Se alguém pedisse para você apontar o norte agora, sem olhar o celular, talvez fosse preciso pensar alguns segundos. Para falantes de Guugu Yimithirr, língua aborígene australiana, manter referências como norte, sul, leste e oeste faz parte de um sistema espacial cotidiano muito diferente daquele usado normalmente em português.
Esquerda e direita perdem espaço para norte e sul
Em português, é natural dizer que uma caneta está “à esquerda” de um livro ou pedir para alguém virar “à direita”. Essas expressões usam um sistema chamado de referência relativa, porque a localização depende da posição ou da perspectiva de quem observa.
O Guugu Yimithirr favorece outro caminho. Estudos linguísticos mostram um uso intenso de quatro referências geocêntricas aproximadamente equivalentes a norte, sul, leste e oeste, inclusive em situações pequenas e cotidianas nas quais falantes de línguas europeias tenderiam a recorrer ao próprio corpo como referência.
A língua não simplesmente “ignora” esquerda e direita
Dizer que seus falantes “não conhecem esquerda e direita” seria uma simplificação. O linguista John B. Haviland registra que o léxico do Guugu Yimithirr consegue distinguir, por exemplo, mão esquerda e direita e também lateralidade, mas essas distinções não formam a base habitual das expressões de localização.
Em seu estudo sobre as direções cardeais da língua, Haviland explica que o sistema seleciona quatro raízes de direção geocêntrica para uma elaboração especial. O trabalho acadêmico pode ser consultado na publicação de Haviland na revista Ethos.
A diferença parece pequena até ser levada para situações comuns. Em vez de organizar o espaço principalmente em relação ao corpo de quem fala, o sistema permanece ancorado no ambiente. Mudar de posição ou virar de frente para outro lado não faz o norte mudar de lugar.

Leia também: A linguagem secreta dos gatos: os movimentos corporais dos felinos que dizem mais do que simples miados
O ponto de referência continua mesmo quando a pessoa se vira
Esse contraste ajuda a entender por que o Guugu Yimithirr chamou tanta atenção de pesquisadores da relação entre linguagem e cognição. “À minha esquerda” muda se a pessoa girar 180 graus; uma referência como “ao norte”, por outro lado, continua apontando para a mesma direção geográfica.
Na prática, usar regularmente esse tipo de descrição exige acompanhar a própria orientação em relação ao ambiente. A língua não funciona como uma bússola mágica, mas seu uso cotidiano cria situações em que saber aproximadamente onde estão as direções cardeais é necessário para compreender e produzir descrições espaciais.
Pesquisadores encontraram efeitos também fora da fala
Stephen C. Levinson, pesquisador ligado ao Max Planck Institute for Psycholinguistics, investigou justamente se essas diferenças linguísticas poderiam aparecer também em tarefas que não dependiam simplesmente de formular uma frase. O estudo de 1997 comparou falantes de Guugu Yimithirr com uma amostra de falantes de holandês.
Segundo o resumo publicado pelo Max Planck Institute, os falantes de Guugu Yimithirr estudados mostraram predominância de uma codificação espacial “absoluta” também na memória não verbal, de forma coerente com o sistema usado na língua. O grupo de língua holandesa apresentou predominantemente uma organização relativa.
O resultado foi interpretado como evidência de que categorias linguísticas podem estar associadas à maneira como informações espaciais são organizadas cognitivamente. Isso não significa que uma língua determine tudo o que uma pessoa é capaz de pensar, mas indica uma relação mensurável entre hábitos linguísticos e determinadas estratégias de orientação.
Guugu Yimithirr mostra que localizar algo não tem uma única lógica
O caso também ajuda a perceber algo fácil de ignorar: esquerda e direita parecem universais para quem cresceu usando essas palavras o tempo inteiro, mas são apenas uma das formas possíveis de organizar linguisticamente o espaço. Há sistemas centrados no observador, sistemas baseados nas características dos objetos e sistemas geocêntricos como o encontrado no Guugu Yimithirr.
Haviland estudou o uso da língua entre falantes da comunidade de Hopevale, perto de Cooktown, no extremo norte de Queensland, na Austrália. Seu trabalho descreve não apenas palavras isoladas, mas a maneira como essas referências aparecem no discurso sobre posição e movimento.
O teste mais simples é tentar apontar o norte agora
Para um falante de português, identificar esquerda e direita costuma ser imediato porque essas categorias são acionadas desde situações banais até instruções de trânsito. Já acompanhar continuamente o norte e o sul pode exigir atenção consciente ou até a ajuda de um mapa ou celular.
O Guugu Yimithirr mostra que essa dificuldade não precisa ser igual em todas as comunidades linguísticas. Quando referências geográficas estão incorporadas à conversa cotidiana, manter a orientação deixa de ser apenas uma habilidade usada em viagens ou trilhas e passa a participar da própria maneira de descrever onde pessoas e objetos estão.




