O canto do periquito-cara-suja voltou à Serra das Almas, na divisa do Ceará com o Piauí, após cerca de 114 anos sem registro confirmado da espécie naquela região. O retorno não foi um encontro casual: pesquisadores e organizações de conservação transferiram aves, prepararam a soltura e passaram a acompanhar sua adaptação à reserva.
Que ave retornou à Serra das Almas?
Trata-se de Pyrrhura griseipectus, periquito nativo do Brasil e ameaçado de extinção. A Associação Caatinga, gestora da reserva informa que a espécie não era registrada ali havia aproximadamente 114 anos. Isso descreve uma ausência regional; a ave não havia desaparecido de todo o país.
O projeto Refaunar Arvorar reuniu a Associação Caatinga, a Aquasis e o Parque Arvorar. As primeiras aves chegaram para aclimatação em 2024, e a primeira soltura ocorreu em dezembro daquele ano. A diferença importa: a população foi reintroduzida de maneira planejada, com monitoramento, e não redescoberta espontaneamente na mata.

Como a reintrodução foi preparada?
Segundo a cronologia publicada pelo próprio projeto, a construção do viveiro de aclimatação começou em setembro de 2023. A instalação permitiu que as aves se adaptassem gradualmente às condições do local antes da soltura. Outras transferências e liberações ocorreram nos meses seguintes.
Parte dos indivíduos veio da Serra de Baturité, ambiente diferente da Caatinga da Serra das Almas. Soltar um animal é apenas uma etapa: a equipe precisa observar alimentação, deslocamentos, formação de casais e riscos de predação. A presença continuada é mais informativa do que uma fotografia isolada no dia da chegada.
A origem de parte das aves também ajuda a entender por que proteger outros remanescentes de vegetação é decisivo para esse esforço.
A “Suíça” do Ceará tem 59 km², temperaturas de até 12 °C e uma floresta de 32 mil hectares ao redor➔
O que os novos filhotes revelam?
Em março de 2026, a Associação Caatinga anunciou o primeiro registro de reprodução natural da espécie em vida livre na reserva. A equipe havia encontrado ovos em caixas-ninho instaladas no território e acompanhou a eclosão. Antes disso, os filhotes registrados no local eram resultado de reprodução dentro do viveiro de aclimatação.
O nascimento fora do viveiro sugere que ao menos alguns casais conseguiram usar a área para se reproduzir. Ainda não significa que a população esteja segura: filhotes enfrentam perdas naturais, chuva, predadores e disponibilidade variável de alimento. A organização mantém o acompanhamento justamente para medir o que acontece após o primeiro resultado positivo.
Três marcos mostram como o retorno passou da preparação à reprodução na natureza.
2024: aclimatação e primeira soltura.
2025: novos grupos e filhotes no viveiro.
2026: reprodução registrada em vida livre.
Por que uma reserva pode fazer diferença para a espécie?
Uma área protegida oferece espaço para monitorar ninhos, reduzir perturbações e integrar o trabalho de guarda-parques, pesquisadores e comunidades próximas. No caso da Serra das Almas, as caixas-ninho simulam cavidades que as aves usam para reprodução. O projeto também prevê ações de educação ambiental e plantio de espécies nativas.
Conservação, contudo, não se resume ao limite da reserva. A origem das aves, a proteção de outras populações e a conectividade entre paisagens entram na avaliação de longo prazo. A reintrodução pode perder força se o ambiente ao redor deixar de oferecer condições para alimentação e deslocamento.

O retorno já pode ser considerado uma vitória definitiva?
Para mim, a notícia mais forte não é apenas a volta do canto depois de um século: é a possibilidade de observar uma nova geração nascida em liberdade. Ela transforma uma soltura planejada em uma hipótese concreta de estabelecimento da espécie naquela área.
Mas o verbo adequado ainda é acompanhar. Pesquisadores precisam verificar quantos filhotes sobrevivem, se novos casais se formam e como a população responde às próximas estações. O resultado atual oferece esperança documentada, sem autorizar a conclusão de que o risco de extinção terminou.
A história também lembra o que pode ocorrer quando a proteção de aves falha por tempo prolongado.
Bilhões de aves desapareceram em poucas décadas e o motivo ainda serve de alerta ao mundo➔


