Revisar o celular logo ao acordar se tornou um comportamento quase automático em muitas rotinas. Sem pensar muito, a pessoa pega o aparelho ainda na cama, desbloqueia a tela e entra em mensagens, redes sociais ou notícias antes mesmo de se levantar, revelando como a mente lida com o início do dia, com a ansiedade e com a necessidade de conexão com o mundo ao redor.
O que significa olhar o celular assim que acorda na perspectiva psicológica
Na psicologia, esse costume é observado como um indicador de certos padrões emocionais e cognitivos. A forma como alguém começa a manhã diz muito sobre o modo como organiza pensamentos, expectativas e preocupações logo ao despertar, como mostra a pesquisa “The hidden cost of a smartphone: The effects of smartphone notifications on cognitive control from a behavioral and electrophysiological perspective”.
Em alguns casos, olhar o celular ao despertar pode ser uma forma de organização prática; em outros, pode sinalizar dependência de estímulos, dificuldade de desconectar ou busca intensa por informações e validação social, reforçando estados de alerta desde os primeiros minutos do dia.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo da Dra. Rochelle Marquetto (@dra.rochellemarquetto):
@dra.rochellemarquetto Se você pega o celular assim que acorda, está treinando seu cérebro para começar o dia no modo alerta. Ao despertar, o cérebro ainda está regulando humor, energia e sistema nervoso. Quando o primeiro estímulo vira tela, notificação e dopamina rápida, a ansiedade tende a subir, o foco cai e o corpo acelera, muitas vezes com aumento de cortisol logo cedo. Dê alguns minutos para o cérebro acordar antes de ser “jogado” no mundo. Eu sou a Dra. Rochelle Marquetto, psiquiatra funcional integrativa. Compartilhe com quem começa o dia scrollando e me conta: você pega no celular assim que acorda? #saudementalimporta ♬ som original – Dra. Rochelle Marquetto
Quais fatores explicam o hábito de revisar o celular ao acordar
O hábito de checar notificações logo que os olhos se abrem costuma estar ligado a um estado de atenção elevada. A mente entra em modo de vigilância e tenta se atualizar sobre o que aconteceu durante a noite, como se precisasse se preparar rapidamente para o dia.
Com o tempo, esse comportamento se torna parte da rotina matinal, combinando fatores emocionais, cognitivos e de aprendizagem. Abaixo estão alguns aspectos que costumam aparecer quando se fala em revisar o celular ao acordar:
- Necessidade de controle: a pessoa sente alívio ao ver que não há mensagens urgentes ou problemas pendentes.
- Ansiedade antecipatória: a mente se projeta para o dia e tenta reduzir a incerteza buscando informações logo cedo.
- Busca de validação: curtidas, respostas e interações funcionam como sinais rápidos de aceitação social.
- Dificuldade de contato interno: o aparelho ajuda a evitar o silêncio e o encontro com pensamentos mais profundos.
- Rotina automática: o gesto se repete de forma quase inconsciente, sem avaliação sobre seu impacto.
O que a psicologia aponta sobre revisar o celular ao acordar
Do ponto de vista psicológico, a revisão imediata do celular pela manhã costuma ser analisada em três dimensões principais: cognição, emoção e comportamento. Na parte cognitiva, muitas pessoas acordam com a sensação de que precisam se “atualizar” para reduzir a imprevisibilidade do dia.
Isso pode ser entendido como uma estratégia para lidar com a incerteza, ainda que nem sempre seja a mais equilibrada. Ao mesmo tempo, a repetição diária desse gesto consolida um script mental em que acordar já está diretamente associado à conexão com o aparelho.
Como emoções e recompensas digitais influenciam esse costume
No campo emocional, esse gesto pode estar ligado ao medo de perder algo importante, conhecido como FOMO (fear of missing out). A ideia de que alguma notícia, mensagem ou oportunidade surgiu durante a noite incentiva a checagem constante do aparelho ao despertar.
Além disso, notificações e interações nas redes funcionam como pequenos estímulos que ativam o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina e fortalecendo o costume de abrir o celular assim que o despertador toca, mesmo quando não há uma necessidade real.

