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Início Bem-Estar

Para a psicologia, pessoas que guardam roupas sem uso há anos não são desorganizadas, mas ligadas aos objetos por memória e identidade, um vínculo que a pesquisa sobre posses como extensão do eu descreve desde os anos 1980

Por João Victor
05/09/2026
Em Bem-Estar
Mulher segura vestido antigo diante do guarda-roupa

Mulher segura vestido antigo diante do guarda-roupa. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Uma moradora abre a última gaveta da cômoda para separar o que vai para a doação e para na metade: um vestido de festa que não entra há oito anos, a camiseta de uma viagem de formatura, a jaqueta jeans comprada no primeiro emprego. Ela dobra tudo de novo e leva para a sacola apenas duas meias furadas. O roteiro é fictício, mas quem já tentou esvaziar um armário sabe que ela se repete em quase toda casa.

O julgamento que vem em seguida costuma ser duro: “sou desorganizada”, “vou acabar acumulando”. A psicologia que estuda a relação entre pessoas e objetos vê outra coisa. Guardar roupas que não usa há anos, para essa linha de pesquisa, tem menos a ver com bagunça e mais com memória, identidade e com um viés bem medido de avaliação: a gente atribui mais valor ao que já é nosso.

Por que guardar roupas que não usa vira assunto de psicologia?

Porque roupa não é um objeto qualquer: fica colada ao corpo, aparece em fotos e marca fases da vida.

Esse ponto é central na teoria do eu estendido, formulada por Russell Belk no artigo “Possessions and the Extended Self”, publicado em 1988 no Journal of Consumer Research, volume 15, número 2, páginas 139 a 168. A tese, nas palavras do resumo do próprio artigo, é que “nossas posses são um contribuinte importante para as nossas identidades e um reflexo delas”. Belk organiza o argumento em camadas: o corpo, as roupas e os objetos íntimos, a casa, as coleções, o lugar onde a pessoa vive. Quanto mais próxima do corpo e mais carregada de história, mais a posse funciona como parte do próprio self.

O que diz Russell Belk sobre posses como extensão do eu?

Mão toca a jaqueta jeans guardada há anos
Mão toca a jaqueta jeans guardada há anos. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

A ideia rende duas consequências para o armário: perder um objeto é sentido como perder parte de si, e a ligação se fortalece com o tempo e o esforço investidos.

Belk reúne no artigo de 1988 evidências de várias áreas, de antropologia a estudos sobre roubo e desastres, para mostrar que quem perde bens importantes relata algo parecido com luto, e não apenas prejuízo material. Ele também descreve como os objetos passam a “pertencer” ao eu: pelo controle, pela criação e pelo conhecimento íntimo. É por isso que doar uma peça que nunca coube direito é fácil, e doar a que participou de uma fase da vida parece amputação. A ficha do artigo está na base IDEAS/RePEc, que indexa o trabalho de Belk.

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Como funciona o efeito dotação no experimento das canecas?

A segunda peça vem da economia comportamental e mostra que nem precisa de história para superestimar o que já é nosso.

Em 1990, Daniel Kahneman, Jack Knetsch e Richard Thaler publicaram no Journal of Political Economy, volume 98, o estudo “Experimental Tests of the Endowment Effect and the Coase Theorem”. No primeiro experimento, feito com 44 estudantes da Universidade Cornell, metade da turma recebeu uma caneca da livraria do campus, vendida ali por 6 dólares, e a outra metade ficou sem. Depois, donos diziam por quanto venderiam e os demais, por quanto comprariam. Pela teoria clássica, cerca de 11 canecas deveriam trocar de mãos; a média observada nas rodadas foi de 2,25 trocas. O motivo estava nos preços: a mediana pedida por quem tinha a caneca foi de 5,25 dólares, e a mediana oferecida por quem não tinha ficou em 2,75 dólares, segundo os dados do artigo, que pode ser lido na cópia do estudo hospedada pelo MIT. Minutos de posse bastaram para a caneca valer quase o dobro na cabeça do dono. Esse é o efeito dotação, parte da obra que levou Kahneman ao Nobel de Economia de 2002, conforme registra a Fundação Nobel.

