Um Phantom System, o videogame que a Gradiente pôs nas lojas em 1989, aparece anunciado por R$ 1.715 no Enjoei, com dois controles, fonte e cabos. O vendedor, do Rio de Janeiro (RJ), começou pedindo R$ 2.000 e avisa no próprio anúncio que o aparelho não foi testado. Na mesma plataforma, uma Laser Gun da Gradiente, a pistola de luz do console, pede R$ 450 em Osasco (SP), com a caixa gasta, o certificado de garantia e o cartucho que juntava Super Mario Bros. e Duck Hunt. Os dois valores foram vistos na tarde de sexta-feira, 9 de outubro, e são preços pedidos por quem anuncia, não preços de venda fechada.
O phantom system não é peça de tiragem curta. O TecMundo, em texto publicado pelo Estadão em 2017 sobre a trajetória da Gradiente, chama o aparelho de “o mais famoso clone brasileiro do Nintendinho” e diz que ele vendeu muito bem, sem dar um número. É um console de massa, do tipo que ficou anos em armário de quarto de criança, e é justamente essa versão comum, com controles e fonte, que puxa os pedidos mais altos da plataforma.

Oito anúncios do Phantom System e de seus acessórios no Enjoei
No Enjoei, a busca pelo nome do console devolvia 61 resultados na sexta (9), e a busca combinando a marca com o nome, 29. Estes são os anúncios que ajudam a comparar o console, a pistola e os cartuchos, todos com o valor que o vendedor pede:
- Console Phantom System com dois controles, fonte e cabos, não testado: R$ 1.715 (cheio R$ 2.000), Rio de Janeiro (RJ).
- Console anunciado como completo, com controle, cartucho, Laser Gun e fonte: R$ 1.099, cidade não informada.
- Console com caixa danificada e dois controles, sem cabos e sem fonte: R$ 1.018 (cheio R$ 1.100), cidade não informada.
- Console com dois controles, fonte, cabo AV e um cartucho: R$ 1.050 (cheio R$ 1.500), Aparecida de Goiânia (GO).
- Laser Gun Gradiente com caixa, certificado de garantia e cartucho Super Mario Bros. e Duck Hunt: R$ 450, Osasco (SP).
- Laser Gun avulsa, sem caixa, com funcionamento não garantido: R$ 460, cidade não informada.
- Cartucho Predator da Gradiente com berço e manual, descrito pelo vendedor como raridade: R$ 1.200, cidade não informada.
- Cartucho Caça-Fantasmas (Ghostbusters), só a fita: R$ 70 (cheio R$ 100), São Paulo (SP).

Os quatro consoles da lista ficam entre R$ 1.018 e R$ 1.715 no Enjoei. Nenhum cartucho comum chega perto disso: o único acima de mil reais é o Predator, que o próprio anunciante trata como exceção.
Da Polyvox de 1983 à Playtronic de 1993
Quando o Phantom chegou, a Gradiente já conhecia o negócio de videogame. Segundo o TecMundo, em reportagem de 2025, foi a empresa que, a partir da Polyvox, lançou o Atari 2600 de forma regularizada no Brasil em 1983. É a mesma marca que, de acordo com o texto de 2017, havia lançado em 1979 o primeiro telefone de padrão nacional, da época em que aparelhos como o telefone de disco GTE Starlite, hoje anunciado no Enjoei, ainda eram raros nas casas.
O Phantom não estava sozinho. O acervo do Bojogá sobre o Nintendinho no Brasil lista os clones que surgiram em 1989: o Top Game VG-8000, da CCE, o Dynavision II, da Dynacom, o Phantom System, da Gradiente, e o BIT System, da Dismac. A diferença estava na boca do cartucho. Segundo o Bojogá, CCE e Dynacom usavam slot de 60 vias, o padrão do Famicom japonês, enquanto Gradiente e Dismac usavam 72 vias, compatíveis com os jogos do NES americano. Por isso, conta o mesmo acervo, adaptadores de 60 para 72 vias eram comuns nas lojas brasileiras.
