O fogão a gás mudou a maneira de cozinhar no Brasil, mas demorou décadas para conquistar espaço nas residências. Mesmo depois da chegada do gás engarrafado, em 1937, muitas famílias continuaram utilizando fogões a lenha por motivos econômicos, culturais e pela dificuldade de acesso ao novo combustível. A transformação se acelerou ao longo do século XX e modificou a organização das cozinhas, o preparo das refeições e o trabalho doméstico.
Por que o fogão a lenha dominou as cozinhas brasileiras por tanto tempo?
Durante boa parte da história brasileira, cozinhar dependia da queima de lenha ou carvão. Em muitas regiões rurais, a madeira podia ser obtida nas próprias propriedades ou nas proximidades, tornando o combustível acessível para as famílias. O fogão a lenha também servia para aquecer água e preparar grandes quantidades de alimentos.
Segundo o portal Brasiliana Museus, a industrialização e a urbanização transformaram gradualmente os espaços domésticos. Cozinhas que antes ocupavam áreas externas passaram a integrar as residências urbanas. Entretanto, a presença dos novos equipamentos não significou o abandono imediato das práticas culinárias tradicionais.

Os primeiros fogões a gás já existiam antes dos botijões
O uso do gás para cozinhar começou a aparecer em algumas áreas urbanas brasileiras ainda no século XIX. Em São Paulo, companhias de energia passaram a promover fogões ligados às redes de distribuição de gás produzido a partir do carvão. O problema era que essa infraestrutura estava concentrada em determinadas regiões das grandes cidades, deixando grande parte da população sem acesso.
Uma pesquisa publicada nos Anais do Museu Paulista, da Universidade de São Paulo, mostra que empresas como a San Paulo Gas Company incentivaram a substituição dos fogões a lenha entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. A publicidade destacava vantagens relacionadas à limpeza e à praticidade, mas a expansão dependia de redes de abastecimento e investimentos.
A chegada do gás de botijão em 1937 começou a mudar o cenário
Uma transformação importante ocorreu em 1937, quando o empresário Ernesto Igel fundou, no Rio de Janeiro, a Empresa Brasileira de Gás a Domicílio, que posteriormente se tornaria a Ultragaz. A comercialização do gás engarrafado permitiu levar combustível a residências que não possuíam ligação com uma rede canalizada.
De acordo com o Sindigás, o início dessa atividade esteve relacionado ao aproveitamento de cilindros de propano anteriormente destinados aos dirigíveis Graf Zeppelin. Entretanto, o número inicial de consumidores era pequeno. A comercialização exigia criar uma estrutura de distribuição, armazenamento e reposição dos recipientes, o que dificultava a chegada do produto a diferentes regiões.
Quatro motivos explicam a substituição lenta do fogão a lenha
A troca de equipamento envolvia muito mais do que a preferência por uma tecnologia moderna. As famílias precisavam comprar um fogão, pagar pelo combustível e confiar em um sistema ainda pouco conhecido. Além disso, a disponibilidade de lenha continuava sendo uma vantagem econômica em muitas localidades.
Entre os principais obstáculos estavam:
- Custo inicial: comprar um fogão a gás representava uma despesa importante para muitas famílias.
- Preço do combustível: a lenha podia ser mais acessível, especialmente nas áreas rurais.
- Distribuição limitada: o abastecimento de botijões ainda precisava alcançar cidades menores e regiões distantes.
- Medo de acidentes: a novidade provocava desconfiança sobre vazamentos, incêndios e explosões.

O que mudou nas cozinhas com a popularização do gás?
O fogão a gás permitiu acender e controlar a chama sem precisar preparar a lenha, manter brasas ou retirar cinzas após cada utilização. Isso facilitou o preparo de refeições e reduziu a presença de fumaça e fuligem dentro das casas. A mudança também contribuiu para uma cozinha mais fácil de limpar, embora os equipamentos a gás continuem exigindo ventilação e manutenção adequadas.
Uma pesquisa da Universidade de São Paulo mostra que os fogões a gás continuaram disputando espaço com os modelos a lenha e carvão durante décadas. Mesmo nos anos 1950, anúncios publicitários ainda procuravam convencer os consumidores sobre sua segurança e praticidade. A adoção do novo equipamento aconteceu de maneira gradual e desigual.
Por que o fogão a lenha continuou presente mesmo depois da modernização?
A expansão do gás não eliminou completamente o uso da lenha. Em propriedades rurais e em algumas regiões brasileiras, os fogões tradicionais continuaram sendo utilizados por questões econômicas, disponibilidade de combustível e costumes culinários. Determinadas preparações também permaneceram associadas ao cozimento lento sobre brasas, reforçando o vínculo cultural com esse equipamento.
A história da substituição dos fogões é real e documentada em pesquisas sobre a urbanização e o consumo de energia no Brasil. Os exemplos domésticos apresentados servem apenas para ilustrar essa transformação, sem representar a trajetória de uma família específica. Atualmente, quem utiliza fogão a lenha deve manter a chaminé e a ventilação adequadas, enquanto usuários de fogões a gás precisam verificar mangueiras, reguladores e instalações conforme as orientações de segurança.




