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Início Curiosidades

Par de Kichute, calçado lançado pela Alpargatas em 1970 que vendeu mais de 9 milhões de pares por ano no auge, segundo a Exame, está anunciado por até R$ 875 com a embalagem original, em consulta feita em 7 de outubro de 2026

Por João Victor
08/10/2026
Em Curiosidades
Par de tênis de travas antigo ao lado da caixa original

Par de tênis de travas antigo ao lado da caixa original. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Um par de Kichute indicado como numeração 40/39, com a embalagem original, está anunciado por R$ 875 na vitrine de calçados da Loja do Som, que reúne ofertas publicadas no Mercado Livre. O levantamento foi feito em 7/10/2026. É o preço mais alto entre os 18 anúncios com o nome Kichute listados na página nesse dia, e fica bem acima do que pede a maioria deles.

O calçado de lona preta com solado de borracha cheio de cravos foi lançado pela Alpargatas em 1970, segundo reportagens da Exame e do InfoMoney. Hoje o Kichute aparece em anúncio com preço de colecionador, mas um anúncio registra o que o vendedor pede, não o que alguém pagou.

Nove milhões de pares por ano

A medida da presença do Kichute nas ruas brasileiras vem da imprensa de negócios. Segundo a Exame, em reportagem de dezembro de 2024, “no auge da sua popularidade, no final dos anos 1970, o Kichute chegou a vender mais de nove milhões de pares por ano”, o que fazia dele um dos calçados mais rentáveis da Alpargatas. O InfoMoney, em texto de maio de 2025, cita o mesmo pico de 9 milhões de pares anuais e o situa em meados daquela década, quando o volume equivalia, pelas contas do site, a quase 10% da população do país.

As duas publicações divergem sobre o ano exato do auge, mas concordam na ordem de grandeza. Não há, nas páginas abertas para esta reportagem, um número divulgado pela própria Alpargatas; os 9 milhões são dado de imprensa.

O produto era uma mescla de calçado esportivo com chuteira, nas palavras do InfoMoney, mais barato que as chuteiras tradicionais e os tênis importados da época. Servia para a escola, para a pelada de fim de tarde e para o dia a dia. O ex-jogador Zico aparece, tanto no InfoMoney quanto no portal capixaba ES Fala, como garoto-propaganda da marca.

Do ano do tri à saída das prateleiras

Sola de borracha com travas de tênis antigo
Sola de borracha com travas de tênis antigo. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

A Exame registra que o lançamento, em 1970, aproveitou a popularidade do tricampeonato mundial da seleção brasileira, conquistado naquele ano no México. Pelo relato do InfoMoney, a Alpargatas ampliava então sua linha esportiva; em 1978 lançaria a Topper e compraria a Rainha.

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O declínio veio com a abertura econômica e a chegada das marcas internacionais de tênis esportivos, descrita pelas duas publicações. A data do fim não é consensual. O InfoMoney diz que a produção foi descontinuada nos anos 1990, e a Exame afirma que, no início dos anos 2000, a marca já não estava tão presente no mercado. O ES Fala, em 2022, situava a saída do mercado nos anos 90.

Depois disso, o nome voltou a ser usado mais de uma vez. O InfoMoney cita uma tentativa de relançamento pela Vulcabras em 2005. A Exame relata que, em 2022, o Grupo Alexandria anunciou um retrofit para trazer o Kichute de volta como marca digital, sem lojas físicas, com previsão de lançamento em 2023; em dezembro de 2024, ainda segundo a revista, os calçados não estavam à venda.

Esse vaivém pesa na leitura dos anúncios atuais. Nenhum dos que aparecem na vitrine informa o ano de fabricação, e por isso não é possível afirmar que os pares anunciados saíram das fábricas nos anos 1970 ou 1980.

O preço do Kichute nos anúncios consultados em outubro

No dia da consulta, a vitrine da Loja do Som dedicada ao Kichute listava 18 anúncios com o nome do calçado. O mais barato, descrito como tênis antigo da Alpargatas, estava anunciado por R$ 160. O mais caro, o par 40/39 com embalagem original e o aviso para ler a descrição, por R$ 875. Todos aparecem sem garantia.

Entre os dois extremos, a distribuição é concentrada. Dezesseis dos 18 anúncios pediam entre R$ 160 e R$ 297. Os tamanhos infantis e juvenis, de 23 a 37, apareciam de R$ 176 a R$ 278, muitos com as expressões estoque antigo ou original no título. Só dois passavam de R$ 300: o de R$ 875 e um par 38/37 com logo e embalagem original, anunciado por R$ 445.

A faixa não mudou muito em quatro anos. Em julho de 2022, um levantamento do ES Fala em sites de compras encontrou anúncios entre R$ 140 e R$ 500. Os valores são, nos dois casos, preços pedidos. Não há registro público de quanto esses pares foram efetivamente vendidos.

Por que um par pede R$ 875 e outro R$ 212

A embalagem original, sozinha, não explica a diferença. Na mesma vitrine, um Kichute 33/32 com embalagem original estava anunciado por R$ 212, e a versão de futsal, numeração 39/38, também com caixa e chamada de rara no título, por R$ 297. Os dois anúncios acima de R$ 400 reúnem caixa e numeração adulta, combinação que só aparece em três dos 18 anúncios, numa lista dominada por tamanhos de criança; o terceiro é justamente o de futsal.

Outros detalhes entram no título dos anúncios como argumento de venda: a bandeirinha e o logotipo citados na descrição curta, a menção a estoque antigo, a palavra original. Há até um par com pés de tamanhos diferentes, esquerdo 37 e direito 36, anunciado por R$ 248 com o pedido de leitura da descrição. Nenhum desses fatores tem tabela de referência, e o preço de cada anúncio é definido pelo próprio vendedor.

O contraste com o par comum é grande. O anúncio típico da lista, de numeração infantil e sem caixa, pede algo perto de R$ 200, menos de um quarto do topo. Num calçado que saiu das fábricas aos milhões, o que os anúncios tratam como raro é a caixa.

O interesse por objetos de massa que viraram peça de coleção não é exclusivo dos calçados, como mostra o texto sobre adultos que guardam e colecionam bonecos. No caso do Kichute, a memória afetiva está ligada a uma infância de rua e de recreio, assunto de outro texto sobre hábitos da infância nos anos 70 que hoje parecem improváveis. A trajetória da marca está na reportagem da Exame sobre o que aconteceu com o Kichute, que trata também da tentativa de retorno anunciada em 2022.

Tags: Alpargatasanos 70Kichuteobjetos antigos
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