Como o hábito de usar o celular ao acordar se consolida
No comportamento, trata-se muitas vezes de um hábito consolidado. Ao repetir o mesmo movimento diariamente — desligar o alarme e imediatamente deslizar para aplicativos — o cérebro cria uma associação entre acordar e se conectar ao aparelho.
Com o tempo, esse ciclo se mantém de forma automática, reforçado por recompensas rápidas e pela sensação de estar sempre atualizado. Assim, o gesto passa a parecer “natural”, mesmo que aumente o cansaço mental logo no início do dia.
Como o uso do celular ao acordar influencia o início do dia
Começar a manhã com o celular em mãos geralmente significa iniciar o dia voltado para o mundo externo antes de perceber como o corpo e a mente estão internamente. Essa inversão de foco pode influenciar o humor e o nível de tensão ao longo das horas seguintes.
Isso se torna ainda mais evidente quando as primeiras informações consumidas envolvem cobranças, comparações ou conteúdos intensos. A seguir, estão algumas possíveis consequências desse comportamento frequentemente observadas:
- Aumento da carga mental: muitas tarefas, mensagens e notícias logo cedo podem gerar sensação de sobrecarga.
- Ritmo acelerado desde o despertar: o cérebro entra rapidamente em estado de alerta, reduzindo o espaço para um início de dia mais calmo.
- Comparações sociais constantes: conteúdos de redes podem incentivar comparações imediatas com a vida de outras pessoas.
- Menor atenção às necessidades físicas: fome, sede e sinais do corpo podem ser adiados em favor da tela.
O uso do celular pela manhã pode ser funcional e organizado
Em contrapartida, há quem utilize o celular pela manhã principalmente para organizar compromissos, checar a agenda ou ajustar o planejamento do dia. Nesses casos, o impacto tende a depender do tipo de conteúdo acessado e do tempo dedicado a essa prática.
Quando o aparelho é usado de maneira objetiva — por exemplo, para consultar horários, anotações ou lembretes — a relação entre o gesto e o nível de estresse costuma ser o fator central para avaliar se o hábito contribui para a rotina ou se se torna fonte de desgaste emocional.
É possível tornar o uso do celular ao acordar mais equilibrado e consciente
A psicologia contemporânea tem sugerido abordagens que não se baseiam apenas na proibição do uso do celular ao despertar, mas na criação de uma relação mais consciente e intencional com o aparelho. A ideia é reduzir o automatismo e aumentar a percepção sobre como esse gesto afeta o bem-estar.
Em vez de reagir automaticamente, a pessoa pode passar a escolher como e quando quer se conectar, observando sensações físicas, emoções e pensamentos que surgem nesses primeiros minutos do dia.
Quais estratégias podem ajudar a equilibrar o hábito matinal com o celular
Algumas estratégias frequentemente recomendadas envolvem pequenas alterações na rotina matinal, com foco em ampliar a autonomia frente ao uso do celular. Essas mudanças não exigem grandes esforços, mas pedem constância e curiosidade sobre seus efeitos no dia a dia.
- Definir um intervalo mínimo entre acordar e desbloquear o celular, mesmo que sejam apenas alguns minutos.
- Priorizar um gesto simples antes da tela, como alongar, beber água ou abrir a janela.
- Ajustar notificações, desativando alertas não urgentes durante a noite e nas primeiras horas da manhã.
- Escolher conscientemente quais aplicativos serão abertos logo cedo, evitando rolagem infinita em redes sociais.
- Observar como o humor se altera nos dias em que o hábito é reduzido ou substituído por outras atividades.
Com esse tipo de ajuste, o ato de revisar o celular ao acordar deixa de ser um reflexo automático e passa a ser uma escolha inserida em uma rotina mais ampla. Ao perceber se esse gesto traz calma, organização ou, ao contrário, aumenta a tensão, cada pessoa pode adaptar o próprio comportamento de forma mais alinhada às suas necessidades reais.










