Visível do espaço, a faixa de algas une a África ao Golfo do México, não existia há 15 anos e bateu recorde de tamanho em 2025.
Vista de cima, parece uma cicatriz marrom rasgando o azul do oceano. Ela começa na costa da África Ocidental, atravessa todo o Atlântico e vai morrer no Golfo do México, do outro lado do mundo. Há pouco mais de uma década, essa imagem simplesmente não existia — e é exatamente por isso que ela tira o sono dos cientistas.
Em maio, os satélites mediram o tamanho da formação: 37,5 milhões de toneladas de sargaço, uma alga marrom flutuante, dispostas em um cordão praticamente contínuo de um continente ao outro. O nome oficial é Grande Cintura de Sargaço do Atlântico (GASB, na sigla em inglês). E o detalhe mais perturbador é que, 15 anos atrás, ela não estava lá.
De curiosidade ecológica a fenômeno fora de controle
Por muito tempo, essas algas viveram restritas ao Mar dos Sargaços, uma região quente e pobre em nutrientes no meio do Atlântico. Flutuavam por ali como uma curiosidade da natureza, sem incomodar ninguém. Esse “deserto azul” tranquilo, porém, ficou no passado: a área que as algas ocupam explodiu.
Um amplo estudo publicado na revista Harmful Algae, conduzido por pesquisadores do Harbor Branch Oceanographic Institute, ligado à Florida Atlantic University, juntou quatro décadas de imagens de satélite, levantamentos de campo e análises químicas. O resultado documenta um crescimento espetacular: a alga se reproduz cada vez mais rápido, e a cintura não para de se alargar.
A primeira aparição em massa foi em 2011. De lá para cá, o fenômeno se repetiu e se intensificou quase todos os anos — a única exceção foi 2013. O ápice veio em 2025, quando a cintura atingiu 8.850 quilômetros de comprimento, mais do que o dobro da largura dos Estados Unidos continentais.
A origem do problema não está no mar — está em terra firme
Como uma alga ganha essa escala continental? A resposta está no que ela come. O sargaço prospera com grandes quantidades de nitrogênio e fósforo, e há cada vez mais desses nutrientes disponíveis na água.
Por décadas, acreditou-se que o crescimento da alga era limitado em alto-mar. Mas experimentos feitos desde os anos 1980 mostraram que, em água rica em nutrientes, a biomassa do sargaço pode dobrar em apenas onze dias — e ainda mais rápido perto da costa. Entre 1980 e 2020, o teor de nitrogênio nos tecidos da alga subiu 55%, e a relação entre nitrogênio e fósforo deu um salto de 50%.
Esses números apontam para uma mudança estrutural: os nutrientes deixaram de vir só do próprio oceano e passaram a chegar também do continente, carregados pelo escoamento de fertilizantes agrícolas, pelo descarte de esgoto e por depósitos atmosféricos.
O rio Amazonas tem papel central nessa equação. Suas cheias despejam nutrientes no Atlântico e turbinam a proliferação das algas; nos períodos de seca, o fenômeno desacelera. Depois, correntes marinhas como a Corrente do Loop e a Corrente do Golfo carregam essas massas vegetais, formando barreiras flutuantes no Golfo do México — algo já observado entre 2004 e 2005. Na região, os nutrientes vindos dos rios Mississippi e Atchafalaya chegaram a provocar acúmulos tão grandes de alga na costa que, em 1991, uma usina nuclear na Flórida precisou interromper as operações.
O que acontece quando o sargaço chega à praia
Aqui mora o paradoxo. O sargaço não é, em si, um vilão. A NOAA, agência norte-americana de oceanos e atmosfera, reconhece a alga como habitat essencial para mais de cem espécies, entre peixes, invertebrados e tartarugas marinhas. Em quantidade equilibrada, ela é peça-chave do ecossistema.
O problema é o excesso. Quando o sargaço chega em massa às praias e começa a se decompor, ele:
- libera gás sulfídrico, tóxico e de cheiro forte;
- sufoca a faixa de areia e cria zonas mortas na água;
- danifica recifes de coral;
- gera prejuízos severos ao turismo e às economias locais.
Esses tapetes de alga em decomposição ainda liberam metano e outros gases de efeito estufa, o que abre uma nova frente de preocupação: o impacto do fenômeno sobre o ciclo do carbono e sobre o próprio clima.
Um aviso em escala planetária
Diante do avanço, os cientistas pedem três coisas: vigilância internacional, modelos de previsão mais precisos e, sobretudo, a redução do escoamento de nutrientes que sai da terra e chega ao oceano.
O recado de fundo é que a eutrofização — o excesso de nutrientes nos ecossistemas — deixou de ser um problema só das zonas costeiras e passou a moldar o oceano inteiro. A Grande Cintura de Sargaço pode ser apenas o primeiro sintoma visível de um desequilíbrio global.
E fica a pergunta que ninguém ainda consegue responder com segurança: com os oceanos cada vez mais quentes e o continente despejando nutrientes sem parar, quantas outras regiões do planeta verão surgir, em breve, suas próprias marés marrons?










