O planeta Mercúrio pode ter uma composição superficial bastante diferente daquela estimada anteriormente. Uma nova análise indica que o dióxido de silício representa cerca de 37% da massa de seus materiais superficiais, proporção até 25% menor que os cálculos anteriores. O resultado oferece pistas sobre a intensa atividade vulcânica que marcou os primeiros capítulos da história do planeta rochoso.
Por que a composição da superfície de Mercúrio chama a atenção dos pesquisadores?
Mercúrio é o menor planeta do Sistema Solar e também o mais próximo do Sol. Sua superfície preserva marcas de antigos episódios vulcânicos, ocorridos quando o interior ainda apresentava temperaturas elevadas. Como não existem amostras coletadas diretamente no planeta, os cientistas precisam recorrer a observações feitas por telescópios e sondas espaciais.
O dióxido de silício, conhecido pela fórmula SiO₂, é um composto formado por silício e oxigênio e aparece em minerais presentes nas rochas. Sua proporção ajuda a caracterizar materiais vulcânicos e a reconstruir processos ocorridos no interior de planetas rochosos. Em Mercúrio, uma quantidade menor desse composto pode indicar condições de formação diferentes das inicialmente propostas.

O que a nova análise científica revelou sobre a quantidade de sílica no planeta?
A composição química da superfície funciona como um registro indireto da atividade geológica antiga. Elementos e compostos presentes nas rochas ajudam a indicar a origem dos magmas e as condições em que eles se formaram. No caso de Mercúrio, a concentração relativamente baixa de sílica oferece uma pista sobre a temperatura e a extensão do derretimento no interior.
Pesquisas do Instituto Max Planck de Pesquisa do Sistema Solar e de universidades alemãs, publicadas na revista científica Planetary Research, estimaram que o SiO₂ corresponde a aproximadamente 37% da massa da superfície mercuriana. O valor é até 25% inferior às estimativas anteriores e aponta para lavas originadas de material do manto submetido a derretimento mais intenso.
Quais elementos ajudam a explicar a formação das antigas lavas de Mercúrio?
Para interpretar o resultado, é importante considerar alguns conceitos ligados à formação das rochas:
5 conceitos que ajudam a compreender a atividade vulcânica de Mercúrio
A história vulcânica de Mercúrio envolve a composição química das rochas e os processos que ocorrem no interior do planeta. Alguns conceitos ajudam a compreender a formação do magma, o derretimento das rochas e as características de sua superfície.
Dióxido de silício
É um composto químico formado por um átomo de silício e dois de oxigênio. Sua composição está relacionada à mineralogia e às características químicas das rochas.
Manto
É a camada interna localizada abaixo da crosta sólida do planeta. Sua composição e suas condições físicas são importantes para compreender os processos geológicos que ocorrem no interior de Mercúrio.
Magma
É o material rochoso fundido que se forma no interior do planeta. Quando alcança a superfície, pode extravasar e originar lava, participando da formação de estruturas vulcânicas.
Derretimento parcial
É o processo em que apenas uma parte das rochas do manto se transforma em material líquido. Esse fenômeno pode gerar magma sem que todo o material rochoso seja derretido.
Crosta
É a camada externa sólida de Mercúrio. Sua superfície preserva registros de processos geológicos antigos, incluindo marcas de episódios de atividade vulcânica que ajudam os cientistas a investigar a evolução do planeta.
Por que um manto mais quente pode produzir lavas com menos dióxido de silício?
Uma das explicações propostas envolve a evolução térmica do manto. Em um planeta jovem e muito quente, grandes porções de rocha podem derreter e gerar magmas com composição diferente daquela produzida em condições mais frias. A menor quantidade de sílica observada em Mercúrio é compatível com lavas formadas a partir de material mais profundamente e extensivamente derretido.
Isso não significa, porém, que a composição medida determine sozinha a temperatura exata do interior. A interpretação depende de outros fatores, como a composição original das rochas, a presença de oxigênio e a evolução química do planeta. Os pesquisadores também consideram a possibilidade de que Mercúrio tenha perdido parte do oxigênio de sua crosta ao longo do tempo.

O que a missão BepiColombo poderá revelar sobre o passado vulcânico de Mercúrio?
A análise da superfície mercuriana é especialmente desafiadora porque nenhuma missão pousou no planeta para recolher rochas. Os dados disponíveis vêm de observações remotas, que precisam ser interpretadas com métodos de calibração. Para aprimorar essa leitura, a equipe produziu pequenas esferas de vidro em laboratório com quantidades conhecidas de sílica e mediu sua resposta à radiação infravermelha.
Antes de aplicar o método a Mercúrio, os cientistas o testaram usando dados da Lua e compararam os resultados com amostras lunares trazidas à Terra. Essa etapa ajudou a verificar a confiabilidade da técnica. A missão BepiColombo, desenvolvida pela Agência Espacial Europeia e pela agência japonesa JAXA, deverá fornecer medições infravermelhas mais detalhadas para testar a estimativa.


