No norte do Chile, onde o Oceano Pacífico encontra as bordas do Deserto do Atacama, Arica mantém uma população superior a 220 mil habitantes em meio a uma das paisagens mais secas do planeta. A cidade possui dois recordes reconhecidos pelo Guinness World Records, relacionados tanto à condição de local habitado mais seco do mundo quanto ao maior intervalo contínuo sem chuva já registrado.
Quais números comprovam a seca extrema de Arica?
Os registros da Organização Meteorológica Mundial (OMM) mostram a dimensão da aridez. Na estação meteorológica do aeroporto de Arica, a precipitação média anual ficou em apenas 0,76 mm durante 59 anos consecutivos. A diferença para São Paulo, que recebe aproximadamente 1.400 mm por ano, chega a quase duas mil vezes. O período mais impressionante ocorreu entre outubro de 1903 e janeiro de 1918, quando passaram 172 meses consecutivos sem qualquer precipitação mensurável, ultrapassando 14 anos de seca absoluta.
A fama de extrema aridez também envolve Calama, outra cidade do Atacama. Existem relatos não confirmados de que o município teria permanecido cerca de 400 anos sem chuva até ser atingido por uma tempestade repentina em 1972. Como esse episódio não possui confirmação da OMM, ele não substitui o registro oficial: o maior período contínuo sem precipitação documentado continua pertencendo a Arica.

PoO que impede a chuva em uma cidade banhada pelo Pacífico?
A posição geográfica de Arica ajuda a explicar por que uma cidade localizada junto ao oceano pode registrar uma das menores quantidades de chuva do planeta. A combinação entre águas frias, alta pressão atmosférica e grandes barreiras de relevo dificulta que a umidade avance sobre o litoral norte do Chile.
- Corrente de Humboldt: o fluxo de águas frias que sobe pela costa peruana reduz a temperatura do ar junto à superfície e dificulta a formação de nuvens capazes de provocar chuva sobre o oceano.
- Anticiclone do Pacífico Sul: a extensa área de alta pressão atmosférica comprime o ar e impede a ascensão das massas úmidas, reduzindo ainda mais as condições para precipitação.
- Cordilheira dos Andes: a leste, a barreira montanhosa com mais de 4.000 metros de altitude bloqueia a umidade que vem da Amazônia antes que ela consiga alcançar o deserto.
Essa combinação favorece uma inversão térmica persistente, deixando Arica sob céu nublado durante boa parte do ano sem que isso resulte necessariamente em chuva. A umidade natural mais importante chega pela neblina costeira conhecida como camanchaca, fenômeno que ajuda a explicar como a vida consegue se manter em uma região tão árida.
De onde vem a água que abastece Arica em uma região tão seca?
Embora quase não registre chuva na área urbana, Arica depende de águas que chegam de regiões muito mais elevadas. As precipitações que ocorrem nos Andes alimentam o Rio Lluta e o Rio San José, que descem pelas montanhas, percorrem vales estreitos e seguem em direção ao litoral. Durante períodos de estiagem, o San José pode deixar de apresentar fluxo visível e continuar seu percurso pelo subsolo, contribuindo para a recarga de aquíferos utilizados por poços artesianos. A qualidade da água é outro desafio, já que a concentração elevada de sais e minerais faz com que muitos moradores recorram à água engarrafada.
Mesmo cercado pelo deserto, Vale de Azapa apresenta uma paisagem completamente diferente a poucos quilômetros do centro de Arica. A agricultura depende de canais de irrigação e poços para cultivar tomates, pimentões, goiabas, maracujás e as tradicionais azeitonas de Azapa, conhecidas pela tonalidade violeta e pelo sabor amargo. Segundo a Encyclopaedia Britannica, a produção de hortaliças do vale abastece diferentes partes do Chile durante o inverno.
Arica é o último destino chileno antes do Peru. O vídeo é do canal Nois Pelo Mundo [Oficial], com 362 mil inscritos, e detalha o centro e o pôr do sol pacífico: 362 mil inscritos.
Como as redes conseguem transformar a neblina do deserto em água?
A ideia de aproveitar a umidade da camanchaca começou a ganhar forma nos anos 1950, quando o físico chileno Carlos Espinosa desenvolveu os primeiros captadores de neblina, conhecidos como atrapanieblas. O funcionamento é simples, mas eficiente: telas de malha fina ficam posicionadas em encostas frequentemente atingidas pela neblina, onde as microgotas ficam retidas, se juntam e descem pela ação da gravidade até canaletas e reservatórios. Na década de 1980, Espinosa doou a patente à UNESCO, deixando a tecnologia disponível para utilização em diferentes países.
A pesquisa ganhou uma nova dimensão em 2025, quando a Pontifícia Universidade Católica do Chile apresentou o primeiro mapa interativo de água de neblina do país. A ferramenta cobre mais de 2.000 km de litoral, entre Arica e a região de Maule, e indica áreas com potencial de captação. Em condições favoráveis, cada metro quadrado de tela consegue recolher entre 7 e 10 litros de água por dia. Chamado AMARU, termo que significa “serpente de água” em quéchua, o projeto já serve de apoio para comunidades pesqueiras e agrícolas isoladas do norte chileno.

Múmias mais antigas que as do Egito repousam sob a areia de Arica
A aridez extrema preservou mais do que a paisagem. Sob as encostas do Morro de Arica, colina de 139 m que domina a cidade, foram encontrados restos da cultura Chinchorro, um povo de pescadores e coletores que habitou a costa entre 7.000 e 1.500 a.C. As múmias Chinchorro são as mais antigas do mundo produzidas artificialmente, cerca de 2.000 anos anteriores às egípcias. Em 2021, a UNESCO inscreveu os sítios arqueológicos de Arica como Patrimônio Mundial da Humanidade.
A cidade mais seca do mundo que nunca fica sem surpresa
Arica contradiz quase tudo o que se espera de um deserto. Não faz calor extremo, a temperatura varia pouco ao longo do ano, e há praias, surfe, vales agrícolas e um patrimônio arqueológico que rivaliza com qualquer sítio do Mediterrâneo. A aridez que marcou a história da cidade também moldou soluções que hoje servem de referência para regiões secas em todo o mundo.
Se a ideia de uma cidade que transforma neblina em água potável e guarda as múmias mais antigas da humanidade sob seus morros parece improvável demais, Arica está ali, a uma curta viagem de Santiago, esperando para provar o contrário.