Quatro anos depois, a Gradiente passou a vender a própria Nintendo. A história da Gradiente contada pelo TecMundo registra que, em 1993, a empresa se juntou à Estrela na Playtronic, pela qual chegaram oficialmente ao país quatro aparelhos da marca japonesa, do Nintendinho ao Nintendo 64, passando pelo portátil Game Boy. Três anos mais tarde, a sócia Estrela saiu do negócio, com a venda da sua fatia para a Gradiente, e a parceria com a Nintendo terminou em 2003, segundo o mesmo texto.
Testado, completo ou na caixa: o que muda de um anúncio para outro
O anúncio mais caro não é o mais completo. O console de R$ 1.715 vem sem jogo e sem teste, enquanto o de R$ 1.099 inclui cartucho, fonte e a própria Laser Gun. Num aparelho com mais de 35 anos, o aviso de que não houve teste pesa: o comprador leva o risco de fonte, conector ou controle sem resposta, e por isso a maioria dos vendedores do Enjoei descreve o que acompanha item por item.
Alguns pontos ajudam a reconhecer o que um Phantom guardado em casa tem ou não tem:
- Funcionamento declarado. Liga, roda jogo, os dois controles respondem. Sem isso, o anúncio costuma avisar.
- Fonte e cabos originais. O console de R$ 1.018 tem caixa, mas não tem nem fonte nem cabos.
- Caixa e papéis. A Laser Gun de Osasco traz o certificado de garantia da Gradiente, detalhe que poucos guardaram.
- Acessórios da marca. A pistola e o cartucho com berço e manual aparecem como itens à parte, com pedido próprio.
- Qual cartucho acompanha. Um Caça-Fantasmas avulso pede R$ 70; o Predator com berço pede R$ 1.200. O Bojogá cita Predator entre os jogos lembrados do NES americano de 72 vias.
Há uma curiosidade na dupla de pistolas. A Laser Gun com caixa, garantia e cartucho pede R$ 450, dez reais a menos que a pistola solta, sem caixa e sem garantia de funcionar, anunciada por R$ 460 no Enjoei. Quem define o número é cada vendedor, e as duas listas mostram isso melhor que qualquer tabela.
A conta com a pistola, a fita e o Super Nintendo Baby
Com os anúncios da sexta no Enjoei, a conta é simples de refazer. O console de R$ 1.715 pede 3,8 vezes o valor da Laser Gun com caixa (R$ 450) e cerca de 24 vezes o cartucho de Caça-Fantasmas (R$ 70). Entre o console mais caro e o mais barato da lista há R$ 697 de diferença.
Somar o console do Rio com a pistola de Osasco dá R$ 2.165, quase o dobro do anúncio de R$ 1.099, que já traz Laser Gun, cartucho e fonte no mesmo pacote. E o contraste mais curioso vem do vizinho oficial: na mesma sexta, o Enjoei tinha um Super Nintendo modelo Baby, versão nacional com fonte e controle, pedindo R$ 360. O clone do Nintendinho pede quase cinco vezes o console oficial que a própria Gradiente ajudou a trazer para o Brasil pela Playtronic.
São todos valores nominais. O preço que o Phantom tinha nas lojas em 1989, em cruzados novos, não aparece em fonte aberta que permita corrigir pela inflação, então a comparação aqui é só entre pedidos de hoje. Para quem passou dos 30 e voltou a jogar, assunto já tratado aqui num texto sobre adultos que seguem com o videogame ligado depois dos 30, a lista do Enjoei funciona como inventário de quarto antigo.
Num console que nasceu imitando outro, o papel mais disputado acabou sendo o da própria marca. Na caixa gasta de Osasco, ao lado da pistola, ainda está o certificado de garantia da Gradiente, e junto dela o cartucho de Duck Hunt, o jogo de mirar nos patos que dava sentido à Laser Gun.




