Imagine abrir uma tumba de milhares de anos e, em vez de só encontrar ossos e tecidos, dar de cara com um tipo de queijo antigo ainda visível ao lado das múmias. Foi exatamente isso que aconteceu na região da Bacia do Tarim, na China, onde arqueólogos descobriram uma substância esbranquiçada preservada junto aos corpos. Análises mostraram que se tratava de um derivado de leite fermentado, muito parecido com o que hoje conhecemos como kefir, ligando práticas alimentares milenares a hábitos ainda presentes na nossa mesa.
O que torna esse queijo das múmias tão especial
Esses achados chamaram a atenção de cientistas porque reúnem, em um mesmo cenário, alimentação cotidiana, rituais de morte e pistas sobre a história dos microrganismos usados até hoje na fermentação do leite. O clima extremamente seco e salino do cemitério de Xiaohe ajudou a conservar tanto as múmias quanto o alimento, como se fosse uma cápsula do tempo protegendo cheiros, sabores e práticas de outra era.
Graças a essas condições, pesquisadores puderam analisar com detalhe como esse queijo foi feito e por que ele estava disposto ao redor da cabeça e do pescoço dos corpos. Esse posicionamento indica uma função simbólica, possivelmente como oferenda para a vida após a morte, mostrando que comida também carregava afeto, crenças e esperanças de um futuro além desta vida.

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Como era o queijo mais antigo do mundo encontrado na China
O termo “queijo mais antigo do mundo” passou a ser usado para falar dessa substância da Bacia do Tarim, datada entre 3.300 e 3.600 anos. Isso a coloca entre as evidências mais antigas de derivados de leite já encontrados de forma direta, ampliando nossa visão sobre o uso de laticínios em sociedades da Idade do Bronze, muito antes da indústria moderna de queijos.
Os estudos indicam que era um queijo fresco, com baixo teor de umidade e produzido de maneira bem simples, provavelmente por fermentação natural, sem técnicas complexas de maturação. Essa simplicidade ajuda a entender por que alimentos parecidos surgiram de forma independente em diferentes povos, sempre como solução prática para conservar o leite em ambientes difíceis de se viver.
Como os cientistas descobriram que era queijo fermentado
Para confirmar que o material era mesmo um derivado de leite fermentado, as equipes recorreram a análises de laboratório que permitem estudar o DNA preservado nas amostras. Esses fragmentos, retirados com extremo cuidado, revelaram pistas sobre a origem do alimento e de quais animais vinham os leites usados na produção desse queijo tão antigo.
Os resultados mostraram material genético de vacas e cabras, sugerindo que o queijo poderia ter sido feito com leites de espécies diferentes, ainda que em lotes separados. A partir daí, os pesquisadores passaram a olhar também para os microrganismos usados na fermentação, aproximando esse queijo ancestral de produtos que ainda hoje fazem parte da nossa rotina alimentar.

Que relação esse queijo tem com o kefir de hoje
Além da origem animal, os estudos identificaram bactérias e leveduras muito parecidas com as presentes nos grãos de kefir atuais. Entre elas, aparecem bactérias do gênero Lactobacillus e leveduras como Pichia kudriavzevii, geralmente associadas à fermentação de leite em bebidas e queijos consumidos em diversos cantos do mundo.
Ao comparar o DNA desses microrganismos antigos com linhagens modernas de Lactobacillus kefiranofaciens, pesquisadores perceberam maior proximidade com o grupo encontrado no planalto tibetano. Isso sugere que a história do kefir não se limita às montanhas do Cáucaso, envolvendo rotas de circulação de pessoas, animais e técnicas culinárias por diferentes regiões da Ásia.
O que esse queijo antigo revela sobre bactérias e seres humanos
Esse queijo ancestral também ajuda a entender como certas bactérias se adaptaram ao convívio com os humanos ao longo de milhares de anos. Estudos comparando versões antigas e modernas dessas bactérias sugerem que elas foram se tornando menos agressivas ao nosso organismo, desencadeando respostas menos intensas do sistema imune.
Essa mudança parece estar ligada à troca de genes entre diferentes microrganismos, algo comum em ambientes de fermentação, onde várias espécies convivem em proximidade. Assim, enquanto nós aprendíamos a fermentar leite para conservá-lo, as bactérias aprendiam a viver melhor dentro e ao redor do corpo humano, num processo de adaptação mútua que ainda continua nos nossos dias de hoje.






