá milhares de anos depois do que sugerem os fósseis, segundo Tyler Murchie e colegas na Nature Communications, em 2021. É o mesmo tipo de ferramenta que tem mostrado mudanças nas espécies que o formato dos ossos sozinho não deixa ver.
Enquanto sumia daqui, a linhagem prosperava do outro lado, foi domesticada na Eurásia e voltou em caravelas. Para alguns povos do continente, a história era mais longa: a convivência de humanos e cavalos no fim do Pleistoceno ainda aparece em tradições orais, como a dos lakota, observam os autores do estudo que reescreveu o capítulo seguinte.
Nas Grandes Planícies, antes dos cronistas
A versão aceita por muito tempo dizia que o cavalo só se espalhou para o norte, rumo às Grandes Planícies dos atuais Estados Unidos, depois da Revolta Pueblo de 1680, quando os povos pueblo expulsaram temporariamente os espanhóis do Novo México. Essa cronologia vinha de relatos de observadores europeus, a maioria dos séculos 18 e 19, como descreve o artigo de William Taylor e dezenas de coautores publicado na Science em 2023.
O grupo, que teve participação de pesquisadores e representantes lakota, comanche e pawnee, entre outros povos, reuniu 33 restos de equinos de sítios arqueológicos e acervos de museus. Conseguiu datar 29 por radiocarbono e caracterizar geneticamente 27. Três cavalos de contextos indígenas eram, com segurança, anteriores à revolta: um potro enterrado em Blacks Fork, no Wyoming, um crânio do rio Kaw, no Kansas, e ossos do sítio de Paa’ko, no Novo México. Um metacarpo de American Falls, no Idaho, analisado de novo pela equipe, foi datado entre 1597 e 1657.
Pelo texto integral do estudo de Taylor e colegas na Science, cavalos de origem espanhola já estavam nas Montanhas Rochosas do norte e nas planícies centrais na primeira metade do século 17, levados muito provavelmente por redes de troca entre povos indígenas, décadas antes de qualquer europeu descrever essas regiões. O potro de Blacks Fork tinha uma fratura no crânio cicatrizada, sinal de cuidado, e alterações ósseas típicas de animais usados em transporte ou mantidos presos.
A genética completou o quadro. Os cavalos históricos e modernos da América do Norte mostram forte afinidade com linhagens ibéricas, com entrada posterior de sangue britânico, e nenhuma proximidade com cavalos vikings. Também não carregam excesso de ancestralidade dos cavalos do Pleistoceno americano. Quem integrou o animal à caça, ao transporte e aos rituais das planícies foram os povos indígenas, por conta própria. Nesse caso, a crônica colonial chegou atrasada ao próprio assunto.
No Brasil, cavalos da Madeira e de Cabo Verde
Aqui a chegada seguiu outra rota. O capítulo de Ramayana Menezes Braga, da Embrapa Roraima, no livro Cavalos e jumentos do Brasil: raças e ecótipos (Instituto Nacional do Semiárido, 2023), reúne as datas com base em Torres e Jardim (1992): animais trazidos da ilha da Madeira por Martim Afonso de Souza em 1534, na capitania de São Vicente; por Duarte Coelho em 1535, em Pernambuco; e por Tomé de Souza em 1549, na Bahia, com cavalos vindos de Cabo Verde.
Pelo Sul entrou o cavalo espanhol. A mesma publicação da Embrapa cita a expedição de Pedro de Mendoza, que chegou à foz do rio da Prata em 1535, e os animais deixados por expedições espanholas que se multiplicaram soltos nos campos, fenômeno que lembra o de um punhado de bovinos abandonados numa ilha do Índico que virou rebanho. No Rio Grande do Sul e nos países vizinhos, esses cavalos originaram o Crioulo, cuja associação brasileira de criadores foi fundada em 1932, segundo a própria entidade.
De São Vicente, os cavalos subiram para o interior paulista, Minas Gerais e Goiás, onde, segundo o capítulo da Embrapa, deram origem a raças como Campolina e Mangalarga Marchador. As associações de criadores completam a genealogia:
- A ABCCMM situa o surgimento do Mangalarga Marchador há cerca de 200 anos, na Comarca do Rio das Mortes, no Sul de Minas, do cruzamento de cavalos locais com animais Alter, da coudelaria de Alter do Chão, em Portugal, chegados ao Brasil em 1808 com D. João VI.
- A associação do Campolina registra que, em 1870, Cassiano Campolina ganhou de D. Pedro II a égua Medéia, prenhe de um garanhão andaluz. O potro, Monarca, foi decisivo na formação da raça.
A cronologia da Embrapa guarda ainda uma coincidência curiosa. Em 1680, o ano da Revolta Pueblo, cavalos chegavam à ilha de Marajó, no Pará, onde formariam os ecótipos Marajoara e Puruca; em 1789, rebanhos levados aos campos do rio Branco dariam origem ao Lavradeiro de Roraima. Nos dois extremos da América, o animal que Colombo trouxe de volta se espalhava longe de quem escrevia a história.


