Nome de cidade costuma dizer exatamente o que ela é. Sete Lagoas, no interior de Minas Gerais, faz o contrário. A cidade que nasceu do acampamento de bandeirantes em 1667 tem, na verdade, 17 lagoas espalhadas pelo território, e não sete. Guarda também uma das cavernas mais raras do país, com pinturas rupestres de milhares de anos, e passou pela guarnição militar chefiada por Tiradentes antes da Inconfidência Mineira. Fica a apenas 70 km de Belo Horizonte.
Por que a cidade se chama Sete Lagoas se tem 17 espelhos d’água?
Porque a lei municipal preservou o número histórico, embora a realidade seja outra. Segundo registros oficiais da Prefeitura Municipal, o município tem hoje 10 espelhos d’água no perímetro urbano e 17 em todo o território. As sete lagoas oficiais foram definidas por lei municipal em 1989: Boa Vista, Catarina, Chácara, Cercadinho, José Felix, Matadouro e Paulino.
Foram essas mesmas lagoas que deram origem ao nome quando bandeirantes paulistas ligados à expedição de Fernão Dias Pais Leme acamparam às margens do Ribeirão Matadouro em busca de ouro. Antes disso, os indígenas chamavam a região de Vupabuçu. A emancipação política do povoado veio quase dois séculos depois, em 24 de novembro de 1867, pela Lei Provincial nº 1.395, quando o território se desmembrou de Santa Luzia do Rio das Velhas, Sabará e Curvelo.

Como uma cidade pequena virou marco da paleontologia brasileira?
Por causa de uma gruta descoberta em pleno traçado da BR-040. Segundo o Governo de Minas Gerais, a Gruta Rei do Mato é uma das 50 maiores cavernas do estado, segundo classificação da Sociedade Brasileira de Espeleologia. A caverna tem 998 metros de extensão total, dos quais 220 metros são visitáveis por passarelas e escadarias, com desnível de 30 metros entre os salões.
A gruta faz parte da Rota das Grutas de Peter Lund, circuito turístico do estado em homenagem ao naturalista dinamarquês Peter Lund, considerado o pai da paleontologia e da arqueologia brasileiras. A partir de 1835, Lund explorou mais de 200 cavernas na região central de Minas Gerais. O roteiro completo conecta a Gruta Rei do Mato à Gruta da Lapinha, em Lagoa Santa, e à Gruta de Maquiné, em Cordisburgo, cidade natal do escritor Guimarães Rosa.
O que faz as Colunas Gêmeas da gruta serem únicas no mundo?
A geometria e a espessura fora do padrão comum das cavernas. Segundo o Governo de Minas, as Colunas Gêmeas se formaram no encontro entre estalactites e estalagmites, ao longo de milhões de anos, e resultaram em duas estruturas cilíndricas paralelas e perfeitamente harmônicas, com cerca de 15 metros de altura e apenas 30 centímetros de diâmetro.
Nenhuma outra gruta brasileira tem em seu interior formações como essas, o que faz do quarto salão da caverna uma referência internacional para geólogos e espeleólogos. Ao lado da caverna principal, a chamada Grutinha guarda pinturas rupestres estimadas em cerca de 6 mil anos, feitas com sangue animal e gordura vegetal, e uma réplica da preguiça-gigante Xenorhinotherium bahiensis, mamífero pré-histórico que habitou a região.
Por que Tiradentes passou pela cidade antes da Inconfidência?
Porque a região era corredor de fiscalização do ouro que descia do sertão para o litoral. Segundo registros históricos da região, entre 1780 e 1781, Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, esteve à frente da guarnição militar responsável pelo posto de arrecadação fiscal instalado nas proximidades do atual município. O local era uma parada obrigatória para tropeiros e comerciantes que atravessavam a região central de Minas Gerais.
