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Consumidora encontra máquina de lavar anunciada com grande desconto, conclui o pagamento e recebe cancelamento unilateral porque loja afirma ter cometido erro no preço; Código de Defesa do Consumidor estabelece limites para o cancelamento de ofertas

Por Bruno Vaz
10/10/2026
Em Entretenimento
cancelamento de compra por preço errado

Nem toda diferença entre o valor anunciado e o preço habitual autoriza o cancelamento.

Maria encontrou uma máquina de lavar com grande desconto em uma loja online, concluiu a compra e recebeu a confirmação do pagamento. Pouco depois, a empresa cancelou o pedido, alegando que havia anunciado o produto com o preço errado. A situação levantou uma dúvida: a loja pode desfazer uma venda já paga simplesmente porque errou o valor?

Maria pagou pela máquina de lavar, mas a loja desistiu da venda

Na história fictícia, Maria estava procurando uma máquina de lavar para substituir o eletrodoméstico antigo de sua casa. Durante a pesquisa, encontrou uma promoção que parecia vantajosa, conferiu as características do aparelho e finalizou o pedido. Como a compra foi aprovada, acreditou que receberia o produto pelo preço anunciado.

A surpresa veio quando recebeu uma mensagem informando o cancelamento unilateral da compra. Segundo a loja, uma falha no cadastro havia colocado a máquina de lavar à venda por um valor inferior ao correto. Maria não concordou com a justificativa, pois havia seguido todas as etapas da compra e não recebeu nenhum aviso sobre o suposto erro antes de pagar.

O Código de Defesa do Consumidor obriga a loja a cumprir a oferta?

O artigo 30 do Código de Defesa do Consumidor estabelece que informações ou publicidades suficientemente precisas obrigam o fornecedor e integram o contrato. Isso significa que uma empresa não pode, como regra, anunciar um produto por determinado valor e depois alterar as condições sem justificativa legal. A previsão está na Lei nº 8.078/1990.

O artigo 35 da mesma lei determina que, diante da recusa em cumprir uma oferta válida, o consumidor pode escolher entre exigir o cumprimento, aceitar outro produto equivalente ou rescindir o contrato. Na última hipótese, há previsão de devolução dos valores pagos, devidamente atualizados, além de eventuais perdas e danos. Entretanto, a aplicação dessas alternativas depende das circunstâncias da compra, especialmente quando existe alegação de erro evidente no preço.

Leia também: Morador aproveita viagem do vizinho para construir uma garagem encostada na divisa e ultrapassa a altura do muro permitido em 1,5 metro; na volta, o vizinho prejudicado aciona a prefeitura por infração de posturas e exige a demolição da obra irregular

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Um erro no preço pode justificar o cancelamento da compra?

Nem toda diferença entre o valor anunciado e o preço habitual autoriza o cancelamento. Promoções, liquidações e descontos expressivos fazem parte do comércio, de modo que uma oferta barata não representa necessariamente um erro. A discussão muda quando existe um erro grosseiro e evidente, capaz de mostrar que o valor divulgado não correspondia a uma condição comercial plausível.

O Superior Tribunal de Justiça analisou essa questão no REsp 1.794.991/SE, julgado em 2020. Na ocasião, o tribunal considerou que um erro sistêmico grosseiro, acompanhado de comunicação rápida e sem conclusão efetiva da transação, poderia afastar a obrigação de cumprir a oferta. O entendimento publicado pelo STJ mostra que cada situação precisa ser examinada individualmente, sem transformar qualquer alegação de erro em autorização automática para cancelar vendas.

cancelamento de compra por preço errado
Pouco depois, a empresa cancelou o pedido, alegando que havia anunciado o produto com o preço errado.

O pagamento aprovado faz diferença na reclamação de Maria

No caso de Maria, havia um detalhe importante: a compra não ficou apenas na etapa de seleção do produto. Ela concluiu o pedido e recebeu a confirmação de que o pagamento foi aprovado. Esse elemento pode fortalecer sua reclamação, pois ajuda a demonstrar que a operação avançou além de uma simples consulta ao anúncio.

Mas a aprovação do pagamento não garante, isoladamente, que a loja será obrigada a entregar a máquina de lavar. Também precisam ser analisados a dimensão do desconto, a aparência da promoção, a confirmação contratual e a rapidez da comunicação do erro. A boa-fé das partes é relevante: a loja precisa justificar sua conduta, enquanto o consumidor não deve se aproveitar conscientemente de um erro manifestamente absurdo.

As lojas virtuais também precisam respeitar regras específicas

Maria descobriu que as vendas pela internet possuem exigências próprias. O Decreto nº 7.962/2013 determina que o comércio eletrônico apresente informações claras sobre os produtos, preços, despesas adicionais, formas de pagamento e condições de entrega. O texto também exige mecanismos de atendimento e confirmação do recebimento da aceitação da oferta. As disposições podem ser consultadas no decreto oficial.

O artigo 6º desse decreto prevê que as contratações eletrônicas devem observar as condições anunciadas, incluindo a entrega dos produtos contratados. Portanto, uma mensagem genérica dizendo que houve um erro de sistema não resolve, por si só, a controvérsia. A loja deve explicar o ocorrido e tratar adequadamente a reclamação, enquanto eventual restituição do dinheiro não elimina automaticamente a discussão sobre o direito ao cumprimento da oferta.

Como se proteger quando a loja cancela uma compra já paga

Para defender seus direitos, Maria deveria guardar capturas do anúncio, descrição da máquina de lavar, valor divulgado, número do pedido, confirmação do pagamento e mensagem de cancelamento. Depois, poderia solicitar formalmente o cumprimento da oferta e pedir uma explicação detalhada sobre o erro alegado. Esses registros ajudariam a demonstrar as condições originalmente apresentadas e a identificar se o desconto parecia uma promoção legítima.

Se a empresa mantivesse o cancelamento, Maria poderia procurar o Procon ou registrar uma reclamação no Consumidor.gov.br, caso a loja participe da plataforma, onde as empresas cadastradas têm até 10 dias para responder. Também poderia avaliar uma ação no Juizado Especial Cível, conforme as condições do caso. A principal orientação é não aceitar automaticamente a justificativa de preço errado: o direito à entrega depende das provas, da razoabilidade da oferta e das circunstâncias que levaram ao cancelamento.

Tags: ComprasdireitoEconomiainternet
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