De onde vem a sensação de que a roupa guarda uma versão de quem a pessoa foi?

O rótulo de desorganização desmonta na conta: somando Belk e o efeito dotação, a peça parada no armário sofre duas valorizações ao mesmo tempo, uma afetiva e outra automática.

A afetiva é a de Belk: a jaqueta do primeiro emprego representa a pessoa que começou a trabalhar, e desfazer-se dela soa como declarar que aquela fase acabou. A automática é a das canecas: por ser sua, a roupa vale mais para você do que valeria para quem a visse num brechó. Somadas, o que a moradora sente diante da gaveta não é preguiça nem falta de método. É o custo real de abrir mão de um pedaço de biografia por um preço que, aos olhos dela, ninguém pagaria. Por isso a régua “se não usou em um ano, doe” falha em tantas casas: ela mede uso, e o que está em jogo é identidade. Uma leitura complementar está no artigo do CB Radar sobre quem sente pena de descartar objetos inanimados.

Quando a peça guardada deixa de ser memória e vira peso?

Nenhum dos dois estudos diz que guardar é errado. O que eles permitem dizer é quando o vínculo cobra mais do que devolve.

  • Volume que atrapalha o uso: se as peças de memória tomam o espaço das de rotina, o objeto começou a governar o eu, e não o contrário.
  • Repetição sem escolha: quando tudo é guardado, nada foi escolhido, e uma pilha indistinta não conta a história de ninguém.
  • Preço que só existe para o dono: se a justificativa para guardar é “isso vale muito”, vale lembrar o experimento das canecas e perguntar quanto um estranho pagaria de fato.
  • Sofrimento persistente: angústia intensa ao pensar em descartar, brigas frequentes por causa do acúmulo ou cômodos inutilizáveis merecem conversa com um psicólogo, não um texto de internet.

Fora desses sinais, há gente comum administrando a própria história com cabides. O relato do CB Radar sobre uma mulher que esvaziou o guarda-roupa num sábado mostra que o problema, muitas vezes, não é a quantidade.

O que fazer para desapegar sem culpa e sem jogar fora a história?

Se o apego é identidade e o preço é inflado pela posse, a saída é separar a memória do tecido.

Um caminho compatível com a teoria de Belk é registrar antes de soltar: fotografar a peça, anotar quando e onde foi usada e guardar o registro num álbum. O eu estendido precisa do vínculo, não do algodão. Outro caminho vem do efeito dotação: em vez de perguntar “por quanto eu venderia?”, perguntar “se eu não tivesse esta peça, pagaria por ela hoje?”. A troca de ponto de vista devolve à roupa o valor de mercado, quase sempre menor. Também ajuda dar destino com nome: doar a jaqueta a quem vai começar a trabalhar mantém a história em movimento. E convém guardar, sem culpa, poucas peças escolhidas: escolher é o gesto que transforma pilha em memória.

O que convém lembrar sobre guardar roupas que não usa?

Separe as peças em dois grupos antes de decidir: as que contam uma história e as que só ocupam lugar. Para as de história, registre em foto e fixe um espaço, uma caixa ou uma prateleira, e respeite o limite. Para as demais, aplique a pergunta das canecas: pagaria por isso hoje? Se não, a peça sai. Dê destino com rosto sempre que possível. E observe os sinais: cômodo inutilizável, conflito constante em casa ou angústia que não passa são motivos para procurar um profissional, não para se cobrar mais.

O alcance deste artigo é informativo: ele parte de dois estudos publicados em periódicos científicos e não oferece avaliação psicológica de ninguém. Pessoas que guardam roupas sem uso há anos não são desorganizadas, mas ligadas a versões de si mesmas que aquelas peças representam. Quem sentir que o apego virou sofrimento deve conversar com um psicólogo, que é quem pode olhar a situação de perto.

Tags: apego a objetosefeito dotaçãopsicologiaRussell Belk
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