Uma fotografia quase escondida na copa de uma floresta do Congo acabou abrindo uma investigação de mais de uma década. O primata, negro e marcado por uma área rosado-alaranjada ao redor da boca, havia sido registrado em 2008, mas só ganhou identidade científica anos depois, após novas buscas. Entre 2018 e 2022, novas observações ajudaram pesquisadores a confirmar uma espécie rara.
O que tornou esse macaco tão difícil de identificar na floresta?
O primeiro registro ocorreu em 2008, quando pesquisadores exploravam a região que mais tarde integraria o Parque Nacional de Lomami, na República Democrática do Congo. A imagem mostrava apenas parte do animal, no alto da floresta, mas bastou para levantar uma suspeita: aquele macaco não parecia corresponder às espécies conhecidas pelos pesquisadores naquela área.
A pista permaneceu silenciosa por cerca de uma década. Em novembro de 2018, uma patrulha voltou a fotografar um macaco preto com marcas claras ao redor da boca e uma área branca na região posterior. Outras observações surgiram depois, permitindo comparar imagens antigas e recentes e estabelecer que se tratava do mesmo animal visto em 2008.

Por que a confirmação científica levou mais de dez anos?
A confirmação demorou porque aparência, distribuição e comportamento precisavam ser avaliados em conjunto. O Likweli vive principalmente em florestas de copa alta e fechada, em uma área geograficamente muito restrita entre rios da bacia do Congo. Sua raridade também dificultou encontros suficientes para reunir material comparativo e finalmente construir uma descrição científica sólida, com evidências independentes.
Pesquisas publicadas pela PLOS One mostram que 114 detecções foram registradas entre 2018 e 2022, combinando encontros visuais e registros por vocalização. Análises morfológicas, mitocondriais e acústicas confirmaram diferenças consistentes, enquanto a genética indicou que o novo Colobus é parente próximo de Colobus satanas, separado por mais de 1.200 quilômetros.
Quais características ajudam a reconhecer o novo macaco africano?
A aparência do animal reúne características que facilitaram sua diferenciação de outros colobos. O corpo é predominantemente preto, enquanto a região ao redor da boca apresenta uma coloração creme-alaranjada bastante marcante. Também existe uma área branca próxima ao ânus, além de diferenças no formato e na estrutura das vocalizações.
Entre os principais elementos registrados pelos pesquisadores estão:
O que as observações revelaram sobre o habitat do Likweli?
O caso também chama atenção pela distância evolutiva entre populações aparentadas. O estudo aponta que Colobus congoensis e Colobus satanas compartilham uma história antiga, mas estão separados por uma grande barreira geográfica. As diferenças observadas no corpo, na face e nas vocalizações ajudaram a sustentar a interpretação de que o Likweli constitui uma linhagem própria.
A distribuição conhecida é pequena: cerca de 1.700 quilômetros quadrados, concentrada no interflúvio entre os rios Lomami e Congo, com registros principalmente em ambientes de floresta madura. A equipe também identificou grupos geralmente pequenos, com média de 6,2 indivíduos, e observou que o macaco pode formar associações com outras espécies de colobinos.

Por que essa espécie é importante para a conservação das florestas do Congo?
A história do Likweli lembra que uma espécie não precisa surgir diante dos olhos humanos para ser real. Ela pode permanecer por anos em uma região difícil de acessar, confundida com parentes próximos e registrada apenas em fragmentos. Nesse caso, fotografias, patrulhas, sons, medidas corporais e análises genéticas foram peças complementares de uma mesma investigação.
O reconhecimento científico, porém, não encerra a história. Os pesquisadores propõem uma classificação preliminar como Em Perigo, considerando a área reduzida, a população e as pressões de caça e transformação do habitat. Proteger as florestas do Parque Nacional de Lomami e envolver comunidades locais pode ser decisivo para manter essa linhagem recém-descrita e preservar sua diversidade genética.
