Instalado no deserto de Gobi, o TMSR-LF1 é o único reator de sal fundido do mundo operando com tório — e confirmou pela primeira vez a conversão do elemento em combustível nuclear, abrindo caminho para uma energia mais limpa e quase inesgotável

Em um canto remoto do deserto de Gobi, perto da cidade de Wuwei, na província chinesa de Gansu, um reator nuclear pequeno — de apenas 2 megawatts — vem operando em silêncio. Nenhuma torre de resfriamento gigante, nenhum rio ou mar por perto para esfriá-lo. E foi justamente essa máquina discreta que acaba de cravar um marco inédito na história da energia nuclear.
O TMSR-LF1, desenvolvido pelo Instituto de Física Aplicada de Xangai (SINAP), da Academia Chinesa de Ciências, tornou-se o primeiro reator do mundo a demonstrar, com dados experimentais, a conversão de tório em combustível nuclear dentro de um reator de sal fundido. Segundo o anúncio oficial do instituto, ele é hoje o único reator de sal fundido em operação no planeta carregado com tório.
O que exatamente o reator conseguiu fazer
O feito resolve uma equação que a ciência perseguia há mais de meio século. O tório, sozinho, não sustenta uma reação nuclear em cadeia — ele precisa ser “transformado”. Dentro do reator, o tório-232 absorve nêutrons e se converte em urânio-233, este sim um combustível físsil capaz de gerar energia.
Era essa conversão, em condições reais de operação, que nunca havia sido comprovada em um reator de sal fundido. Os cientistas chineses detectaram o urânio-233 produzido dentro da máquina — a prova de que o ciclo do tório funciona na prática, não só no papel.
“Desde que atingiu a primeira criticalidade, em 11 de outubro de 2023, o reator de sal fundido de tório vem gerando calor continuamente por fissão nuclear”, afirmou Li Qingnuan, vice-diretora do SINAP, ao anunciar o resultado.
Por que esse reator é diferente de tudo que existe
O TMSR-LF1 combina duas rupturas em uma única máquina:
- Combustível líquido, não barras sólidas — o tório é dissolvido em sal de fluoreto fundido, que circula pelo reator funcionando ao mesmo tempo como combustível e refrigerante. Isso permite reabastecer sem desligar: em 2024, o reator fez exatamente isso, recarregando combustível em plena operação — algo impensável em uma usina convencional, que precisa parar e abrir o vaso de pressão;
- Dispensa água para resfriamento — por isso pode operar no meio do deserto. O sistema trabalha em pressão muito baixa, o que elimina o risco de explosão por despressurização, um dos fantasmas dos reatores a água pressurizada;
- Menos lixo radioativo de longa duração — segundo o instituto, o design melhora drasticamente o aproveitamento do combustível e reduz o volume de resíduos de vida longa;
- Menor risco de uso militar — o ciclo do tório é considerado bem menos propício à produção de material para armas nucleares que o do urânio convencional.
O tamanho da aposta chinesa
Os 2 MW do reator experimental — energia para cerca de mil residências — são irrisórios de propósito: a máquina existe para provar conceitos, não para abastecer cidades. O programa, iniciado em 2011 com investimento na casa dos US$ 500 milhões, segue um roteiro de três etapas divulgado pelo setor:
- Reator experimental de 2 MW (atual) — validar a tecnologia e coletar dados;
- Reator modular de demonstração de 10 MW, previsto para o fim desta década — provar a viabilidade comercial e estruturar a cadeia de fornecedores;
- Usinas de 100 MW na década de 2030, com aplicação em larga escala nas regiões ricas em tório, como Gansu e Xinjiang — e reatores comerciais projetados para por volta de 2040.
O interesse estratégico é evidente: o tório é mais abundante que o urânio na crosta terrestre, e a China detém reservas enormes do elemento — que hoje é, em grande parte, descartado como subproduto da mineração de terras raras. Dominar o ciclo do tório significa, na prática, caminhar para a independência energética com um combustível que o país já tira do chão.
Uma ideia americana que a China terminou
Há uma ironia histórica no feito: o conceito de reator de sal fundido nasceu nos Estados Unidos, no Laboratório Nacional de Oak Ridge, nos anos 1960 — e foi abandonado na década seguinte, quando o país concentrou tudo no urânio. A China retomou o caminho órfão, modernizou o projeto e o levou aonde ele nunca tinha chegado.
O reator do deserto se soma à sequência de marcos que vêm acelerando a corrida global da energia limpa — como o primeiro motor de grande escala do mundo movido 100% a hidrogênio, já conectado à rede elétrica da Espanha. De tecnologias engavetadas a combustíveis ignorados, a transição energética tem revisitado as ideias que o século 20 deixou para trás — e descoberto que algumas delas só estavam esperando a engenharia alcançá-las.









