Poucos municípios brasileiros concentram, em uma área de poucas quadras, um dos concursos de humor gráfico mais antigos do mundo, uma queda-d’água que corta a área urbana e uma escola de agronomia reconhecida internacionalmente. Piracicaba, localizada a aproximadamente 160 km de São Paulo, reúne essas características. Fundada em 1º de agosto de 1767 com o nome de Vila Nova da Constituição, a cidade também se tornou referência no humor gráfico ao sediar, desde 1974, o Salão Internacional de Humor, um dos mais antigos eventos do gênero ainda em atividade no país.
O caminho de Piracicaba até o título de Capital do Humor
A história começa em um bar chamado Café do Bule. Durante a ditadura militar, jornalistas, artistas e intelectuais da cidade costumavam se reunir no estabelecimento para discutir os rumos do país. Conforme o site oficial do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, foi nesses encontros que surgiu a proposta de organizar uma exposição de humor gráfico dentro do Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba.
Em 1973, uma comitiva viajou ao Rio de Janeiro para buscar apoio do jornal O Pasquim, um dos principais representantes da imprensa alternativa brasileira. A primeira edição do Salão de Humor de Piracicaba ocorreu em agosto de 1974, no saguão do Banco Português, na praça José Bonifácio. O evento contou com a participação de nomes como Millôr Fernandes, Ziraldo, Zélio Alves Pinto, Jaguar, Fortuna e Ciça. De acordo com o portal oficial da Prefeitura de Piracicaba, o concurso passou a ter alcance internacional a partir da terceira edição e conquistou reconhecimento dentro e fora do Brasil. Em 2021, sua 48ª edição recebeu 2.075 trabalhos, enviados por 349 artistas de 49 países.

O Salto de Piracicaba e a origem do nome que significa “onde o peixe para”
A explicação está na geografia que marca o centro da cidade. O Salto do Rio Piracicaba forma uma queda-d’água de aproximadamente 5 metros de altura e 200 metros de largura, obstáculo que impedia os peixes de seguir rio acima durante a piracema. O nome tupi-guarani “Piracicaba” significa justamente “lugar onde o peixe para”, uma referência ao fenômeno natural que já caracterizava a região antes da colonização.
Depois que anoitece, o salto ganha iluminação especial e se transforma em um dos cenários mais fotografados da região. É possível observar a queda-d’água de diferentes pontos, mas um dos melhores ângulos fica no Elevador Turístico Alto do Mirante. Com 24 metros de altura, a torre está instalada sobre a Ponte Caio Tabajara, tem entrada gratuita e oferece uma vista panorâmica que reúne o rio, o Salto e o Engenho Central.
O antigo Engenho Central e sua transformação em polo cultural
Construído em 1881, o complexo industrial chegou a figurar entre os maiores produtores de açúcar e álcool do país. Atualmente, o Engenho Central ocupa aproximadamente 80 mil metros quadrados na margem direita do rio e se consolidou como um dos principais espaços culturais do interior paulista. Segundo o InvesteSP, portal do Governo do Estado, o local está entre as atrações turísticas de destaque de Piracicaba.
- Teatro Municipal Erotídes de Campos: funciona dentro do complexo e mantém uma programação regular de peças teatrais, shows e outras apresentações culturais.
- Ponte Pênsil: aberta em 1992, possui 103 metros de comprimento e conecta o Engenho Central ao centro da cidade, com vista para o rio e o Salto.
- Museu da Água: ocupa a primeira estação de captação de água do município, construída em 1887, e reúne aquários, mirantes e uma arquitetura histórica em pedra.
- Salão Internacional de Humor: transferido para o Engenho Velho em 1981, utiliza atualmente as galerias do Engenho Central durante a realização do concurso.
- Festa das Nações: acontece anualmente em maio e, ao longo de cinco dias, reúne culinária, danças e apresentações culturais de mais de uma dezena de países.

Como a ESALQ/USP se tornou referência internacional em agronomia?
