Em 3 de outubro de 1960, o prefeito de Chicago, Richard J. Daley, levou o príncipe herdeiro Akihito ao Shedd Aquarium e mandou tirar dos tanques 18 exemplares de bluegill, o peixe símbolo do estado de Illinois, embalados como lembrança de Estado. A cena está reconstituída pela revista National Geographic, que também registra o que aconteceu na travessia do Pacífico: só 15 chegaram vivos ao Japão.
O futuro imperador japonês entregou aqueles 15 peixes a um instituto de pesquisa da Agência de Pesca, com a ideia de testar o bluegill como peixe de mesa, e não de criar um peixe invasor. O presente saiu do controle. Meio século depois, o mesmo Akihito, já no trono, usou um discurso oficial em Otsu, às margens do lago Biwa, para dizer em público que a história lhe doía.
Por que o presente de Chicago virou uma praga nacional?
O bluegill (Lepomis macrochirus) é pequeno, resistente, desova várias vezes por temporada e come ovos, larvas e alevinos de outras espécies.
A National Geographic relata que a Agência de Pesca reproduziu os sobreviventes e, em 1966, soltou descendentes no lago Ippeki, perto de Ito, na província de Shizuoka. Em 1969, um monumento na margem celebrava a introdução. Em 1999, segundo a mesma reportagem, o bluegill já estava em todos os ecossistemas de água doce do país, e em 2007 a população nacional era estimada em cerca de 25 milhões de indivíduos. Um teste genético fechou o círculo: o DNA dos bluegills japoneses bate com o de peixes do rio Mississippi perto de Guttenberg, em Iowa, origem do estoque do Shedd Aquarium.
O que aconteceu no lago Biwa depois que o bluegill chegou?

O lago Biwa é o maior do Japão e um dos mais antigos do mundo, com cerca de 30 espécies nativas de peixe, segundo a National Geographic.
A mesma reportagem cita levantamentos segundo os quais bluegill e black bass, outro norte-americano, chegaram a responder por 90% da fauna em trechos do lago. Em 2005, o governo retirou 420 toneladas de peixes invasores do Biwa. O Ministério do Meio Ambiente do Japão descreve o bluegill como espécie de distribuição quase nacional, confirmada até o ano fiscal de 2009 em 46 dos 259 alagados classificados como importantes no país, e registra o colapso de um peixinho nativo, o motsugo, num açude de Shiga durante a explosão do invasor, por predação e disputa por comida. O mesmo órgão anota o dano econômico: redes cheias de bluegill em vez do pescado que interessa.
Qual regra o Japão criou em 2005 contra espécies invasoras?
O Japão aprovou sua lei de espécies exóticas invasoras em 2004, e ela entrou em vigor em junho de 2005. O bluegill e o black bass estão entre as espécies designadas desde a primeira lista.
Pela lei, conforme a página do Ministério do Meio Ambiente, é proibido criar, transportar vivo, soltar ou importar as espécies designadas sem autorização. Para o pescador esportivo, isso significa que o bluegill fisgado no Biwa não pode voltar para a água nem viajar no balde até outro lago. A National Geographic aponta que a população do lago caiu pela metade desde 2005, mas que os juvenis continuam escapando das redes, então o esforço não tem data para acabar.
Quando o imperador japonês pediu desculpas pelo peixe invasor?
No dia 11 de novembro de 2007, na 27ª Convenção Nacional pela Riqueza dos Mares, realizada em Otsu, capital de Shiga, diante de pescadores do lago Biwa.
O texto está publicado na página oficial da Agência da Casa Imperial. Em tradução livre, Akihito disse: “O bluegill, entre os peixes exóticos, fui eu quem trouxe dos Estados Unidos há quase 50 anos e doou ao instituto de pesquisa da Agência de Pesca; no início havia grande expectativa de que servisse de alimento e a criação foi iniciada, mas hoje sinto o coração doer com o resultado”. A imprensa japonesa tratou o trecho como um pedido de desculpas, algo raro num discurso imperial. Convém não romantizar o gesto, porém: a frase custou pouco a quem a disse e nada mudou no lago no dia seguinte. O que ela fez foi tirar o tema da coluna de pesca e colocá-lo na primeira página.
