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Søren Kierkegaard, filósofo dinamarquês: “A felicidade é como um navio: você se aproxima do objetivo na medida em que lhe dá as costas.”

Por Daniely Cardoso
27/09/2026
Em Curiosidades
Quando alguém estabelece que precisa estar feliz o tempo todo, qualquer frustração pode parecer um sinal de fracasso.

Quando alguém estabelece que precisa estar feliz o tempo todo, qualquer frustração pode parecer um sinal de fracasso.

A ideia de que perseguir a felicidade de forma obsessiva pode afastá-la aparece em uma frase atribuída ao filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard. A comparação com um barco sugere que o bem-estar nem sempre surge quando transformamos a felicidade em uma meta permanente.

A frase de Kierkegaard compara a felicidade a um barco

A reflexão costuma ser apresentada assim: “A felicidade é como um barco: você se aproxima do objetivo à medida que lhe dá as costas”. A metáfora foi retomada pelo filósofo espanhol Javier Gomá em uma conversa publicada pelo El País, na qual ele relaciona a imagem dos remadores à dificuldade de alcançar a felicidade quando ela se transforma em algo excessivamente consciente e programado.

A imagem faz sentido porque quem rema normalmente se desloca olhando para a direção oposta ao destino. Aplicada à vida, a comparação sugere que a pessoa pode se aproximar de uma experiência satisfatória enquanto está concentrada em viver, agir e escolher, e não necessariamente enquanto verifica o tempo inteiro se já conseguiu ser feliz.

Kierkegaard nasceu em Copenhague em 1813 e desenvolveu uma obra marcada por temas como escolha, ansiedade, desespero, fé e responsabilidade individual.

Transformar felicidade em obrigação pode produzir o efeito contrário

Quando alguém estabelece que precisa estar feliz o tempo todo, qualquer frustração pode parecer um sinal de fracasso. Uma discussão, uma semana difícil ou simplesmente um dia comum passam a ser vistos como provas de que alguma coisa está errada, criando uma cobrança constante em torno de uma emoção que naturalmente varia.

A própria filosofia contemporânea reconhece que a palavra felicidade possui sentidos diferentes. A Stanford Encyclopedia of Philosophy explica que o termo pode se referir tanto a um estado psicológico quanto a uma ideia mais ampla de bem-estar ou de uma vida que vai bem, distinção que mostra por que sentir alegria continuamente não é a única maneira de compreender uma vida satisfatória.

Kierkegaard colocava escolhas e existência concreta no centro da vida

Kierkegaard nasceu em Copenhague em 1813 e desenvolveu uma obra marcada por temas como escolha, ansiedade, desespero, fé e responsabilidade individual. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, um dos pontos centrais de seu pensamento é a pergunta sobre o que significa existir como um ser humano concreto, finito e obrigado a fazer escolhas.

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Em vez de tratar a existência apenas como um problema abstrato, ele examinava como cada pessoa se relaciona consigo mesma e com suas possibilidades. Essa perspectiva ajuda a compreender por que a metáfora do barco é tão associada a seu pensamento: uma vida significativa dependeria menos de observar a felicidade como um objeto distante e mais de assumir escolhas e compromissos dentro da própria realidade.

O problema aparece quando tudo depende de uma conquista futura

Uma pessoa pode pensar que finalmente será feliz quando conseguir um emprego específico, comprar determinado bem, encontrar um relacionamento ou alcançar certa condição financeira. Objetivos desse tipo podem ser legítimos, mas existe uma diferença entre ter projetos pessoais e colocar todo o bem-estar futuro na condição de que uma única conquista aconteça.

Se cada etapa da vida vira apenas preparação para a próxima, experiências agradáveis do presente podem passar despercebidas. A metáfora atribuída a Kierkegaard não sugere abandonar planos ou aceitar qualquer situação, mas questiona a tentativa de programar a felicidade como se fosse possível determinar antecipadamente exatamente quando e em quais condições ela deverá aparecer.

Uma pessoa pode pensar que finalmente será feliz quando conseguir um emprego específico, comprar determinado bem, encontrar um relacionamento ou alcançar certa condição

Bem-estar não significa eliminar tristeza, dúvida ou dificuldade

A busca por uma vida boa também não exige afastar todas as emoções desconfortáveis. Tristeza, medo, frustração e incerteza fazem parte da experiência humana, e uma vida satisfatória pode incluir períodos difíceis sem deixar de conter relações importantes, projetos significativos e momentos genuínos de alegria.

Essa diferença ajuda a evitar uma visão rígida segundo a qual alguém só estaria vivendo corretamente quando se sente bem. Em discussões filosóficas sobre bem-estar, como as reunidas pela Stanford Encyclopedia of Philosophy, felicidade e bem-estar aparecem como conceitos mais amplos do que uma sequência contínua de emoções positivas ou uma simples ausência de sofrimento.

Como levar a metáfora do barco para a vida cotidiana

Na prática, a frase pode servir como um convite para direcionar mais atenção às ações do presente. Cuidar das relações, descansar, desenvolver interesses, trabalhar por objetivos possíveis e tomar decisões coerentes com os próprios valores são atividades concretas que podem contribuir para uma vida melhor sem exigir uma avaliação constante de “quanto falta” para chegar à felicidade.

Ao mesmo tempo, a frase deve ser entendida como uma metáfora filosófica, e não como uma fórmula psicológica universal ou uma promessa de que basta parar de procurar felicidade para encontrá-la. A força da comparação atribuída a Kierkegaard está justamente em lembrar que, assim como o remador avança olhando para trás, às vezes o bem-estar aparece enquanto a pessoa está ocupada vivendo, e não tentando transformá-lo em um destino obrigatório.

Tags: comportamentoCulturafilosofiapsicologia
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