A Antártida abriga apenas duas espécies nativas de plantas vasculares com flores: a gramínea Deschampsia antarctica e a pequena Colobanthus quitensis. Um estudo de longo prazo mostrou que, diante do aquecimento, elas seguem estratégias quase opostas para continuar funcionando em um dos ambientes mais extremos do planeta.
Quais são as duas plantas com flores da Antártida
A Deschampsia antarctica, conhecida como gramínea ou capim antártico, forma pequenos tufos de folhas estreitas. Já a Colobanthus quitensis, chamada de pérola-antártica, é uma planta baixa da família Caryophyllaceae que pode crescer em estruturas compactas semelhantes a pequenas almofadas.
O British Antarctic Survey confirma que elas são as duas únicas plantas com flores nativas encontradas naturalmente na região antártica. Musgos, líquens e outros organismos vegetais são muito mais comuns, já que menos de 1% do continente oferece terrenos livres de gelo adequados à colonização.

Leia também: O jeito mais rápido de descascar alho sem ficar puxando a casca com as unhas e sujar toda a bancada
Experimento acompanhou as plantas durante sete anos
Para entender como as espécies respondem ao aumento prolongado de temperatura, pesquisadores chilenos e espanhóis realizaram um experimento de campo na ilha Rei George, na Antártida marítima. As plantas permaneceram durante sete anos dentro de câmaras abertas na parte superior, estruturas usadas para provocar um aquecimento passivo sem retirá-las de seu ambiente natural.
O trabalho foi publicado em 2026 na revista Physiologia Plantarum. Os cientistas observaram principalmente a condutividade hidráulica das folhas, relacionada à circulação de água, e a fotossíntese, permitindo comparar como cada espécie reorganizou seu funcionamento diante das novas condições.
Deschampsia prefere reduzir o ritmo para preservar estabilidade
Depois do período de aquecimento experimental, a Deschampsia antarctica apresentou redução tanto na capacidade de transportar água pelas folhas quanto em sua taxa de fotossíntese. Em vez de acelerar o metabolismo diante das temperaturas mais altas, a espécie adotou uma resposta mais conservadora.
Os pesquisadores interpretam essa estratégia como uma prioridade dada à segurança hidráulica e estabilidade. A planta parece limitar determinadas funções para preservar o funcionamento em condições variáveis, característica que pode ser especialmente importante em um ambiente onde congelamentos e descongelamentos continuam ocorrendo mesmo durante a estação de crescimento.
Colobanthus reage aumentando transporte de água e fotossíntese
A Colobanthus quitensis seguiu praticamente o caminho contrário. Sob o aquecimento de longo prazo, ela apresentou maior transporte de água, aumento da fotossíntese e modificações que favoreceram a movimentação de dióxido de carbono dentro das folhas.
O estudo também identificou mudanças na elasticidade das paredes celulares e na anatomia vascular. Seu formato compacto, semelhante a uma almofada, ajuda a conservar calor próximo à superfície da planta e pode contribuir para aproveitar as condições mais quentes com maior plasticidade fisiológica.

Estratégias diferentes podem explicar como as duas conseguem sobreviver
Os resultados mostram que não existe uma única solução biológica para enfrentar mudanças ambientais. Enquanto a Deschampsia aposta em estabilidade e conservação, a Colobanthus apresenta maior capacidade de ajustar seu funcionamento e aproveitar o aumento de temperatura, priorizando eficiência e plasticidade.
Uma pesquisa anterior sobre estresse por congelamento também encontrou diferenças entre as espécies. Um estudo publicado na revista Planta mostrou que a Deschampsia reforça de maneira mais ampla membranas e cloroplastos, enquanto a Colobanthus apresenta uma resposta de tolerância mais concentrada nos cloroplastos.
O aquecimento pode favorecer expansão, mas também cria novos riscos
Temperaturas maiores e recuo do gelo podem criar novas áreas disponíveis para essas plantas, e estudos anteriores já registraram aumento e expansão de populações em partes da Antártida marítima. Isso não significa, porém, que o aquecimento seja simplesmente benéfico para a vegetação local.
As mudanças climáticas também podem alterar disponibilidade de água, frequência de secas e ciclos de congelamento e descongelamento. Outra pesquisa publicada em 2026 na Environmental and Experimental Botany mostrou que ambas apresentam limites diante da desidratação extrema, mesmo utilizando respostas diferentes ao estresse.
As duas pequenas plantas ajudam a revelar o futuro da vegetação antártica
O experimento mostra por que observar apenas se uma espécie cresce ou diminui pode não ser suficiente para entender sua resposta climática. A Deschampsia e a Colobanthus conseguem persistir no mesmo ambiente utilizando mecanismos fisiológicos diferentes, o que pode permitir que ambas encontrem oportunidades em cenários futuros.
Ao acompanhar essas espécies por anos, cientistas conseguem observar como a vegetação terrestre da Antártida reage a mudanças que já estão ocorrendo. As duas únicas plantas vasculares com flores nativas do continente funcionam, assim, como indicadores naturais das transformações ambientais e mostram que sobreviver ao aquecimento pode exigir estratégias completamente diferentes.




