A 1.017 metros de altitude, entre Goiânia e Brasília, Anápolis carrega um episódio pouco conhecido que acabou entrando para a história política brasileira. Foi no aeroporto do município goiano que o presidente Juscelino Kubitschek assinou, na madrugada de 18 de abril de 1956, a mensagem enviada ao Congresso que abriu caminho para a construção da nova capital federal.
Como um nevoeiro fez Anápolis entrar na história de Brasília?
Tudo começou na noite de 17 de abril de 1956, quando JK deixou o Rio de Janeiro com destino a Goiânia para formalizar a mensagem ao Congresso Nacional sobre a transferência da capital. As condições meteorológicas, porém, impediram o pouso na capital goiana, obrigando a aeronave da FAB a mudar de rota e seguir para Anápolis. No município, o presidente foi recebido por políticos locais, que o convenceram a aproveitar a parada inesperada para assinar o documento.
O episódio aconteceu em uma casa localizada dentro da área do aeroporto municipal. Transformada em patrimônio histórico por tombamento em 2001, a Casa JK passou por um projeto de restauração iniciado em 2022 e atualmente conserva objetos relacionados aos primeiros anos da construção de Brasília. Uma mudança de rota provocada pelo mau tempo acabou colocando Anápolis em um dos momentos decisivos para a criação da nova capital brasileira.

Como Anápolis deixou de ser parada de tropeiros para virar polo industrial?
Antes de se tornar uma das principais economias de Goiás, Anápolis começou como o povoado de Santana das Antas, formado às margens do Ribeirão das Antas. A localização fazia da área uma parada estratégica para tropeiros que percorriam as rotas em direção às lavras de ouro de Pirenópolis e da Cidade de Goiás. A transformação administrativa veio em 1907, quando a vila foi elevada à categoria de cidade e recebeu o nome de Anápolis, em referência a Sant’Ana, padroeira local. A sugestão partiu do deputado Abilio Wolney, que defendeu a denominação “Cidade de Ana” durante uma sessão da Assembleia.
Foi a chegada dos trilhos, porém, que acelerou o crescimento do município. Em 1935, a inauguração da estação ferroviária aproximou Anápolis dos grandes centros e ajudou a população a passar de 16 mil para 40 mil habitantes em apenas duas décadas. O período também marcou a chegada de comunidades síria, libanesa, italiana e japonesa, que participaram da formação de um comércio diversificado e ainda presente na identidade econômica da cidade.
Por que o DAIA colocou Anápolis no mapa da indústria do Centro-Oeste?
Desde 1976, quando foi inaugurado com a presença do presidente Ernesto Geisel, o Distrito Agroindustrial de Anápolis (DAIA) passou a concentrar parte importante da atividade industrial regional. O complexo reúne cerca de 200 empresas e responde por mais de 30 mil empregos, com forte presença da indústria farmacêutica. Mais de 20 laboratórios funcionam no distrito, contribuindo para que Goiás ocupe a segunda posição entre os maiores produtores de medicamentos do Brasil, especialmente no segmento de genéricos.
A estrutura logística também ajuda a explicar a concentração de empresas no município. Inaugurada em 2007 após investimento de R$ 1,2 bilhão, a CAOA Montadora ocupa 1,5 milhão de metros quadrados dentro do DAIA e possui capacidade para produzir 115 mil veículos por ano. O porto seco e a proximidade da Ferrovia Norte-Sul reforçam a posição estratégica de Anápolis para o transporte de mercadorias. Em 2023, o município alcançou PIB superior a R$ 20 bilhões, de acordo com o IBGE.
O que muda na rotina de quem vive a 1.017 metros de altitude?
Com aproximadamente 420 mil habitantes na estimativa do IBGE para 2025, Anápolis é a terceira cidade mais populosa de Goiás. A altitude de 1.017 metros influencia o clima local e contribui para noites mais amenas em comparação com Goiânia, especialmente durante o inverno, quando as temperaturas mínimas podem chegar a 10°C. No ensino superior, instituições como a Universidade Estadual de Goiás (UEG), a UniEVANGÉLICA e o Instituto Federal de Goiás (IFG) atraem estudantes vindos de diferentes partes do estado.
Outro elemento importante da dinâmica urbana está ligado à presença militar. Criada na década de 1970, a Base Aérea de Anápolis opera os caças Gripen F-39 e movimenta a economia local com a presença de milhares de militares e profissionais técnicos. Na educação básica, a taxa de escolarização entre 6 e 14 anos alcança 98,29%, enquanto mais de 25 hospitais e clínicas ampliam o atendimento médico para moradores de municípios vizinhos.

O que fazer em Anápolis e arredores?
A cidade combina patrimônio histórico com espaços verdes renovados. Embora não seja um destino turístico tradicional, reserva boas surpresas para quem passa pela região.
- Memorial Casa JK: no aeroporto municipal, guarda o acervo sobre a assinatura que deu origem a Brasília. Tombado como patrimônio histórico municipal.
- Estação Ferroviária José Fernandes Valente: construída em 1935 como última parada da Estrada de Ferro de Goiás. Tombada pelo patrimônio municipal em 1991.
- Parque Ipiranga: lago, decks e trilhas de caminhada no coração da cidade, ponto de encontro dos anapolinos nos fins de semana.
- Museu Histórico Alderico Borges de Carvalho: prédio colonial restaurado com acervo sobre a formação de Anápolis e do interior goiano.
- Pirenópolis: a 70 km, oferece cachoeiras, casario colonial e a Festa do Divino, patrimônio imaterial registrado pelo IPHAN.
Como chegar a Anápolis?
Anápolis fica a 50 km de Goiânia e a 140 km de Brasília, ligada às duas capitais pela BR-060 duplicada. A BR-153 (Belém-Brasília) também corta a cidade, conectando-a ao norte e ao sul do país. O aeroporto de passageiros mais próximo é o Santa Genoveva, em Goiânia, a cerca de 55 km.
A cidade que nasceu de um acaso e não parou de crescer
Poucas cidades médias brasileiras reúnem uma história tão improvável, um parque industrial tão robusto e uma localização tão estratégica. Anápolis cresceu 14% em dez anos, atrai indústrias de três continentes e ainda guarda, nas dependências de um aeroporto, a sala onde o Brasil decidiu mudar de endereço.
Você precisa conhecer Anápolis para entender como uma parada de tropeiros no cerrado goiano se transformou na cidade que produz remédios para o país inteiro e carros para a América Latina.



