Logo depois de cruzar o palco como o melhor aluno formando da Universidade da Califórnia em Berkeley (UC Berkeley), Charles Long Jr. tentou caminhar os 15 minutos até o restaurante onde a família o esperava. Levou mais de uma hora: estranhos não paravam de abordá-lo para parabenizá-lo. No meio do trajeto, a sola dos sapatos sociais que ele havia guardado por anos — herança do avô — se soltou.
Era um detalhe quase simbólico para alguém que chegou ali pelo caminho mais difícil possível. Aos 43 anos, Long recebeu a University Medal, a maior honraria concedida a um formando em Berkeley. Mas, anos antes, ele tinha sido morador de rua e passado por várias temporadas na prisão.
De uma infância difícil às ruas
A vida de Long foi marcada por instabilidade desde cedo. O pai foi preso quando ele era criança e, com a mãe em tratamento, ele e os irmãos foram para o sistema de acolhimento.
Aos 18 anos, ele foi preso por uma acusação de agressão que afirma não ter cometido, e acabou aceitando um acordo judicial. Foi o início de um ciclo: após sair, sem rede de apoio, virou morador de rua em San Jose. Para sobreviver, chegou a furtar comida e roupas e, nas noites frias, pegava o último ônibus de uma cidade a outra só para se manter aquecido. Pequenas violações de condicional o levavam de volta à cadeia repetidas vezes. “Uma vez dentro do sistema, é muito difícil sair”, resumiu.
A virada que começou na pandemia
Em 2007, ao fim da condicional, Long se mudou para Las Vegas e passou cerca de uma década se reconstruindo, tirando diplomas técnicos e formando família. Mas faltava propósito — até que dois fatos mudaram tudo: o nascimento da filha e a pandemia.
Com a quarentena, ele conseguiu voltar a estudar em uma faculdade comunitária, onde tirou três diplomas de associado antes de transferir para Berkeley, em 2022, já aos 40 anos. Foi ali que ele desenvolveu, na maturidade, a mesma força emocional que muita gente só constrói ao atravessar os 40 e 50 anos. Ele faz questão de não romantizar a história: diz que foi “uma série de eventos afortunados”, e não apenas força de vontade, que o levou até lá.
O melhor aluno entre 9 mil formandos
Em Berkeley, Long se formou em sociologia e bem-estar social, com média 4.0 — ele, que havia concluído o ensino médio com notas baixíssimas. Selecionado entre mais de 9 mil formandos, recebeu a University Medal e discursou na cerimônia para cerca de 7 mil pessoas.
Não foi só desempenho acadêmico. Ele atuou como mentor de jovens em unidades de detenção juvenil e de detentos, acumulou mais de 900 horas de serviço comunitário e escreveu pesquisas sobre educação em presídios. Sua experiência virou ferramenta de trabalho. Nas próprias palavras: “Tiraram meu futuro por um sistema que se dizia justiça. Berkeley me devolveu credenciais e propósito para voltar a esses mesmos sistemas, agora com ferramentas e linguagem.”
O olhar de quem acompanhou de perto
Para quem conviveu com ele em sala de aula, o brilho não passou despercebido:
“As contribuições dele nas discussões, moldadas por sua experiência de ter sido encarcerado e crescido no acolhimento, tiveram um impacto profundo sobre os colegas. Charles é um jovem acadêmico brilhante, cujo potencial não tem paralelo.” — Laleh Behbehanian, professora do Departamento de Sociologia da UC Berkeley
O recado que ele deixou
No discurso, Long pediu que os colegas usassem suas conquistas para abrir caminho a outras pessoas: “que o seu trabalho construa portas onde alguém só enxergou paredes”. É quase a tradução da ideia por trás do provérbio sobre resiliência de que, quando sopram os ventos da mudança, alguns constroem muros e outros constroem moinhos de vento — e ele escolheu construir.
“Todo dia é uma nova oportunidade. Nada está escrito em pedra”, disse. Agora, planeja passar um tempo na África antes de tentar o doutorado em justiça restaurativa, para seguir transformando a própria dor em política pública.









