A frase “O desordenado amor por si mesmo é a causa de todos os pecados”, associada a São Tomás de Aquino, não condena o cuidado consigo próprio. O ponto está na palavra “desordenado”: o problema aparece quando desejos pessoais passam a ocupar um lugar superior à razão, ao bem e às obrigações morais.
Tomás de Aquino não considerava errado amar a si mesmo
Na Suma Teológica, Tomás de Aquino faz uma distinção importante entre amor próprio ordenado e amor próprio desordenado. Segundo ele, querer para si aquilo que é verdadeiramente bom é algo natural e correto, não uma falha moral.
O problema surge quando a pessoa passa a desejar algum bem de maneira excessiva ou inadequada. No artigo 4 da questão 77 da Suma Teológica, Aquino afirma que o amor desordenado de si está na origem do pecado porque leva à busca igualmente desordenada de bens temporais.

Leia também: A reflexão de Ludwig Wittgenstein sobre a linguagem: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.”
“O desordenado amor por si mesmo é a causa de todos os pecados”
A afirmação “O desordenado amor por si mesmo é a causa de todos os pecados” sintetiza diretamente esse raciocínio. Para Tomás de Aquino, quando alguém procura um bem temporal sem respeitar a ordem adequada, essa escolha nasce do desejo de obter para si algo que considera vantajoso, mesmo que isso contrarie outros bens superiores.
A questão, portanto, não é simplesmente desejar prazer, segurança, reconhecimento ou prosperidade. Essas coisas podem ser legítimas. O desvio acontece quando a pessoa procura esses bens de uma forma que ultrapassa seus limites e passa a subordinar tudo ao próprio interesse.
O que significa um amor próprio “desordenado”
A palavra ordem tem grande importância na filosofia moral de Aquino. Um desejo é ordenado quando ocupa um lugar compatível com o bem racional e moral; torna-se desordenado quando um bem menor passa a ser buscado como se estivesse acima de valores que deveriam ter prioridade.
Um exemplo simples seria o desejo por dinheiro. Buscar estabilidade financeira não é condenado por essa perspectiva, mas enganar outra pessoa para obter vantagem significa colocar o benefício próprio acima da justiça. O problema não está no dinheiro em si, mas na forma e no lugar que esse desejo assume.
O pensamento de Aquino também dialoga com Santo Agostinho
Ao desenvolver esse argumento, Tomás de Aquino recorre a Santo Agostinho. No mesmo artigo da Suma, ele menciona a ideia agostiniana de um amor de si levado até o desprezo por Deus, oposição que aparece na reflexão sobre as duas cidades apresentada por Agostinho.
Essa referência ajuda a compreender que a crítica não é dirigida à autoestima ou à preservação pessoal. O alvo é uma forma de amor que transforma o próprio indivíduo na medida absoluta das escolhas, fazendo com que justiça, dever e relação com os outros sejam deixados em segundo plano.

Desejos diferentes podem ter a mesma raiz
Na argumentação de Aquino, pecados podem nascer de objetos muito diferentes: dinheiro, prazer, prestígio, poder ou até do desejo de evitar algo desagradável. Apesar dessa diversidade, ele entende que existe uma raiz comum quando a pessoa procura o próprio bem de maneira fora da ordem adequada.
No artigo 5 da mesma questão, Aquino desenvolve essa ligação entre amor próprio e desejo desordenado por bens. Assim, ações aparentemente distintas podem compartilhar uma estrutura semelhante quando o interesse particular é colocado acima daquilo que a razão moral indicaria.
A frase não deve ser confundida com uma condenação da autoestima
Lida fora do contexto, a frase pode parecer uma crítica a qualquer valorização de si mesmo. Mas Aquino afirma explicitamente que o amor próprio bem ordenado, pelo qual alguém deseja para si um bem apropriado, é correto e natural.
A diferença está no equilíbrio. Cuidar da saúde, buscar segurança, desenvolver talentos e estabelecer limites pessoais não correspondem ao amor próprio criticado pelo filósofo. A ideia se dirige ao momento em que o “eu” se torna prioridade absoluta, independentemente das consequências para outras pessoas ou para princípios considerados superiores.
Como essa reflexão pode ser aplicada às escolhas cotidianas
A frase de São Tomás de Aquino pode servir como uma pergunta sobre as motivações por trás de uma decisão. Antes de agir, é possível avaliar se determinado desejo busca um bem legítimo ou se está exigindo que outros valores sejam sacrificados apenas para garantir uma vantagem pessoal.
Essa leitura evita interpretar o pensamento tomista como uma defesa da anulação de si mesmo. A questão é colocar o amor próprio dentro de uma ordem de responsabilidades e valores: desejar o próprio bem sem transformar esse desejo em justificativa para injustiça, excesso ou desprezo pelo bem alheio.