Foi anos antes de o militar se envolver diretamente na Inconfidência Mineira, movimento contra a Coroa Portuguesa que resultou em sua execução em 1792, no Rio de Janeiro. A memória desse período está preservada na Praça Tiradentes, no centro urbano, com o Memorial Zacarias e o casarão histórico da região.
Quais atrações estruturam o roteiro turístico da cidade?
Segundo o portal oficial Minas Gerais Turismo, mantido pela Secretaria de Estado de Turismo, o roteiro tradicional combina o centro urbano com atrações naturais nos arredores. Os principais pontos:
- Gruta Rei do Mato: Monumento Natural Estadual, área de 141 hectares, administrado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), com cerca de 25 mil visitantes por ano.
- Lagoa Paulino: cartão-postal urbano, no centro da cidade, com orla arborizada de 2 km de perímetro, bares, restaurantes e feira de artesanato nas noites de sexta e sábado.
- Lagoa da Boa Vista: pista de caminhada de 1.630 metros, pistas de skate e bicicross, feira de produtos caseiros aos domingos pela manhã.
- Serra de Santa Helena: ponto mais alto do município, com 1.076 metros de altitude, rampa de voo livre e vista panorâmica do vale.
- Capela de Santa Helena: construída em 1852, uma das únicas do Brasil dedicadas à santa.
- Parque da Cascata: área preservada de 295 hectares com trilhas, mirante e cachoeira, na Serra de Santa Helena.
- Museu Histórico Municipal: acervo sobre a história da cidade e da região central mineira.
- Museu Ferroviário: preserva a memória da ferrovia que fez a economia local no fim do século XIX.
- Casarão Nhô Quim Drummond: patrimônio histórico do centro urbano.
O que provar na cozinha mineira da região central?
A cozinha combina o tradicional receituário mineiro com produtos das fazendas do entorno. Alguns pratos e produtos essenciais:
- Feijão tropeiro: prato símbolo de Minas, com feijão, farinha de mandioca, torresmo e couve.
- Frango com quiabo e angu: pedida clássica dos restaurantes tradicionais mineiros.
- Queijo da Serra da Canastra: produzido em fazendas da região, disponível em armazéns do centro.
- Pão de queijo: servido em cafés e padarias tradicionais.
- Doce de leite caseiro: produzido nas fazendas do entorno.
- Cachaça artesanal: alambiques familiares da região central de Minas produzem safras próprias.

Como chegar a Sete Lagoas?
A cidade fica a 70 km de Belo Horizonte, com acesso direto pela BR-040, principal rodovia federal ligando a capital mineira a Brasília. O trajeto de carro leva cerca de uma hora. Do Aeroporto Internacional de Confins, segundo maior do país em movimentação de passageiros, são apenas 40 km, o que torna Sete Lagoas um dos destinos mais acessíveis para quem chega de outros estados.
A cidade é servida por linhas rodoviárias regulares que a conectam a dezenas de municípios da região central de Minas Gerais. Muitos visitantes combinam o roteiro com uma passagem por outras cidades da Rota Peter Lund: Lagoa Santa (a 25 km), Pedro Leopoldo (a 30 km) e Cordisburgo (a 90 km), formando um circuito de cavernas, sítios paleontológicos e patrimônio literário brasileiro.
Uma cidade com nome que engana
Sete Lagoas oferece um raro caso de sobreposição entre curiosidade e turismo: um nome que subestima a realidade natural do território, uma gruta com formações que não existem em nenhuma outra caverna do Brasil, pinturas rupestres de milênios preservadas ao lado da estrada e o rastro de Tiradentes anos antes do movimento que o levaria à forca. É a cidade que mostra como o interior mineiro guarda camadas de história muito mais profundas do que o mapa deixa transparecer.
Você precisa reservar pelo menos dois dias em Sete Lagoas, dividir o tempo entre a Gruta Rei do Mato pela manhã, a Serra de Santa Helena à tarde e um jantar com feijão tropeiro em algum restaurante da Lagoa Paulino ao anoitecer.




