Uma moradora passa o pé descalço pela sala numa tarde de fevereiro e sente uma quina levantada bem no lugar onde, quatro meses antes, havia uma emenda lisa. O piso vinílico tinha sido aplicado sobre a cerâmica antiga sem quebrar nada, e o resultado agradou até o calor apertar. Agora duas réguas estalam quando alguém pisa e uma delas já se soltou do encaixe.
A cena é inventada, mas todo instalador de piso já foi chamado para ver exatamente isso. O que costuma explicar o estrago não está no material comprado: está no desnível que ninguém mediu antes de passar a cola e nos rejuntes fundos que continuaram fundos por baixo do revestimento novo. Dois fabricantes publicam esse limite em número, e os números não coincidem entre si.
Quanto desnível o manual aceita antes de o piso vinílico sobre cerâmica falhar?
Três milímetros para uma marca, quatro para a outra, e sempre com régua apoiada no chão. O manual de instalação do piso vinílico SPC Click da Durafloor, edição de 2025, fecha a questão na página 5: o contrapiso não deve apresentar desníveis maiores que 3 milímetros a cada 2 metros lineares. O Manual Geral de Instalação da Tarkett trata do mesmo item na página 6 e pede duas verificações, uma com régua de 2 metros e outra com régua de 20 centímetros. Ali adota a norma alemã DIN 18202 e admite no máximo 4 milímetros de desnível entre dois pontos na régua maior e 2 milímetros na curta. Cada número pertence ao documento que o publicou.
A norma brasileira do produto tem duas partes: a ABNT NBR 14917-1, de requisitos, características e classes, e a NBR 14917-2, de seleção, instalação, conservação e limpeza. A Durafloor declara seguir as duas logo na abertura do seu manual, e a Tarkett remete às tabelas 5 e 6 da parte 1 ao descrever as características que a base precisa ter.
Os dois documentos cobrem sistemas diferentes. O manual geral da Tarkett trata do vinílico colado em manta e placa; o da Durafloor trata do SPC clicado, que trabalha flutuante sobre a base. A tolerância de planicidade vale para os dois, porque nenhum deles corrige o chão. Muda o que quebra primeiro: no colado, bolha e descolamento; no clicado, encaixe rompido e emenda levantada.
O que a régua de 2 metros encontra no chão da sala?

Quase sempre mais irregularidade do que o olho de quem está em pé consegue perceber.
Piso cerâmico assentado há uma ou duas décadas costuma ter peça mais alta que a vizinha, caimento antigo na direção do ralo e placa que um dia soou firme e hoje está oca. A Tarkett manda testar essa condição batendo nas peças com o cabo de um martelo: a que produzir som oco deve ser removida, e o vão preenchido com massa de regularização, que é o item 8 do manual. Logo adiante, o mesmo manual descreve essa massa, feita com areia e cimento na proporção de 3 para 1 e com pelo menos 2,5 centímetros de espessura. Um piso que dispensa quebra-quebra não dispensa medição. O mesmo vale em outras etapas de acabamento, como com quem aplica tinta sobre uma parede que ainda tem água por dentro e vê a mancha reaparecer em poucas semanas.
Onde entra o rejunte fundo, e por que ele precisa sumir antes do revestimento?
A linha do rejunte vira um sulco contínuo embaixo de um revestimento que tem poucos milímetros de espessura.
- Junta de até 5 milímetros: a Tarkett aceita a base cerâmica nessa condição e pede uma demão de primer antes da massa autonivelante, no item 6.2.
- Junta acima de 5 milímetros: o item 6.2.1 manda preencher os espaços dos rejuntes com massa própria, aguardar a secagem informada na embalagem e só então seguir com primer e autonivelante.
- Rejunte regularizado como condição: a Durafloor libera cerâmica e porcelanato como base nas regras de contrapiso, com a ressalva expressa de que os rejuntamentos estejam regularizados.
- Exceção de coleção: na página 28, a Tarkett libera o piso clicado da linha Tech sobre cerâmica bem nivelada e com rejunte de até 3 milímetros, sem preparação prévia.
- Base que não serve: taco, tábua corrida, parquet e outro piso vinílico ficam de fora nos dois manuais, e a Durafloor acrescenta carpete de madeira e carpete têxtil à lista. Em ambos, a saída é remover tudo e preparar base nova.
Por que a emenda levanta justamente no primeiro verão?
O calor mexe com a régua, e a régua precisa de espaço para onde ir.
Os dois manuais reservam essa folga. A Durafloor pede de 8 a 10 milímetros junto às paredes, além de perfil de dilatação nas passagens de ambiente, nos vãos de porta, acima de 20 metros lineares e em áreas maiores que 400 metros quadrados. A Tarkett recomenda no mínimo 6 milímetros de afastamento das paredes na linha clicada, espaço que o rodapé depois esconde, e adverte que o contato direto das réguas com paredes, soleiras, pilares e batentes gera o levantamento de topo apelidado de efeito igrejinha.
A cozinha planejada cria um detalhe extra. A Durafloor avisa que armário embutido montado por cima do piso impede a régua de dilatar, o que produz estufamento e movimentação vertical quando alguém caminha por ali. A saída é instalar o armário antes do piso ou deixar aquele trecho sem revestimento.
Quem paga o conserto quando o encaixe quebra?
A resposta está no mesmo documento que traz as tolerâncias, e raramente agrada. A página 5 do manual da Durafloor liga causa e efeito sem rodeio: ondulações e depressões na superfície podem causar movimentação vertical e, na sequência, quebra dos encaixes, aberturas e levantamento das emendas das réguas. A Tarkett descreve o mesmo mecanismo ao tratar de contrapiso fraco que cede sob o peso dos móveis. Nesses pontos, diz o texto, “o piso vinílico irá acompanhar as depressões e poderá, inclusive, se romper”. O revestimento não corrige a base: ele reproduz a base.
Na página 2 do manual da Durafloor está a frase que decide a conta: “A garantia Durafloor refere-se a defeitos de fabricação”. Régua que ondulou por causa de base fora de tolerância não entra nessa categoria, porque a origem é o preparo, e preparo é responsabilidade de quem executou o serviço. Daí a importância de o orçamento dizer, item a item, o que será feito com o rejunte e com o desnível medido. Quem troca revestimento em apartamento conhece a surpresa, como a proprietária que descobriu tarde demais que a manta acústica sob o piso novo era obrigação e não item opcional.
O que convém lembrar antes de aplicar vinílico sobre cerâmica antiga?
Antes de fechar o orçamento, peça ao instalador a medição com régua de 2 metros e exija por escrito quantos milímetros de desnível existem e em que pontos da casa. Confira no manual da coleção comprada qual é o limite daquela marca, porque 3 e 4 milímetros são números de fabricantes diferentes. Se houver rejunte largo ou peça oca, cobre o preenchimento e a autonivelante como linha separada no orçamento, e não como cortesia. Peça também o teste de umidade da base: a Durafloor fixa 2,5% como teto, apoiada na NBR 14917-2, e ensina a verificação caseira de colar um plástico no chão por 24 horas e observar se ele transpira. Na hora da instalação, confira com a trena a folga deixada junto às paredes antes que o rodapé cubra tudo.
A leitura acima é informativa e nasce de dois manuais de fabricante consultados item por item. Cada linha de produto traz tolerância, folga de dilatação e preparo de base próprios, e o manual da coleção comprada, com a avaliação de um instalador no local, vale mais do que qualquer regra geral repetida aqui.




