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Início Curiosidades

O gene que permite a populações das montanhas viver com pouco oxigênio

Por Maria Beatriz Silva
20/10/2026
Em Curiosidades
O gene que permite a populações das montanhas viver com pouco oxigênio

O gene que permite a populações das montanhas viver com pouco oxigênio

Em regiões montanhosas, o ar rarefeito representa um desafio constante para o organismo, que precisa funcionar com menos oxigênio disponível. Entre as populações que vivem no Planalto Tibetano, uma característica genética chama a atenção dos cientistas: variantes do gene EPAS1 estão associadas à capacidade de lidar com essa condição. Essa adaptação evolutiva revela como o DNA pode favorecer a sobrevivência em ambientes extremos.

Por que viver em grandes altitudes exige uma adaptação especial do organismo?

À medida que a altitude aumenta, a pressão atmosférica diminui e a quantidade de oxigênio disponível em cada inspiração fica menor. Embora o ar continue contendo aproximadamente a mesma proporção desse gás, a pressão reduzida dificulta sua passagem dos pulmões para o sangue. Por isso, pessoas que chegam a grandes altitudes podem sentir falta de ar, cansaço e dor de cabeça.

Para quem vive nessas regiões há muitas gerações, porém, a exposição prolongada favoreceu características biológicas que ajudam a enfrentar o ambiente. No Planalto Tibetano, situado a milhares de metros acima do nível do mar, determinadas variantes genéticas estão associadas a respostas fisiológicas diferentes das observadas em populações de baixa altitude. A adaptação não elimina a escassez de oxigênio, mas pode reduzir seus efeitos sobre o organismo.

gene EPAS1
Uma herança dos denisovanos pode ajudar a explicar a adaptação genética tibetana

Qual é o papel do gene EPAS1 na sobrevivência em ambientes com pouco oxigênio?

O gene EPAS1 participa da regulação das respostas celulares à disponibilidade de oxigênio. Ele contém instruções para produzir a proteína HIF-2α, envolvida na ativação de mecanismos que ajudam o corpo a responder à hipóxia, condição em que os tecidos recebem menos oxigênio do que necessitam. Essa resposta inclui processos relacionados à produção de glóbulos vermelhos e à adaptação dos vasos sanguíneos.

Pesquisas publicadas na revista científica Molecular Biology and Evolution, incluindo o estudo de Peng et al. (2017) sobre a regulação do gene EPAS1 em populações tibetanas, indicam que variantes genéticas mais frequentes entre os tibetanos podem reduzir a expressão desse gene. Os pesquisadores observaram que essas variantes estão associadas a níveis relativamente menores de hemoglobina e a uma resposta reduzida de vasoconstrição pulmonar diante da hipóxia, características que contribuem para explicar a adaptação genética dessa população à vida em grandes altitudes.

Quais características biológicas ajudam os tibetanos a enfrentar a falta de oxigênio?

A adaptação à altitude envolve um conjunto de características fisiológicas, e não apenas uma alteração genética isolada. Entre os tibetanos, as variantes do EPAS1 estão relacionadas a uma resposta particular à hipóxia, que evita o aumento excessivo da hemoglobina observado em algumas pessoas que vivem em grandes altitudes. Isso ajuda a compreender por que diferentes populações podem responder de maneiras distintas ao mesmo ambiente.

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Em ambientes de grande altitude, o organismo enfrenta uma menor disponibilidade de oxigênio. A adaptação envolve mecanismos fisiológicos e celulares, além da interação entre fatores genéticos e condições ambientais.

01

Regulação da hemoglobina

A hemoglobina transporta oxigênio pelo sangue. Sua concentração pode mudar em resposta à altitude, contribuindo para ajustar o transporte desse gás pelo organismo.

02

Respostas celulares ao oxigênio

As células ativam mecanismos de sinalização que detectam a disponibilidade de oxigênio e regulam processos envolvidos na adaptação à hipóxia.

03

Controle do aumento da hemoglobina

Em algumas populações adaptadas à altitude, a resposta eritropoiética é mais moderada. Isso pode ajudar a evitar o aumento excessivo da hemoglobina e da viscosidade sanguínea.

04

Ajustes nos vasos sanguíneos pulmonares

A baixa disponibilidade de oxigênio provoca respostas nos vasos pulmonares. A intensidade dessas alterações varia entre indivíduos e populações, influenciando a circulação pulmonar.

05

Interação entre genética e ambiente

A adaptação à altitude resulta da interação entre variantes genéticas, exposição ambiental e respostas fisiológicas. Essa combinação ajuda a explicar por que diferentes populações apresentam estratégias distintas para lidar com a escassez de oxigênio.

De que maneira a evolução favoreceu variantes genéticas associadas à vida nas montanhas?

A presença de variantes do EPAS1 em populações tibetanas está relacionada à seleção natural. Ao longo de muitas gerações, indivíduos com características hereditárias favoráveis à sobrevivência e à reprodução em grandes altitudes tiveram maior probabilidade de transmitir essas variantes aos descendentes. Com o tempo, determinadas versões do gene tornaram-se mais frequentes na população.

Uma descoberta importante é a possível origem antiga dessas variantes. Um estudo publicado na revista Nature, em 2014, identificou evidências de que uma versão adaptativa do EPAS1 foi herdada de ancestrais humanos arcaicos relacionados aos denisovanos. Esse resultado mostra que o intercâmbio genético entre grupos humanos antigos também pode ter contribuído para a adaptação a ambientes extremos.

gene EPAS1
O DNA dos tibetanos guarda pistas sobre a evolução humana

O que a descoberta sobre o EPAS1 revela sobre a genética humana?

O caso do EPAS1 demonstra que a evolução humana continua sendo investigada por meio da relação entre genes, ambiente e características fisiológicas. Ele também mostra que uma mesma condição ambiental pode favorecer soluções biológicas diferentes: enquanto algumas populações aumentam a produção de glóbulos vermelhos para compensar a escassez de oxigênio, os tibetanos apresentam adaptações que ajudam a regular essa resposta.

O conhecimento sobre esse gene também contribui para pesquisas médicas relacionadas à hipóxia, à circulação sanguínea e aos mecanismos celulares que detectam o oxigênio. Embora os efeitos dessas variantes dependam de outros fatores genéticos e ambientais, seu estudo oferece pistas sobre o funcionamento do organismo. A principal contribuição é mostrar que a diversidade genética pode favorecer respostas específicas a desafios ambientais, ampliando a compreensão da evolução e da fisiologia humana.

Tags: daptação genética dos tibetanosfalta de oxigêniovida em grandes altitudes
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