O cobogó nasceu no Recife, em 1929, como uma solução para permitir a passagem de ar e luz natural pelas construções sem deixar os ambientes totalmente expostos. Quase um século depois, esse bloco vazado continua presente em fachadas, varandas e divisórias de casas brasileiras. Sua história reúne uma invenção pernambucana, a arquitetura modernista e uma maneira de lidar com o calor sem depender exclusivamente de equipamentos elétricos.
Quem inventou o cobogó no Recife em 1929?
A criação é atribuída a três profissionais que atuavam em Pernambuco: Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis. O trio desenvolveu um sistema de blocos para construção que ganhou reconhecimento por combinar praticidade, ventilação e possibilidades de composição arquitetônica. A invenção foi patenteada no Recife em 1929.
O nome cobogó surgiu da junção das primeiras sílabas dos sobrenomes dos inventores: CO, de Coimbra; BO, de Boeckmann; e GÓ, de Góis. A origem é apresentada pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que também destaca a importância do elemento na arquitetura brasileira.

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Como essa invenção ajudava a refrescar as construções?
O cobogó funciona como uma parede formada por blocos com aberturas. Esses espaços permitem a passagem do ar e a entrada parcial de luz, ao mesmo tempo que criam uma barreira visual. Em regiões quentes, essa combinação pode favorecer a ventilação natural e reduzir a exposição direta ao sol, dependendo da orientação da fachada.
Entretanto, o cobogó não funciona como um aparelho de refrigeração. Ele não produz ar frio nem garante uma temperatura mais baixa em qualquer situação. Sua contribuição está no sombreamento e na circulação do ar, especialmente quando o projeto aproveita ventos predominantes e aberturas que permitem a ventilação cruzada.
A arquitetura árabe influenciou a criação do cobogó?
Sim. A solução brasileira possui relação com as treliças e os muxarabis, elementos associados à arquitetura de influência árabe que permitem controlar a entrada de luz e preservar parte da privacidade. Essas estruturas já eram conhecidas em construções de diferentes regiões antes do surgimento do cobogó pernambucano.
A contribuição dos inventores do Recife foi transformar esse princípio em um elemento construtivo padronizado, adaptado às técnicas e aos materiais disponíveis. Segundo um estudo publicado na Revista Arquitetura e Lugar, da Universidade Federal de Campina Grande, o cobogó passou a reunir funções ambientais, construtivas e decorativas.
Como o cobogó se espalhou pela arquitetura brasileira?
Uma das primeiras obras a utilizar o cobogó de maneira marcante foi a Caixa d’Água de Olinda, projetada pelo arquiteto Luiz Nunes em 1934. A construção mostrou como os blocos vazados poderiam fazer parte da fachada de um edifício e não apenas funcionar como um detalhe secundário.
Nas décadas seguintes, o elemento ganhou espaço na arquitetura modernista. Projetos de profissionais como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy incorporaram soluções vazadas em diferentes contextos. O próprio Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro possui uma parede de cobogós construída em 1958, demonstrando como o recurso se consolidou em obras de destaque.

Onde o cobogó pode ser utilizado nas casas atuais?
O uso contemporâneo vai além das fachadas externas. Os blocos podem formar divisórias entre ambientes, proteger áreas de serviço e acrescentar textura a paredes. A variedade de desenhos também permite criar efeitos de luz e sombra que mudam conforme a posição do sol ao longo do dia.
Entre as aplicações mais comuns estão:
- Fachadas: ajudam a filtrar a luz solar e permitem a passagem de ar.
- Varandas: oferecem proteção visual parcial sem fechar completamente o espaço.
- Áreas de serviço: favorecem a ventilação e disfarçam equipamentos e objetos.
- Divisórias internas: separam ambientes mantendo a sensação de continuidade.
- Muros e corredores: criam superfícies vazadas e desenhos decorativos.
Os materiais e formatos mudaram desde a invenção?
Os primeiros modelos eram associados ao uso de materiais cimentícios e à produção de blocos para construção. Com a popularização da técnica, surgiram versões em cerâmica, concreto e outros materiais, com desenhos geométricos e orgânicos. Atualmente, o cobogó pode aparecer tanto em projetos de linguagem tradicional quanto em ambientes contemporâneos.
A escolha do material influencia a manutenção, a resistência e o efeito visual. Peças cerâmicas podem oferecer diferentes cores e acabamentos, enquanto versões de concreto costumam ter aparência mais próxima da arquitetura modernista. Porém, as características variam conforme o fabricante, e nem todo modelo é adequado para uso externo ou função estrutural.
O cobogó realmente oferece privacidade?
A resposta depende do desenho e do tamanho das aberturas. Modelos mais fechados dificultam a visão direta, enquanto peças muito vazadas deixam o interior mais exposto. Também importa a diferença de iluminação entre os ambientes: durante a noite, uma área interna iluminada pode ficar mais visível para quem observa pelo lado de fora.
Por isso, o cobogó deve ser entendido como um recurso de privacidade parcial, e não como uma parede completamente opaca. Quando a intenção é bloquear a visão ou a entrada de chuva, pode ser necessário combiná-lo com outros elementos, como vidro, vegetação ou painéis apropriados.




