A embalagem diz que é para crianças pequenas, mas o corredor infantil pode esconder bem mais produtos industriais do que os pais imaginam. Uma análise de 2.783 itens mostrou como os alimentos ultraprocessados dominam essas prateleiras nos EUA e onde o rótulo entrega os principais sinais. Há, porém, uma ressalva importante sobre esses resultados.
O número de 81% veio de 21 supermercados
Pesquisadores fotografaram as seções de alimentos para bebês e crianças pequenas em 21 supermercados de Austin, no Texas. Depois, reuniram informações nutricionais e listas de ingredientes de 2.783 produtos vendidos para crianças entre 6 e 36 meses, distribuídos em 11 categorias.
Fórmulas infantis, bebidas e purês normalmente usados como primeiros alimentos ficaram fora da análise. Aplicando o sistema Nova, que classifica alimentos pelo grau e pelo tipo de processamento, a equipe identificou 81% dos produtos como ultraprocessados. Mas processamento não foi o único critério colocado à prova.

Quase metade ultrapassou algum limite nutricional
Os pesquisadores também compararam os rótulos com o modelo nutricional da Organização Mundial da Saúde para alimentos comerciais destinados a crianças pequenas. No total, 49% ultrapassaram pelo menos um limite relacionado a açúcar, sódio, gordura ou densidade energética.
É importante não tratar esses números como reprovação segundo uma regra obrigatória dos Estados Unidos. A equipe usou como referência o modelo criado pela OMS para orientar alimentos comerciais destinados a crianças de 6 a 36 meses. E um dos resultados mais curiosos apareceu justamente quando os pesquisadores separaram processamento de nutrientes.
O sódio apareceu mais vezes que o açúcar
O sódio foi o problema mais frequente, aparecendo acima do parâmetro em um de cada quatro produtos. Entre os exemplos citados estavam macarrão com queijo e snacks de peru, enquanto alguns salgadinhos à base de queijo ou amendoim também ultrapassaram limites de calorias ou gordura.
Mas há uma diferença importante. Os ultraprocessados não apresentaram maior chance de ultrapassar o limite de sódio do que os produtos menos processados, enquanto a relação com açúcar foi muito mais clara. Itens acima do parâmetro de açúcar tiveram aproximadamente quatro vezes mais chance de serem ultraprocessados.
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Ultraprocessado não significa pior em todos os nutrientes
A própria análise mostrou por que olhar apenas uma palavra no rótulo pode simplificar demais a escolha. Alguns produtos menos processados ultrapassaram parâmetros de gordura ou calorias porque continham ingredientes como nozes ou carne, alimentos naturalmente mais densos em energia e que também fornecem outros nutrientes.
Já em parte dos ultraprocessados, molhos, queijos processados e outras formulações aumentavam gordura ou densidade energética sem a mesma explicação. Na prática, grau de processamento e perfil nutricional são informações diferentes e precisam ser lidas juntas. Isso também evita transformar um levantamento americano em uma regra automática para qualquer supermercado.

Os dados ainda são preliminares
O trabalho foi apresentado na NUTRITION 2026, encontro anual da American Society for Nutrition. Até agora, os resultados foram divulgados como pesquisa apresentada em congresso, e não como um artigo completo publicado após revisão por pares; a própria pesquisadora Erin Hudson informou que o manuscrito estava sendo preparado.
Isso não torna os números irrelevantes, mas muda o peso que deve ser dado a eles. Além disso, os produtos foram encontrados em lojas de Austin, nos Estados Unidos, então não é correto concluir que 81% dos alimentos infantis vendidos no Brasil também sejam ultraprocessados. O dado vale para a amostra estudada.
O que os pais podem observar no rótulo
Em vez de assumir que um produto é adequado só porque está na seção infantil, vale conferir ingredientes e tabela nutricional. A divulgação da Universidade do Texas sobre a pesquisa reforça justamente essa necessidade de olhar além das promessas da embalagem.
- Compare o sódio entre produtos parecidos.
- Procure açúcar adicionado e ingredientes adoçantes.
- Observe listas muito longas com aditivos e ingredientes industriais.
- Compare o produto com opções simples que a criança já consome em casa.
Para entender os parâmetros usados pelos pesquisadores, também é possível consultar o modelo nutricional da OMS para alimentos de crianças pequenas. O ponto prático é simples: o desenho infantil da embalagem não substitui a leitura do rótulo.




