Durante cinco dias no fim de outubro de 1948, uma névoa espessa transformou a pequena Donora, na Pensilvânia, em cenário de uma das piores crises de poluição atmosférica dos Estados Unidos. O episódio deixou 20 mortos e milhares de doentes e ajudou a mudar a maneira como o país encarava os riscos da fumaça industrial.
A cidade estava acostumada com fumaça, mas aquela névoa era diferente
Donora tinha cerca de 14 mil habitantes e uma economia fortemente ligada à indústria. Entre as instalações da região estavam a Donora Zinc Works e a American Steel & Wire, cujas atividades lançavam poluentes na atmosfera de uma cidade localizada no vale do rio Monongahela.
A presença de fumaça e baixa visibilidade não era exatamente novidade para os moradores. Naqueles dias de outubro, porém, uma combinação meteorológica impediu que os poluentes se dispersassem normalmente, fazendo com que a concentração no ar aumentasse durante vários dias.

Uma inversão térmica prendeu a poluição perto do chão
O fenômeno decisivo foi uma inversão de temperatura. Em condições normais, o movimento do ar ajuda a transportar e dispersar contaminantes, mas naquele episódio uma camada de ar mais quente ficou sobre o ar frio próximo à superfície, funcionando como uma espécie de tampa sobre o vale.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos explica que essa situação deixou as emissões industriais praticamente sem rota de escape. Somada à falta de ventos suficientes, a geografia do vale favoreceu a formação de uma névoa carregada de poluentes.
Quase metade dos moradores apresentou algum problema de saúde
A investigação realizada após o desastre encontrou efeitos em aproximadamente 5.910 pessoas, o equivalente a cerca de 43% da população de Donora. Tosse e dificuldades respiratórias apareceram entre os sintomas, enquanto os quadros mais graves atingiram principalmente pessoas mais velhas e aquelas que já possuíam problemas cardiorrespiratórios.
Registros históricos do CDC apontam que 20 pessoas morreram durante o episódio, quando normalmente seriam esperadas apenas uma ou duas mortes naquele intervalo. A dimensão do problema transformou o caso em uma evidência difícil de ignorar sobre a relação entre poluição atmosférica e mortalidade.
Nem mesmo circular pela cidade era uma tarefa simples
À medida que a névoa engrossava, a visibilidade ficou extremamente limitada. Médicos receberam um número crescente de chamadas, moradores precisaram de oxigênio e veículos de emergência tiveram dificuldade para circular pelas ruas, tornando ainda mais complicado atender quem apresentava falta de ar e outros sintomas graves.
O relatório epidemiológico elaborado pelo Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos registrou o episódio entre 27 e 31 de outubro de 1948. A investigação foi uma das primeiras grandes análises de saúde pública dos Estados Unidos dedicada a compreender as consequências de um desastre provocado por poluição do ar.
Donora ajudou a transformar poluição em questão de saúde pública
O desastre não criou sozinho a legislação ambiental norte-americana, mas tornou-se um dos acontecimentos que demonstraram a necessidade de uma resposta nacional. A EPA registra que o Air Pollution Control Act de 1955 foi a primeira legislação federal dos Estados Unidos relacionada à poluição atmosférica, inicialmente com foco em pesquisa.
Em 1963, o país aprovou seu primeiro Clean Air Act, ampliando a atuação federal no controle da poluição. A legislação ganhou uma transformação muito mais profunda em 1970, quando passou a permitir padrões nacionais de qualidade do ar e controles abrangentes sobre fontes industriais e veículos.

A tragédia deixou uma lição que continua atual
O episódio de Donora mostrou que uma concentração perigosa de contaminantes pode surgir quando emissões, meteorologia e geografia se combinam da maneira errada. A poluição que fazia parte do cotidiano industrial da cidade tornou-se mortal quando ficou presa durante dias sobre a população.
Hoje, Donora é lembrada como um marco da história ambiental dos Estados Unidos e da pesquisa sobre qualidade do ar. A própria EPA relaciona episódios como o de 1948 ao processo que levou ao fortalecimento da legislação e à criação de sistemas modernos de monitoramento e controle da poluição, transformando uma tragédia local em referência para políticas públicas adotadas décadas depois.