A história começa no início do século XX, quando foi fundada, em 1901, a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP). A instituição passou a fazer parte da Universidade de São Paulo (USP) como uma de suas unidades fundadoras. Com aproximadamente 915 hectares, o campus corresponde a quase metade de toda a área da USP no estado e consolidou sua reputação internacional na pesquisa agronômica.
Dentro do campus, um parque de 15 hectares chama a atenção pela composição paisagística. Projetado em 1907 pelo paisagista belga Arsênio Puttemans, o espaço segue o estilo inglês, com lagos, gramados e árvores centenárias. O conjunto recebeu o tombamento de Patrimônio Público Estadual em 2006 e pode ser visitado gratuitamente, tornando a área universitária um dos principais atrativos turísticos de Piracicaba.
Outros lugares que merecem entrar no roteiro por Piracicaba
Além do percurso que conecta o Engenho Central, o Salto e a ESALQ, Piracicaba reúne construções históricas e uma colônia rural singular no Sudeste brasileiro. Muitas dessas atrações estão próximas umas das outras ou podem ser visitadas em passeios de bate-volta.
- Rua do Porto: área histórica situada às margens do rio, com calçadão arborizado, restaurantes tradicionais e saídas para passeios de barco de 15 minutos até a ponte do Morato.
- Casa do Povoador: espaço que reproduz a arquitetura das primeiras moradias da cidade e abriga um acervo dedicado à formação do município.
- Casarão do Turismo: edifício do século XIX localizado no calçadão da Rua do Porto, restaurado nos anos 80 e atualmente utilizado como centro cultural.
- Aquário Municipal: reúne espécies da fauna aquática regional e é uma opção tradicional de passeio para famílias.
- Bairros Santa Olímpia e Santana: abrigam a última colônia de origem tirolesa (trentina) do Sudeste brasileiro, com a Igreja Nossa Senhora da Imaculada, a Via Sacra e a Galeria da Cucagna, onde há um bistrô e lojas de artesanato.
- Festa do Divino Espírito Santo: celebrada na Rua do Porto desde 1826, está entre as manifestações religiosas mais antigas do interior paulista.
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Como é o clima e a melhor época para visitar Piracicaba?
O clima é tropical, com estações bem definidas. Verão quente e chuvoso, inverno seco e ensolarado, ideal para caminhar pelo centro histórico, visitar o Engenho Central e apreciar o Salto do Rio Piracicaba iluminado à noite.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a Piracicaba?
Para quem sai de São Paulo de carro, o caminho passa pela Rodovia Anhanguera (SP-330) ou pela Rodovia dos Bandeirantes (SP-348), com acesso à Rodovia do Açúcar (SP-308). São aproximadamente 160 km, percorridos em cerca de duas horas. A cidade também está a cerca de 70 km de Campinas.
Há ônibus regulares com saídas várias vezes ao dia da capital paulista e de outros municípios do interior. Quem viaja de avião pode desembarcar no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, e seguir o trecho final por rodovia. Piracicaba também conta com um aeroporto municipal destinado a voos executivos.
A Capital do Humor no coração do interior paulista
Piracicaba combina atrações difíceis de encontrar reunidas em outro município brasileiro: um Salão Internacional de Humor em atividade desde 1974, um salto com duzentos metros de largura que atravessa a área central, um complexo cultural instalado em um dos grandes engenhos açucareiros do século XIX e um campus universitário com jardins criados por um paisagista belga em 1907. Em uma área relativamente compacta, a herança da produção de açúcar convive com a irreverência do humor gráfico e a tradição agrícola.
Vale a pena conhecer Piracicaba, atravessar a Ponte Pênsil no fim da tarde e observar a queda-d’água iluminada, cujo reflexo se destaca diante das construções do Engenho Central. É também uma oportunidade de compreender por que a cidade cujo nome, na língua tupi, significa “lugar onde o peixe para” continua entre os destinos culturais mais completos do interior paulista.




