Níveis elevados de cafeína no sangue vêm sendo estudados como possível fator de influência sobre a quantidade de gordura corporal e, por consequência, sobre o risco de desenvolver diabetes tipo 2. Em 2023, um grupo internacional de pesquisadores utilizou informações genéticas para investigar com mais precisão essa relação entre cafeína, índice de massa corporal (IMC) e doenças metabólicas, levantando novas hipóteses para estratégias de prevenção e apontando caminhos para futuras intervenções em saúde pública, como trouxe no artigo “Appraisal of the causal effect of plasma caffeine on adiposity, type 2 diabetes, and cardiovascular disease: two sample mendelian randomisation study”.
Como a cafeína pode influenciar o peso e a gordura corporal
A palavra-chave central desse debate é a cafeína, uma substância estimulante presente no café, chá, refrigerantes e bebidas energéticas. O estudo analisou dados de quase 10 mil pessoas, focando em variações dos genes CYP1A2 e AHR, que determinam em parte a velocidade com que cada organismo metaboliza a cafeína e mantém sua concentração no sangue.
Os resultados apontaram que concentrações geneticamente previstas mais altas de cafeína no plasma estavam associadas a um IMC mais baixo e a menor massa de gordura corporal total. Em linguagem simples, pessoas predispostas geneticamente a manter mais cafeína no sangue apresentavam, em média, menos gordura, sugerindo um possível efeito metabólico sustentado ao longo da vida.

Quais mecanismos explicam o efeito da cafeína sobre o metabolismo
Parte desse efeito pode estar ligada a mecanismos fisiológicos que modulam o gasto de energia e o uso de substratos energéticos pelo organismo. Pesquisas experimentais anteriores já sugeriam que a cafeína atua sobre o sistema nervoso central e tecidos periféricos, influenciando o equilíbrio entre consumo e gasto calórico diário.
Entre os principais mecanismos discutidos pelo estudo e por trabalhos complementares na literatura científica, destacam-se:
- Aumento da termogênese: maior produção de calor pelo corpo, o que eleva o gasto energético basal;
- Maior oxidação de gordura: uso mais intenso de ácidos graxos como fonte de energia em repouso e durante o exercício;
- Efeito moderado no apetite em algumas pessoas, o que pode impactar a ingestão calórica total ao longo do dia;
- Modulação de hormônios metabólicos, como adrenalina e noradrenalina, que influenciam mobilização de gordura e glicose.
Como a cafeína se relaciona com o risco de diabetes tipo 2
Uma das principais questões do trabalho foi entender se a cafeína poderia estar ligada à probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2. A análise, feita por meio de randomização mendeliana, indicou que níveis geneticamente mais altos de cafeína no sangue se associavam a um menor risco de diabetes tipo 2, sugerindo uma possível relação causal.
Segundo os autores, aproximadamente metade desse efeito parecia ser mediada pela redução de IMC, o que sugere que o impacto da cafeína sobre o peso possa explicar boa parte da proteção observada. Ainda assim, não se pode descartar efeitos adicionais sobre a sensibilidade à insulina e o metabolismo da glicose, que precisam ser testados diretamente em ensaios clínicos.
A cafeína oferece proteção também contra doenças cardiovasculares
Outra pergunta frequente é se a cafeína teria efeito direto sobre doenças cardíacas e vasculares, como infarto e acidente vascular cerebral. No estudo genético, porém, não foi encontrada associação estatisticamente relevante entre níveis mais altos de cafeína no sangue e o risco de fibrilação atrial, insuficiência cardíaca ou acidente vascular cerebral.
Isso indica que, pelo menos nos dados avaliados, o impacto da cafeína foi mais claro sobre gordura corporal e diabetes tipo 2 do que sobre eventos cardiovasculares específicos. Outros componentes presentes no café e no chá, como polifenóis e antioxidantes, podem ter papel mais importante na saúde cardiovascular do que a cafeína isoladamente.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo do Dr. Savioli que explica essa relação do cafe e coração:
@drsavioli_oficial Café faz mal ao coração?
♬ som original – drsavioli_oficial
Que papel têm as bebidas com cafeína sem calorias no controle de peso
Com base nos achados, os autores levantaram a hipótese de que bebidas com cafeína sem calorias, como algumas versões de café e chá sem açúcar, poderiam ser avaliadas em estudos clínicos como ferramenta auxiliar na redução de gordura corporal. Essa estratégia seria potencialmente útil no contexto de prevenção de obesidade e diabetes tipo 2, principalmente em populações com alto risco metabólico.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores ressaltaram que os efeitos da cafeína não são exclusivamente benéficos e variam conforme a sensibilidade individual. Dependendo da dose, podem surgir sintomas como insônia, palpitações, ansiedade e alterações gastrointestinais, o que exige cautela especial em gestantes, pessoas com arritmias, distúrbios de sono ou transtornos de ansiedade já existentes.
O que ainda precisa ser estudado sobre cafeína peso e metabolismo
Embora o trabalho tenha utilizado uma amostra ampla e dados genéticos robustos, os próprios autores lembram que a randomização mendeliana não elimina todas as incertezas. Fatores não mensurados, diferenças entre populações e interações com outros genes ou elementos do estilo de vida podem influenciar os resultados e limitar a generalização para todos os grupos.
- Ensaios clínicos controlados com bebidas sem calorias e com cafeína, acompanhando peso, gordura corporal, glicemia e marcadores metabólicos ao longo do tempo;
- Estudos em diferentes faixas etárias, incluindo jovens, adultos e idosos, para avaliar se o efeito da cafeína varia com a idade e com mudanças hormonais;
- Análises sobre dose e horário de consumo, para entender melhor a relação entre quantidade, padrão de ingestão, sono e impacto metabólico;
- Investigação de outros compostos presentes no café e no chá, como polifenóis, que podem também influenciar o risco de diabetes e a saúde cardiovascular.
Diante do amplo consumo de cafeína em todo o mundo em 2025, mesmo efeitos metabólicos discretos podem ter impacto relevante em nível populacional. A discussão tende a permanecer em pauta na pesquisa em saúde pública, buscando entender em que medida essa substância pode integrar estratégias de prevenção de diabetes tipo 2 e de controle da gordura corporal, sempre com atenção aos possíveis efeitos adversos e às diferenças individuais.









