O café ganhou fama de desidratar por causa do efeito diurético da cafeína, mas a história é mais equilibrada. Em pessoas acostumadas a consumir café, a quantidade de líquido ingerida pode compensar esse aumento da produção de urina. Um experimento com 50 consumidores habituais comparou café e água durante três dias e encontrou níveis semelhantes de água corporal total.
Por que o café passou a ser associado à desidratação?
A cafeína pode aumentar temporariamente a produção de urina, especialmente quando consumida em doses elevadas ou por pessoas que não estão habituadas a ela. Daí surgiu a ideia de que tomar café faria o organismo perder mais líquido do que recebe. Porém, o efeito diurético não significa automaticamente que a bebida provoque desidratação.
O ponto importante é considerar o balanço completo de líquidos. Uma xícara de café também fornece água ao organismo, enquanto a cafeína pode aumentar moderadamente a eliminação urinária. Em consumidores habituais, o corpo parece se adaptar melhor a esse efeito, tornando menos provável que o consumo moderado de café provoque uma perda líquida relevante de água.

O que aconteceu quando consumidores habituais trocaram café por água?
O estudo comparou diretamente duas situações em 50 homens que já consumiam entre três e seis xícaras de café diariamente. Durante três dias, eles receberam quatro porções de 200 mililitros de café por dia; em outro período, receberam a mesma quantidade de água. A alimentação e a atividade física foram controladas para facilitar a comparação.
Pesquisas da University of Birmingham encontraram que a água corporal total praticamente não mudou entre as duas condições. Os participantes apresentaram cerca de 51,5 kg de água corporal durante o período com café e 51,4 kg durante o período com água, sem diferenças significativas nos principais marcadores de hidratação.
A quantidade de cafeína pode mudar esse efeito sobre a hidratação?
Sim. A resposta depende da dose, da frequência de consumo e da adaptação individual à cafeína. Doses moderadas em consumidores habituais apresentam efeitos diferentes daqueles observados quando alguém que raramente toma café ingere uma quantidade elevada de cafeína de uma vez. Mais cafeína não significa necessariamente mais benefício para a hidratação.
Outro estudo encontrou que uma dose equivalente a aproximadamente cinco xícaras de café não alterou a água corporal total em homens saudáveis durante quatro dias. Já pesquisas com doses mais altas observaram aumento temporário da diurese. Isso mostra por que não é adequado transformar o resultado de um estudo sobre consumo moderado em uma regra para qualquer quantidade de cafeína.
Veja a seguir um vídeo do YouTube do canal Dr. Renato Silva, no qual o profissional explica os impactos fisiológicos e psicológicos do consumo de cafeína:
Quais sinais mostram que o café não necessariamente desidrata?
A hidratação não pode ser avaliada apenas pela quantidade de urina produzida depois de uma xícara. O organismo regula continuamente a água corporal por meio dos rins, hormônios e mecanismos relacionados à sede. Por isso, uma elevação temporária da urina não significa necessariamente que o corpo tenha terminado o período em estado de desidratação.
Alguns indicadores avaliados nesse tipo de estudo incluem:
O que esse resultado muda na maneira de pensar sobre café e hidratação?
Para quem já consome café regularmente, uma quantidade moderada pode contribuir para a ingestão diária de líquidos em vez de simplesmente “retirar” água do organismo. O café não precisa ser tratado automaticamente como uma bebida desidratante, embora a água continue sendo uma opção simples e importante para manter a hidratação.
Na prática, o mais útil é considerar o contexto: quantidade de café, teor de cafeína, frequência de consumo, atividade física, temperatura e necessidades individuais. O estudo das 50 pessoas não prova que qualquer quantidade de café seja equivalente à água, mas mostra algo importante: em consumidores habituais, quatro xícaras diárias não produziram diferença significativa na hidratação corporal em comparação com água.
