Uma criatura do tamanho de um carro rastejando pelo chão parece exagero de filme. Só que a Arthropleura gigante deixou fósseis que apontam para um corpo com mais de 2,6 metros. E um achado na Inglaterra colocou em dúvida a explicação mais repetida para esse tamanho absurdo.
Um bloco de pedra revelou um animal gigantesco
O achado aconteceu em janeiro de 2018, na região de Howick Bay, no norte da Inglaterra. Um enorme bloco de arenito havia caído de um penhasco e se partido, expondo um fóssil incomum. O fragmento preservado media cerca de 76 centímetros de comprimento por 36 de largura.
Pesquisadores identificaram de 12 a 14 placas do exoesqueleto da Arthropleura. A surpresa veio quando calcularam as proporções do animal inteiro: ele poderia alcançar 2,63 metros de comprimento, cerca de 55 centímetros de largura e aproximadamente 50 quilos. Mas havia outro detalhe estranho naquele fóssil.

O fóssil pode ser apenas uma casca abandonada
Os pesquisadores acreditam que o fragmento encontrado não seja necessariamente parte do corpo morto do animal. Há sinais de que ele pode ser uma exúvia, nome dado ao exoesqueleto deixado para trás quando um artrópode troca sua cobertura externa durante o crescimento.
- O fragmento preservava parte da região dianteira do corpo;
- o interior havia sido parcialmente preenchido por areia;
- o animal completo foi estimado pelas proporções das placas;
- a Arthropleura está entre os maiores artrópodes terrestres conhecidos.
Isso torna o caso ainda mais curioso. Se aquela estrutura realmente foi descartada durante uma muda, o indivíduo responsável por ela estava vivo quando deixou a carapaça e poderia continuar crescendo. Mesmo assim, falar em um animal de exatamente três metros vai além do que o fóssil permite afirmar com segurança.
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O oxigênio sozinho não explica esse tamanho
A Arthropleura costuma aparecer ao lado de uma explicação famosa sobre o período Carbonífero. Como a atmosfera chegou a apresentar concentrações de oxigênio maiores que as atuais, esse ambiente teria ajudado alguns artrópodes a atingir dimensões enormes. Só que o fóssil inglês trouxe um problema para essa ideia.
O exemplar viveu há aproximadamente 326 milhões de anos, antes do pico de oxigênio registrado mais tarde no Paleozoico. O estudo publicado no Journal of the Geological Society aponta justamente que o gigantismo apareceu antes dessas concentrações máximas. Ou seja, é preciso procurar outros motivos para explicar o tamanho.
O ambiente pode ter dado espaço para um gigante
Naquela época, os grandes animais terrestres que dominariam os ecossistemas milhões de anos depois ainda não existiam. Répteis de grande porte, aves e mamíferos estavam muito distantes de ocupar o planeta. A Arthropleura encontrou um cenário com menos concorrentes terrestres e recursos vegetais em abundância.
O próprio local onde o fóssil foi preservado também mudou uma imagem antiga. Em vez de viver exclusivamente em florestas pantanosas fechadas, esses animais provavelmente circulavam por ambientes arborizados mais abertos, próximos de canais de rios. E novas análises da cabeça trouxeram outra surpresa sobre seu modo de vida.

A cabeça revelou uma mistura inesperada
Durante décadas, os cientistas conheciam bem melhor as placas do corpo do que a cabeça da Arthropleura. Isso mudou com fósseis juvenis preservados na França. Em 2024, tomografias permitiram observar olhos, antenas e partes da boca em detalhes, mostrando características encontradas tanto em milípedes quanto em centípedes.
- O corpo apresentava dois pares de pernas em vários segmentos, como ocorre nos milípedes;
- a cabeça reunia características também associadas aos centípedes;
- os exemplares analisados tinham apenas 25 e 40 milímetros;
- os pesquisadores usaram microtomografia para observar estruturas escondidas na rocha.
O estudo publicado na Science Advances ajudou a reposicionar esse animal na árvore evolutiva dos miriápodes. Já sua dieta continua aberta a debate: não há prova direta de que fosse um predador feroz, e a hipótese de alimentação baseada em matéria vegetal em decomposição continua forte.
O que vale guardar sobre esse gigante
Ao encontrar imagens chamando a Arthropleura de “centopeia de três metros”, vale olhar os números com cuidado. A melhor estimativa do grande fóssil inglês chega a 2,63 metros, e a reconstrução completa depende de um fragmento do exoesqueleto.
O ponto mais interessante está além do tamanho. Esse animal mostra que o gigantismo dos artrópodes não dependeu apenas de uma atmosfera carregada de oxigênio, e novos fósseis ainda estão mudando o que sabemos sobre sua aparência e comportamento.




