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Início Tecnologia

No meio do deserto: o reator nuclear chinês que funciona sem água e acaba de fazer o que nenhum outro conseguiu na história

Por João Victor
12/06/2026
Em Tecnologia
Instalação do reator nuclear de tório isolada no deserto de Gobi, na China, cercada por terreno árido

Sem precisar de água para resfriamento, o reator experimental opera em pleno deserto de Gobi, na província de Gansu (Imagem: Ilustrativa IA)

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Instalado no deserto de Gobi, o TMSR-LF1 é o único reator de sal fundido do mundo operando com tório — e confirmou pela primeira vez a conversão do elemento em combustível nuclear, abrindo caminho para uma energia mais limpa e quase inesgotável

A conversão inédita: dentro do reator, o tório absorve nêutrons e vira urânio-233, o combustível que sustenta a reação (Imagem: Ilustrativa IA)
A conversão inédita: dentro do reator, o tório absorve nêutrons e vira urânio-233, o combustível que sustenta a reação (Imagem: Ilustrativa IA)

Em um canto remoto do deserto de Gobi, perto da cidade de Wuwei, na província chinesa de Gansu, um reator nuclear pequeno — de apenas 2 megawatts — vem operando em silêncio. Nenhuma torre de resfriamento gigante, nenhum rio ou mar por perto para esfriá-lo. E foi justamente essa máquina discreta que acaba de cravar um marco inédito na história da energia nuclear.

O TMSR-LF1, desenvolvido pelo Instituto de Física Aplicada de Xangai (SINAP), da Academia Chinesa de Ciências, tornou-se o primeiro reator do mundo a demonstrar, com dados experimentais, a conversão de tório em combustível nuclear dentro de um reator de sal fundido. Segundo o anúncio oficial do instituto, ele é hoje o único reator de sal fundido em operação no planeta carregado com tório.

O que exatamente o reator conseguiu fazer

O feito resolve uma equação que a ciência perseguia há mais de meio século. O tório, sozinho, não sustenta uma reação nuclear em cadeia — ele precisa ser “transformado”. Dentro do reator, o tório-232 absorve nêutrons e se converte em urânio-233, este sim um combustível físsil capaz de gerar energia.

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Era essa conversão, em condições reais de operação, que nunca havia sido comprovada em um reator de sal fundido. Os cientistas chineses detectaram o urânio-233 produzido dentro da máquina — a prova de que o ciclo do tório funciona na prática, não só no papel.

“Desde que atingiu a primeira criticalidade, em 11 de outubro de 2023, o reator de sal fundido de tório vem gerando calor continuamente por fissão nuclear”, afirmou Li Qingnuan, vice-diretora do SINAP, ao anunciar o resultado.

Por que esse reator é diferente de tudo que existe

O TMSR-LF1 combina duas rupturas em uma única máquina:

  • Combustível líquido, não barras sólidas — o tório é dissolvido em sal de fluoreto fundido, que circula pelo reator funcionando ao mesmo tempo como combustível e refrigerante. Isso permite reabastecer sem desligar: em 2024, o reator fez exatamente isso, recarregando combustível em plena operação — algo impensável em uma usina convencional, que precisa parar e abrir o vaso de pressão;
  • Dispensa água para resfriamento — por isso pode operar no meio do deserto. O sistema trabalha em pressão muito baixa, o que elimina o risco de explosão por despressurização, um dos fantasmas dos reatores a água pressurizada;
  • Menos lixo radioativo de longa duração — segundo o instituto, o design melhora drasticamente o aproveitamento do combustível e reduz o volume de resíduos de vida longa;
  • Menor risco de uso militar — o ciclo do tório é considerado bem menos propício à produção de material para armas nucleares que o do urânio convencional.

O tamanho da aposta chinesa

Os 2 MW do reator experimental — energia para cerca de mil residências — são irrisórios de propósito: a máquina existe para provar conceitos, não para abastecer cidades. O programa, iniciado em 2011 com investimento na casa dos US$ 500 milhões, segue um roteiro de três etapas divulgado pelo setor:

  1. Reator experimental de 2 MW (atual) — validar a tecnologia e coletar dados;
  2. Reator modular de demonstração de 10 MW, previsto para o fim desta década — provar a viabilidade comercial e estruturar a cadeia de fornecedores;
  3. Usinas de 100 MW na década de 2030, com aplicação em larga escala nas regiões ricas em tório, como Gansu e Xinjiang — e reatores comerciais projetados para por volta de 2040.

O interesse estratégico é evidente: o tório é mais abundante que o urânio na crosta terrestre, e a China detém reservas enormes do elemento — que hoje é, em grande parte, descartado como subproduto da mineração de terras raras. Dominar o ciclo do tório significa, na prática, caminhar para a independência energética com um combustível que o país já tira do chão.

Uma ideia americana que a China terminou

Há uma ironia histórica no feito: o conceito de reator de sal fundido nasceu nos Estados Unidos, no Laboratório Nacional de Oak Ridge, nos anos 1960 — e foi abandonado na década seguinte, quando o país concentrou tudo no urânio. A China retomou o caminho órfão, modernizou o projeto e o levou aonde ele nunca tinha chegado.

O reator do deserto se soma à sequência de marcos que vêm acelerando a corrida global da energia limpa — como o primeiro motor de grande escala do mundo movido 100% a hidrogênio, já conectado à rede elétrica da Espanha. De tecnologias engavetadas a combustíveis ignorados, a transição energética tem revisitado as ideias que o século 20 deixou para trás — e descoberto que algumas delas só estavam esperando a engenharia alcançá-las.

Tags: Chinadeserto de Gobienergia limpaEnergia nuclearreator de tóriosal fundidotecnologia nuclear
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