Os gatos podem criar vínculos de apego com as pessoas e buscar nelas segurança diante de situações novas ou estressantes. A ciência mostra que essa relação vai além da comida, mas a ideia popular de que o gato simplesmente “escolhe seu dono” precisa ser entendida com mais cuidado.
Gatos podem enxergar pessoas como uma fonte de segurança
O veterinário Carlos Gutiérrez explica, em reportagem do El Español, que os felinos conseguem estabelecer relações de apego seguro com seus cuidadores. Na prática, isso significa procurar uma pessoa que represente proteção e estabilidade quando o ambiente provoca insegurança ou tensão.
Esse comportamento contraria a imagem de que todo gato é necessariamente distante e independente. Um felino pode gostar de explorar sozinho e, ao mesmo tempo, usar determinada pessoa como uma referência de confiança, especialmente diante de uma situação desconhecida.

Um estudo encontrou apego seguro na maioria dos gatos avaliados
Uma pesquisa da Oregon State University reforçou essa interpretação. No experimento, publicado em 2019, gatos permaneceram durante dois minutos com seus cuidadores em uma sala desconhecida, passaram outros dois minutos sozinhos e depois participaram de um reencontro de mais dois minutos. O objetivo era observar como reagiam à separação e ao retorno.
Entre os 70 filhotes cujo comportamento pôde ser classificado, 64,3% apresentaram apego seguro e 35,7% foram classificados com padrões inseguros. Nos gatos adultos avaliados posteriormente, os resultados foram semelhantes: 65,8% mostraram apego seguro. Os dados podem ser consultados na página da Oregon State University.
Os animais classificados com vínculo seguro demonstravam menos estresse após o retorno do cuidador e conseguiam dividir a atenção entre a pessoa e o ambiente. Já alguns gatos com apego inseguro apresentavam comportamentos como evitar contato ou permanecer excessivamente próximos da pessoa depois da separação.
As primeiras semanas de vida influenciam a relação com humanos
A maneira como um gato se aproxima das pessoas não depende apenas de uma preferência momentânea. Experiências durante o desenvolvimento, características individuais e o histórico do animal podem influenciar seu comportamento. Um período especialmente relevante ocorre entre aproximadamente duas e sete semanas de idade.
A organização britânica Cats Protection explica que essa é uma fase importante de socialização, quando o cérebro e os sistemas sensoriais do filhote ainda estão se desenvolvendo. Experiências positivas com pessoas, sons e ambientes ajudam o gato a identificar essas situações como menos ameaçadoras no futuro.
O gato mais tímido também pode desenvolver um vínculo forte
Um dos problemas de interpretar literalmente a ideia de que “o gato escolhe a pessoa” aparece no momento da adoção. Segundo Gutiérrez, dar preferência apenas ao animal que imediatamente se aproxima, se esfrega nas pernas ou aceita carinho pode deixar gatos mais cautelosos em desvantagem.
Um gato que se esconde ou evita contato em um abrigo não necessariamente será pouco afetuoso dentro de casa. O comportamento naquele momento pode refletir medo, mudanças recentes, experiências anteriores ou simplesmente a necessidade de mais tempo para confiar. Depois de se adaptar a um ambiente estável, esse mesmo animal pode construir uma relação próxima com seus cuidadores.

Forçar contato pode dificultar a construção da confiança
A chegada a uma casa nova normalmente representa uma grande mudança para o gato. Novos cheiros, pessoas, sons e espaços precisam ser processados, e alguns animais levam mais tempo do que outros para explorar o ambiente. Por isso, oferecer controle sobre a aproximação tende a ser mais adequado do que retirar o animal do esconderijo ou segurá-lo contra a vontade.
Entre as medidas recomendadas para facilitar esse período estão:
- permitir que o gato se aproxime espontaneamente;
- disponibilizar inicialmente um ambiente tranquilo e seguro;
- manter comida, água e outros recursos em locais de fácil acesso;
- usar brincadeiras, petiscos e interações suaves para criar experiências positivas;
- respeitar quando o animal decidir encerrar o contato.
Esse cuidado é particularmente relevante para gatos assustados ou recém-adotados. Perseguir o animal para fazer carinho ou obrigá-lo a permanecer no colo pode transformar uma interação que deveria ser positiva em uma experiência de medo ou desconforto.
Como perceber que o gato confia em uma pessoa
Não existe um único comportamento que prove a existência de um vínculo forte. Alguns gatos buscam contato físico, acompanham o cuidador pela casa ou descansam perto dele, enquanto outros mantêm certa distância e ainda assim demonstram segurança em sua presença. A personalidade individual precisa ser considerada.
Mais importante do que esperar que o gato demonstre afeto de uma maneira específica é observar se ele consegue relaxar, explorar o ambiente e procurar interação sem sinais evidentes de medo. Construir esse vínculo exige paciência e previsibilidade: oferecer segurança, respeitar limites e permitir que o animal controle parte das interações cria condições melhores para que a confiança apareça com o tempo.




