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Início Cidades

Onde o passado colonial encontra a corrida espacial, uma cidade histórica preserva ruínas do século XVII enquanto foguetes decolam nas proximidades

Por Maura Pereira
17/09/2026
Em Cidades, Turismo
A cidade histórica esquecida que parou em 1850 onde foguetes decolam ao lado de ruínas esquecidas do século XVII

A visita a Alcântara é uma experiência sensorial que envolve provar doces exclusivos e explorar construções coloniais sem telhado sob o sol equatorial.

Separada de São Luís pela Baía de São Marcos, a apenas 32 km da capital maranhense, Alcântara concentra em um mesmo território vestígios de diferentes momentos da história brasileira. Ruínas coloniais do século XVII, mais de 150 comunidades quilombolas e uma das posições geográficas mais favoráveis das Américas para o lançamento de foguetes convivem em um município com pouco mais de 18 mil habitantes.

Como Alcântara se tornou uma das cidades históricas mais antigas do Maranhão?

A história de Alcântara começou em 1648, quando portugueses ocuparam a antiga aldeia tupinambá de Tapuitapera e estabeleceram ali uma nova vila. O núcleo se desenvolveu antes do período de maior crescimento de São Luís e, durante o século XVIII, alcançou grande importância econômica no Maranhão. A produção de açúcar e sal contribuiu para essa riqueza, mas foi principalmente o algodão enviado para a Europa que colocou a cidade entre os principais centros econômicos da região.

A prosperidade também mudou a aparência da vila e aproximou suas elites dos modelos arquitetônicos europeus. Os filhos das famílias mais abastadas eram enviados para estudar em Coimbra, em Portugal, e retornavam trazendo referências que influenciaram a construção de igrejas, fontes e palacetes. Já no começo do século XIX, Alcântara reunia barões e comendadores e possuía um dos principais símbolos do poder local, o imponente pelourinho feito com pedra de lioz trazida de Portugal.

A vila histórica no Brasil onde foguetes decolam ao lado de ruínas esquecidas do século XVII
Alcântara-MA abriga centro histórico tombado IPHAN desde 1948, com ruínas de igrejas, palacetes e Forte de Santa Maria às margens da baía. // Créditos: Wikipédia

A aposta dos dois barões para hospedar Dom Pedro II

O episódio mais saboroso da história alcantarense envolve uma disputa de vaidades. No século 19, correu o boato de que Dom Pedro II visitaria a cidade em uma viagem oficial. Dois homens ricos decidiram cada um construir um palácio para hospedar o imperador, na esperança de ganhar título de nobreza ainda mais elevado.

  • Barão de Mearim: do partido conservador, ergueu o que ficou conhecido como Palácio Negro, em frente ao largo da Igreja do Carmo. As ruínas ainda guardam sacadas de pedra lioz tombadas no chão.
  • Barão de Pindaré-Mirim: do partido liberal, iniciou em paralelo um segundo palácio, com importação de materiais e ostentação calculada para impressionar a corte imperial.
  • Dom Pedro II: cancelou a viagem segundo a tradição local, justamente para não tomar partido entre liberais e conservadores. Nenhum dos dois palácios foi concluído.

O vídeo do canal DEVA NO AR apresenta uma jornada detalhada por Alcântara, no Maranhão, uma cidade histórica fundada em 1648 que parece ter “parado no tempo”. Conhecida como a cidade das ruínas, Alcântara é um Patrimônio Histórico Nacional que guarda as marcas da era colonial brasileira.

A Igreja Matriz que ficou sem telhado para sempre

Ao lado das ruínas dos palácios, na Praça da Matriz, está o cartão-postal mais fotografado da cidade. As Ruínas da Igreja Matriz de São Matias são o que sobrou de uma construção iniciada no século 17 e nunca terminada. As paredes laterais em pedra e cal seguem de pé, mas o teto nunca foi colocado. Hoje, o céu maranhense entra pelo vão aberto e funciona como cobertura natural.

