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Início Curiosidades

Europa pode continuar sendo habitável mesmo sem fontes hidrotermais no fundo do oceano

Por Maria Beatriz Silva
11/10/2026
Em Curiosidades
Europa pode continuar sendo habitável mesmo sem fontes hidrotermais no fundo do oceano

Europa pode continuar sendo habitável mesmo sem fontes hidrotermais no fundo do oceano

Europa, uma das luas de Júpiter, guarda um oceano subterrâneo que desperta o interesse de cientistas em busca de ambientes potencialmente habitáveis. Mesmo que seu fundo oceânico não apresente atividade geológica intensa, uma fonte alternativa de energia pode favorecer processos químicos importantes. A radioatividade natural das rochas é uma das hipóteses investigadas para explicar como microrganismos poderiam obter energia nesse ambiente distante.

Por que a radioatividade das rochas pode favorecer a vida no oceano de Europa?

A possibilidade de vida em Europa depende de mais fatores do que a presença de água líquida. Para sustentar organismos, um ambiente também precisa oferecer fontes de energia e substâncias químicas utilizáveis. Na Terra, alguns microrganismos vivem em regiões profundas, sem luz solar, aproveitando reações químicas. Esse exemplo ajuda a orientar hipóteses sobre ambientes subterrâneos extraterrestres.

A radioatividade natural pode contribuir para esse cenário por meio da radiólise, processo em que a radiação rompe moléculas de água e forma produtos químicos reativos. Essas substâncias podem participar de reações capazes de fornecer energia a microrganismos, desde que as condições ambientais permitam sua utilização. A hipótese amplia as possibilidades de habitabilidade, embora não represente evidência de organismos vivos na lua.

Oceano subterrâneo de Europa
A lua Europa pode ter uma fonte de energia escondida sob sua crosta gelada

Que evidências científicas sustentam a hipótese de energia química sem fontes hidrotermais?

A radiação emitida por elementos instáveis presentes nas rochas pode transformar a química da água mesmo em regiões sem iluminação solar. Esse mecanismo é relevante porque permite investigar ambientes nos quais a energia não depende diretamente do calor liberado por fissuras geológicas. Em Europa, a hipótese envolve a interação entre minerais radioativos, água e compostos presentes no fundo oceânico.

Estudos publicados na revista Scientific Reports sobre a habitabilidade microbiana de Europa avaliaram modelos nos quais a decomposição radioativa da água favoreceria a produção de sulfato, uma substância que determinados microrganismos utilizam em seu metabolismo. Os cálculos indicaram que esse mecanismo poderia fornecer energia suficiente em condições específicas, embora a composição real do oceano ainda seja incerta.

Quais processos químicos poderiam fornecer energia aos microrganismos no oceano subterrâneo?

A radiólise pode produzir diferentes substâncias a partir da água e favorecer reações entre compostos dissolvidos e minerais do fundo oceânico. O hidrogênio molecular é um dos produtos relevantes, pois pode participar de processos metabólicos microbianos. A disponibilidade desses compostos dependeria das características das rochas, da concentração dos elementos radioativos e das reações que ocorrem no ambiente.

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Seis processos que podem fornecer energia para microrganismos no subsolo

Em ambientes subterrâneos, longe da luz solar, a energia necessária para sustentar determinadas formas de vida pode vir de reações químicas associadas à radioatividade natural das rochas. Esse processo envolve a decomposição de moléculas de água, a formação de substâncias reativas e a interação entre esses compostos e os minerais do ambiente.

01

Decaimento radioativo de elementos naturais

Elementos radioativos presentes nas rochas, como urânio, tório e potássio-40, liberam energia à medida que seus núcleos se transformam. Parte dessa energia pode interagir com a água e desencadear reações químicas no subsolo.

02

Decomposição de moléculas de água

A radiação ionizante liberada nesse processo pode atingir moléculas de água e provocar sua decomposição, fenômeno conhecido como radiólise da água. Essa transformação dá origem a diferentes produtos químicos capazes de participar de reações posteriores.

03

Formação de hidrogênio e espécies reativas

Entre os produtos da radiólise podem surgir hidrogênio molecular e espécies químicas reativas, como radicais livres. Dependendo das condições ambientais, essas substâncias participam de reações que modificam a composição química da água subterrânea.

04

Reações entre os produtos da radiólise e minerais

O hidrogênio e outros produtos químicos podem reagir com minerais presentes nas rochas. A pirita, um mineral que contém ferro e enxofre, pode participar de transformações químicas capazes de alterar as substâncias disponíveis no ambiente subterrâneo.

05

Produção de sulfato utilizável por microrganismos

Em determinadas condições, as reações entre produtos da radiólise e minerais sulfurados podem favorecer a formação de sulfato. Esse composto pode atuar como aceptor de elétrons no metabolismo de alguns microrganismos, incluindo organismos que realizam a redução do sulfato.

06

Diferenças químicas que permitem obter energia

Quando o ambiente reúne substâncias que podem reagir entre si, surgem diferenças químicas das quais determinados microrganismos conseguem extrair energia. A combinação entre hidrogênio, sulfato e outros compostos pode sustentar o metabolismo de comunidades subterrâneas, mesmo na ausência de luz solar, desde que as condições locais sejam favoráveis.

O que a ausência provável de falhas ativas no fundo do mar muda nessa hipótese?

Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista Nature Communications calculou que as tensões geológicas atuais provavelmente não são suficientes para movimentar falhas no fundo oceânico de Europa. Isso limita a possibilidade de circulação intensa de fluidos pelas rochas profundas, reduzindo uma das fontes potenciais de energia química. A conclusão, porém, não demonstra que todo o oceano seja inabitável.

A pesquisa indica que as interações entre água e rocha podem ficar restritas às camadas superiores do fundo oceânico. A radiólise oferece uma possibilidade complementar, pois não depende necessariamente de falhas em movimento ou de fontes hidrotermais ativas. Ainda assim, a eficiência desse mecanismo precisa ser avaliada com dados mais precisos sobre os minerais, a água e a distribuição dos elementos radioativos.

Oceano subterrâneo de Europa
A energia que vem das rochas pode mudar o que sabemos sobre Europa

Por que Europa continua sendo um alvo importante na busca por ambientes habitáveis?

A existência provável de um oceano sob a crosta gelada faz de Europa um destino importante para a astrobiologia. A investigação não se limita a procurar água, mas também tenta determinar se existem condições químicas e fontes de energia que poderiam sustentar organismos. Um ambiente potencialmente habitável não é, necessariamente, um ambiente onde a vida surgiu ou permanece ativa.

A missão Europa Clipper, da NASA, foi planejada para investigar a estrutura da crosta, a composição da superfície e características relacionadas ao oceano subterrâneo por meio de sobrevoos. Essas observações ajudarão a restringir os modelos sobre a lua e suas condições ambientais. Com dados melhores, será possível avaliar com maior precisão se a radioatividade das rochas pode contribuir para manter processos químicos favoráveis à vida.

Tags: oceano subterrâneoradioatividade em Europavida extraterrestre
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