Durante muito tempo, a comunicação foi associada principalmente a animais, plantas e organismos com sistemas nervosos ou estruturas especializadas. Os fungos, porém, apresentam uma forma diferente de transmitir sinais. Em redes formadas por filamentos chamados hifas, mudanças elétricas podem percorrer o micélio e revelar uma atividade interna complexa, embora isso não signifique que os fungos tenham linguagem semelhante à humana.
Por que os fungos conseguem produzir sinais elétricos em suas redes?
Os fungos filamentosos crescem formando hifas, estruturas tubulares que se ramificam e podem se conectar. O conjunto dessas estruturas forma o micélio, uma rede capaz de ocupar o solo e explorar diferentes regiões em busca de recursos. Como as hifas possuem membranas com gradientes iônicos, mudanças no potencial elétrico podem surgir durante seu funcionamento.
Essas variações não são equivalentes a pensamentos ou mensagens conscientes. Elas representam fenômenos fisiológicos que os pesquisadores conseguem registrar com eletrodos colocados no substrato ou diretamente em estruturas fúngicas. Em determinadas espécies, foram observados impulsos semelhantes a potenciais de ação, com diferentes amplitudes, durações e intervalos entre os sinais registrados.

Os sinais elétricos dos fungos podem ser considerados uma forma de comunicação?
Os sinais elétricos dos fungos chamam atenção porque podem apresentar padrões repetidos e variar diante de estímulos ambientais. Isso levanta a possibilidade de que a atividade elétrica esteja relacionada ao transporte de recursos, ao crescimento e à coordenação de respostas dentro da rede. Ainda assim, a função exata desses sinais permanece uma questão científica aberta.
Pesquisas publicadas na Royal Society Open Science registraram oscilações de potencial elétrico em diferentes espécies de fungos, incluindo fungos orelha-de-pau, enoki, cogumelo-orelha-de-pau e Cordyceps. Os autores observaram que os sinais variavam entre espécies e podiam formar sequências. A análise matemática dessas sequências permitiu compará-las a padrões de linguagem, sem demonstrar uma linguagem fúngica equivalente à humana.
Que papel o micélio desempenha na transmissão desses sinais?
Um dos aspectos mais interessantes está na capacidade do micélio de formar uma rede contínua e dinâmica. Quando diferentes regiões estão conectadas por hifas, alterações locais podem ocorrer em um organismo que funciona como uma estrutura integrada. Isso cria condições para que mudanças químicas, elétricas e físicas se relacionem dentro da mesma colônia.
Alguns pontos ajudam a interpretar o fenômeno:
O que acontece quando uma alteração elétrica percorre a rede micelial?
Em muitos fungos, a atividade elétrica também pode estar ligada ao movimento de íons através das membranas celulares. Íons como potássio, cálcio, sódio e prótons participam da formação de diferenças de potencial. Alterações nesses fluxos podem acompanhar crescimento, percepção ambiental e outras funções celulares, criando sinais que se propagam ou mudam conforme as condições encontradas pelo fungo.
Um estudo publicado em 2026 registrou a atividade elétrica durante cerca de quinze dias em substratos colonizados por fungos ostra. Os pesquisadores identificaram sinais lentos, com amplitudes na escala de milivolts, e encontraram indícios claros de propagação direcional entre pontos de registro. Os resultados são compatíveis com ondas iônicas viajando pela rede micelial de maneira consistente.

Até que ponto é correto dizer que os fungos estão “falando”?
É importante separar o que foi medido daquilo que ainda é hipótese. Os pesquisadores conseguem detectar alterações elétricas e estudar sua propagação, mas isso não prova que os fungos estejam conversando com mensagens intencionais. A expressão “fungos que falam” funciona como metáfora para um fenômeno real: redes vivas apresentam atividade elétrica organizada e mensurável em condições controladas.
Além da curiosidade biológica, essa atividade desperta interesse tecnológico. Pesquisas científicas já investigam o uso de micélios como componentes de sensores, sistemas eletrônicos e dispositivos biohíbridos. A possibilidade de aproveitar respostas elétricas produzidas por organismos vivos abre uma área experimental promissora e interdisciplinar que combina diferentes áreas, incluindo microbiologia, engenharia, materiais e computação não convencional.