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O pelourinho original, considerado um dos mais bem conservados do Brasil, ainda traz no topo as armas da coroa portuguesa em relevo. A Igreja e Convento de Nossa Senhora do Carmo, fundada em 1665 pelos Carmelitas Calçados, está logo em frente. Esta sim foi concluída e abriga retábulo com talha dourada em estilo rococó, painéis de azulejos portugueses e fachada em cantaria de lioz.

Em Alcântara-MA, explore praias calmas, trilhas ecológicas e museus gratuitos no casario colorido e acolhedor da baía de São Marcos. // Créditos: Wikipédia

A cidade inteira virou monumento nacional em 1948

Quando o ciclo do algodão acabou e a abolição da escravatura desestruturou a economia local, os ricos partiram. Os casarões ficaram. O isolamento geográfico, longe das rotas modernas de transporte, fez com que a cidade simplesmente parasse no tempo. O abandono virou método de preservação.

Em 22 de dezembro de 1948, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou o conjunto arquitetônico inteiro pelo Decreto nº 26.077, transformando Alcântara em Cidade Monumento Nacional. A área protegida abrange aproximadamente 400 imóveis, segundo o IPHAN. O perímetro foi delimitado oficialmente em 1997, pela Lei nº 244, que regulamenta ocupação e uso do solo dentro do sítio histórico.

No Nordeste brasileiro, foguetes são testados em uma cidade fantasma que hoje vive entre ruínas e a alta tecnologia
Alcântara-MA revive glórias coloniais em ruas de pedra e arquitetura barroca, inspirando viagens no tempo no coração do Maranhão. // Créditos: Wikipédia

O acidente que paralisou o programa espacial brasileiro

Em 22 de agosto de 2003, três dias antes do lançamento previsto, o Veículo Lançador de Satélites VLS-1 V03 sofreu uma ignição prematura no primeiro estágio enquanto ainda estava na plataforma. O incêndio gerou uma sequência de explosões que destruiu o foguete e a torre de lançamento. Vinte e uma pessoas morreram, a maioria engenheiros e técnicos brasileiros que detinham o conhecimento central do programa.

O acidente é considerado a maior tragédia da história aeroespacial do Brasil. A perda de boa parte do corpo técnico atrasou o desenvolvimento do VLS por mais de uma década, até o programa ser oficialmente extinto em 2016. A reconstrução da plataforma demorou anos e o Centro só voltou a operar com regularidade na década de 2020, agora com foco em parcerias comerciais internacionais.

Leia também: Com ruas de pedra e igrejas detalhadas em ouro, essa cidade de Minas Gerais parece ter parado no tempo em que nasceu.

Quatro séculos diferentes no mesmo município

O território de Alcântara concentra camadas históricas que normalmente não dividem o mesmo CEP. Do tupinambá ao foguete sul-coreano, o município empilha quatro séculos em um pedaço de península maranhense. Os principais marcos contam essa convivência:

  • Aldeia de Tapuitapera: ocupação tupinambá anterior à chegada portuguesa, base do que viria a ser a vila colonial em 1648.
  • Casarões e igrejas barrocas: erguidos entre os séculos 17 e 19 com lucros do açúcar, do sal e do algodão exportado para a Europa.
  • Mais de 150 comunidades quilombolas: certificadas pela Fundação Cultural Palmares, formam a maior concentração quilombola do Brasil.
  • Acordo histórico de 2024: a Advocacia-Geral da União (AGU) mediou a titulação de cerca de 78 mil hectares como território quilombola após 40 anos de impasse.
  • Centro de Lançamento de Alcântara: base ativa que lança foguetes para empresas estrangeiras a poucos km dos casarões em ruínas.

Vale conhecer a cidade brasileira mais paradoxal que existe

Poucos lugares no mundo conseguem reunir, no mesmo CEP, ruínas coloniais sem teto, pelourinho do século 17, comunidades quilombolas centenárias e uma base de lançamento de foguetes em operação. Alcântara é o tipo de destino que entrega quatro séculos diferentes de história em uma travessia de catamarã.

Você precisa atravessar a Baía de São Marcos e conhecer Alcântara com tempo para entender por que essa península do Maranhão é o lugar mais fora da curva que o Brasil tem.

Tags: alcântaraMaranhão
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