O Estreito de Gibraltar está fechando. O Mediterrâneo caminha para sumir do mapa. Em 250 milhões de anos, o planeta voltará a ter um único supercontinente, e a Espanha deixará de ser uma península no extremo da Europa para se tornar uma encruzilhada de continentes. Parece roteiro de ficção científica, mas é o que projetam os modelos da tectônica de placas, sustentados por um estudo recente que mostra o oceano Atlântico começando a se fechar bem ao lado da Península Ibérica.
O nome do próximo supercontinente é Pangea Próxima
A hipótese foi formulada em 1982 pelo geólogo norte-americano Christopher Scotese, do projeto Paleomap. Inicialmente batizada de Pangea Ultima, foi renomeada para Pangea Próxima pelo próprio autor, para evitar o equívoco de que seria o último supercontinente da história da Terra.
Segundo a National Geographic, o ciclo dos supercontinentes é regido pela tectônica de placas. A cada 300 a 500 milhões de anos, as massas terrestres se unem e voltam a se fragmentar. A última vez que isso aconteceu foi com a Pangea original, há cerca de 320 milhões de anos.
O próprio Scotese reconhece o caráter especulativo do modelo. Em declaração reproduzida pela enciclopédia, ele afirmou que “é tudo bastante fantasia para começar, mas é um exercício divertido pensar no que pode acontecer”, segundo a verbete enciclopédico sobre Pangea Próxima.

O Estreito de Gibraltar já está se fechando
A parte mais concreta da previsão não vem da fantasia, mas de um estudo publicado em março de 2024 na revista Geology. O paper “Gibraltar subduction zone is invading the Atlantic” foi assinado por João C. Duarte, da Universidade de Lisboa, e por Boris Kaus, da Universidade Johannes Gutenberg de Mainz, na Alemanha.
O grupo simulou em três dimensões o comportamento da zona de subducção sob o Estreito de Gibraltar. A conclusão: o arco de Gibraltar está migrando lentamente para oeste e vai invadir o Atlântico, dando início ao fechamento do oceano, segundo o release oficial publicado pela ScienceDaily / Universidade de Mainz.
“O arco de Gibraltar que agora está prestes a invadir o Atlântico é o terceiro” desse tipo no mundo, segundo declaração de Kaus reproduzida pelo portal científico Earth.com. A atividade do arco diminuiu nos últimos 5 milhões de anos, mas voltará a acelerar.
Como será o mapa da Espanha em 250 milhões de anos?
Os modelos do Paleomap Project preveem três grandes movimentos que vão redesenhar a posição ibérica no planeta. Cada um deles produz um vizinho novo.
- África sobe: a placa africana avança contra a Eurásia, fechando o Mediterrâneo e colando Marrocos, Argélia e Tunísia ao sul ibérico.
- Atlântico fecha: a América do Norte volta a se aproximar da Europa, trazendo a costa leste dos Estados Unidos e do Canadá para perto do que hoje é Portugal e Espanha.
- Arábia colide: o fechamento do Mar Vermelho leva a Arábia Saudita a se conectar à massa euroafricana, criando uma cordilheira do Mediterrâneo até a Ásia.
- Iberia vira encruzilhada: rodeada por novos blocos continentais, a península pode se tornar ponto de contato entre seis grandes regiões hoje separadas por mar.
- Fim das ilhas britânicas: a Grã-Bretanha migra para o norte, em direção ao Polo Norte, ficando longe da nova Espanha.
A Anomalia Magnética do Atlântico Sul é perigosa para o Brasil?
No solo, não há motivo para alarme. A Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS) é uma vasta região de campo magnético enfraquecido que se estende entre a América do Sul e a África, cobrindo boa parte do território brasileiro. Segundo a Agência Espacial Europeia (ESA), o campo perdeu cerca de 9% de sua força global nos últimos 200 anos, e a intensidade mínima na anomalia caiu de 24.000 para 22.000 nanoteslas entre 1970 e 2020.
O risco real recai sobre os satélites e naves que cruzam a área, expostos a níveis mais altos de radiação capazes de danificar equipamentos eletrônicos. Para quem vive no Brasil, porém, a anomalia não traz efeito perceptível no dia a dia, e seu enfraquecimento ainda está dentro do que os cientistas consideram variação normal do planeta.
O vídeo é do canal Professor Leandro Ribeiro, cerca 262 mil inscritos dedicado a análises geográficas, meteorológicas e de geociências, e esclarece a dinâmica do geodínamo no núcleo terrestre, o monitoramento preventivo de satélites por agências espaciais e a completa ausência de impactos no clima troposférico ou na saúde humana:
O que muda no planeta inteiro?
O fim do Mediterrâneo é só parte do quadro. A reorganização das placas vai alterar oceanos, montanhas e o clima global. Veja os principais marcos previstos pelos modelos científicos para os próximos 250 milhões de anos, com base em dados da Encyclopædia Britannica e da Live Science.
Quanto disso é certeza e quanto é especulação?
A tectônica que move os continentes é fato comprovado e medido por GPS. Estações na África e na Ibéria registram movimento de 3 a 6 milímetros por ano em direção uma à outra, segundo dados publicados pelo Institut national des sciences de l’Univers da França.
O que é especulação é o mapa exato do supercontinente. Existem ao menos três modelos concorrentes: Pangea Próxima (com fechamento do Atlântico), Amasia (com fechamento do Pacífico e formação no Polo Norte) e Novopangea. Os geólogos divergem sobre qual oceano fecha primeiro.
O paper de Duarte e Kaus reforça a hipótese de Pangea Próxima, ao mostrar que a subducção de Gibraltar tem combustível físico para invadir o Atlântico. O artigo foi publicado na revista Geology em maio de 2024, conforme registro no GeoScienceWorld.
Um futuro que ninguém vai ver
250 milhões de anos é mais tempo do que separa os humanos dos dinossauros. Nenhuma das espécies que hoje habitam a Espanha estará viva para ver o Mediterrâneo virar planície ou Marrocos se tornar vizinho terrestre de Madri.
Você precisa olhar para um mapa do Mediterrâneo hoje e tentar imaginá-lo seco: é assim que a ciência projeta o destino geológico da Espanha.