Onde o Brasil repete a história do bluegill com tilápia e tucunaré?
Em quase todo reservatório fora da Amazônia onde há tucunaré, e em quase todo açude onde há tilápia. Ninguém pediu desculpas por eles.
A tilápia-do-nilo é africana e chegou ao país para a piscicultura; hoje é o peixe mais produzido do Brasil, com 499,4 mil toneladas em 2024, mais de quatro vezes o tambaqui, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE. Parte disso escapa de tanques-rede para rios e represas. O tucunaré é nativo da bacia amazônica, mas foi levado por pescadores esportivos a represas do Sudeste, do Nordeste e do Centro-Oeste. Um estudo de Fernando Pelicice e Angelo Agostinho publicado na revista Biological Invasions, em 2009, acompanhou a represa de Rosana, no rio Paranapanema, depois que o tucunaré apareceu ali em 2004: em dois anos, a densidade de peixes caiu cerca de 95% e o número de espécies, cerca de 80%. O padrão de destruição de fauna já visto em outros invasores, como a expansão do sapo-de-cana pela Austrália, se repete no Paraná com barbatanas.
Quanto custa soltar peixe fora do lugar pela lei brasileira?
No Brasil, transportar um peixe de uma bacia para outra e soltá-lo pode ser crime, mesmo que a espécie seja nacional.
A Lei 9.605/1998, a Lei de Crimes Ambientais, prevê no artigo 31 o crime de “introduzir espécime animal no País, sem parecer técnico oficial favorável e licença expedida por autoridade competente”, com pena de detenção de três meses a um ano, mais multa. O Decreto 6.514/2008, que regula as infrações administrativas, estende a regra no artigo 25 a quem introduz animal fora de sua área de distribuição natural, o que alcança o tucunaré solto numa represa paulista. A multa parte de R$ 2.000 e cresce R$ 200 por exemplar excedente, segundo o texto do decreto. O Ibama mantém a Estratégia Nacional para Espécies Exóticas Invasoras, com plano de implementação de 2019, e o ICMBio cuida das unidades de conservação. Na prática:
- Pesque e solte: para espécie invasora, a orientação dos órgãos ambientais é o oposto, não devolver o peixe à água;
- Tanque-rede: a licença para criar tilápia exige medidas contra fuga, e a fiscalização é do órgão estadual;
- Aquário: soltar peixe ornamental em lago de parque tem o mesmo enquadramento do artigo 25;
Rios como o Piracicaba, que dá nome a uma cidade paulista famosa pela piracema, dependem de que as espécies migratórias nativas não encontrem um predador novo na volta.
O que convém lembrar sobre o peixe que Chicago deu ao imperador do Japão?
O número que resume tudo: 18 peixes bastaram para colonizar um país em quatro décadas, a partir de uma intenção boa. Ao pescar tucunaré ou tilápia fora da Amazônia ou fora de um tanque, não devolva o peixe à água. Nunca transporte peixe vivo entre bacias, nem como isca. Antes de soltar qualquer animal, exija licença do órgão ambiental do estado, porque sem ela o artigo 31 da Lei 9.605 e o artigo 25 do Decreto 6.514 se aplicam. Ao criar tilápia, observe a barreira contra fuga do tanque como parte do licenciamento, não como detalhe. E, quando alguém propuser “melhorar” a pesca de uma represa com uma espécie de fora, lembre-se do lago Biwa.
Este é um texto informativo montado com a reportagem da National Geographic, o discurso publicado pela Casa Imperial do Japão, a ficha do Ministério do Meio Ambiente japonês, o IBGE, um artigo científico e as leis citadas. Licenciamento e multa dependem do órgão ambiental de cada estado.




