Em 1998, um casal de lontras-de-pelagem-lisa voltou a ocupar a região de Sungei Buloh, em Singapura, após décadas sem registros confirmados da espécie no território continental. A partir dessa retomada, a população cresceu e passou a ocupar diferentes ambientes aquáticos. No início de 2021, pesquisadores registraram pelo menos 170 indivíduos distribuídos em 17 grupos familiares na ilha.
O que explica a retomada das lontras-de-pelagem-lisa em Singapura após décadas de ausência?
A volta das lontras ocorreu em um cenário de recuperação ambiental. A limpeza dos rios e a melhoria de áreas costeiras favoreceram a presença de peixes e outros recursos, enquanto manguezais, canais, reservatórios e zonas úmidas voltaram a oferecer condições para alimentação, deslocamento e reprodução. A espécie conseguiu aproveitar essa transformação do território urbano.
O primeiro grupo residente documentado em 1998 apareceu em Sungei Buloh Wetland Reserve, no noroeste de Singapura. Registros oficiais do parque relatam o avistamento de um casal e, posteriormente, de filhotes. A trajetória mostrou que a espécie não apenas retornou ao país, mas também conseguiu estabelecer famílias e ampliar sua distribuição para áreas urbanizadas.

Que números mostram o crescimento da população de lontras entre 2017 e 2021?
A comparação entre os levantamentos revela uma mudança expressiva em poucos anos. Em 2017, havia pelo menos 79 lontras-de-pelagem-lisa distribuídas em 11 grupos. No início de 2021, o número mínimo registrado chegou a 170 indivíduos em 17 grupos, indicando crescimento tanto na quantidade de animais quanto na formação de novas unidades familiares.
Pesquisas publicadas no Journal of Mammalogy registraram 17 grupos e 170 indivíduos no início de 2021. O estudo também apontou grupos com tamanhos entre dois e 24 animais. Os pesquisadores combinaram registros de campo, observações verificadas, fotografias, vídeos e informações de observadores para avaliar a distribuição da espécie em Singapura.
Quais características da espécie ajudam as lontras a viver em uma cidade densamente ocupada?
As lontras-de-pelagem-lisa são mamíferos semiaquáticos e sociais, com forte associação a ambientes que oferecem água e alimento. Em Singapura, elas utilizam desde manguezais e áreas costeiras até canais, rios, reservatórios e espaços aquáticos próximos de regiões densamente construídas. Essa flexibilidade permite que diferentes grupos encontrem recursos em uma paisagem bastante modificada.
Quais características do ambiente favorecem a presença dessa espécie?
A presença da espécie pode estar relacionada à oferta de alimento, disponibilidade de abrigo, proximidade da água e conexão entre diferentes ambientes utilizados ao longo de sua rotina.
Manguezais e áreas costeiras
Ambientes costeiros podem oferecer abrigo, alimento e condições adequadas para diferentes atividades da espécie, especialmente em áreas próximas à água.
Rios, canais e reservatórios
Corpos d’água como rios, canais e reservatórios podem fazer parte do espaço utilizado pela espécie, oferecendo recursos alimentares e áreas para deslocamento.
Lagos e outros corpos d’água urbanos
Ambientes aquáticos presentes em áreas urbanizadas também podem ser ocupados quando oferecem condições suficientes de alimento, abrigo e acesso à água.
Disponibilidade de peixes para alimentação
A presença de peixes representa um recurso importante quando a espécie depende desse tipo de alimento, influenciando a escolha e a permanência em determinados ambientes.
Abrigos próximos às margens
Locais protegidos próximos às margens podem funcionar como áreas de descanso, proteção e permanência para indivíduos que utilizam ambientes aquáticos.
Grupos familiares com adultos e filhotes
A observação de adultos acompanhados por filhotes indica que determinadas áreas podem oferecer recursos suficientes para sustentar grupos familiares.
Capacidade de atravessar diferentes áreas entre habitats
A espécie pode utilizar diferentes ambientes conectados entre si, deslocando-se por áreas intermediárias para alcançar locais de alimentação, abrigo ou reprodução. Essa capacidade amplia o espaço utilizado e permite aproveitar recursos distribuídos pela paisagem.
Por que a presença de 170 lontras não significa que a espécie deixou de enfrentar ameaças?
O crescimento populacional representa um sinal positivo, mas não elimina os riscos associados à vida em uma cidade. A expansão das famílias aumentou o contato com pessoas e estruturas urbanas. Conflitos territoriais podem provocar deslocamentos, enquanto estradas e outras infraestruturas criam pontos perigosos para animais que circulam entre diferentes corpos d’água.
O levantamento de 2021 identificou colisões com veículos como uma das principais causas de mortalidade registradas. As ocorrências foram especialmente relevantes em áreas próximas a cursos d’água e barragens. A conservação, portanto, depende não apenas da existência de alimento e habitat, mas também de medidas que reduzam acidentes e conflitos entre fauna e população.

O que a história das lontras de Singapura mostra sobre a recuperação da fauna urbana?
A trajetória iniciada com um casal em Sungei Buloh ajuda a ilustrar o efeito de mudanças ambientais duradouras sobre espécies nativas. De uma presença restrita, a lontra-de-pelagem-lisa passou a ocupar diferentes regiões da ilha, inclusive ambientes urbanos. O salto de 79 para 170 indivíduos entre 2017 e 2021 reforça essa expansão.
Para a conservação, a história também mostra que recuperar rios, preservar áreas úmidas e manter conexões entre habitats pode criar condições para o retorno da fauna. O caso das lontras oferece um exemplo prático de que cidades e biodiversidade podem compartilhar espaços quando planejamento, monitoramento e proteção dos ambientes naturais caminham juntos.

