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Vizinho corta galhos que avançavam sobre o telhado, proprietário alega que a árvore foi mutilada e o artigo 1.283 do Código Civil define exatamente até onde a poda é permitida

Por Gabriel Leme
19/09/2026
Em Curiosidades
Galhos sobre o telhado podem ser cortados apenas até a linha divisória.

Galhos sobre o telhado podem ser cortados apenas até a linha divisória.

Na manhã de uma terça-feira de agosto, Marcelo, 44 anos, técnico de refrigeração em Jundiaí, subiu ao telhado para limpar a calha antes da chuva. Encontrou folhas acumuladas, duas telhas deslocadas e galhos grossos encostando na cobertura. A árvore nascia no quintal vizinho, mas quase dois metros da copa já avançavam sobre sua casa. Foi ali que uma tarefa doméstica virou discussão de divisa.

Os galhos já alcançavam o meio do telhado

Helena, 61 anos, costureira aposentada na mesma cidade, cultivava a árvore havia mais de uma década e gostava da sombra sobre a varanda. Marcelo mostrou fotos da calha e pediu que ela providenciasse a poda de árvore. Ela respondeu que procuraria alguém depois do período de chuvas, embora os galhos continuassem raspando as telhas quando ventava.

Quarenta dias se passaram sem serviço marcado. Depois de uma nova conversa no portão, Marcelo contratou um profissional por R$ 650 e orientou que fossem retiradas somente as partes projetadas sobre seu lote. Antes do corte, fotografou o muro, o telhado e a copa de vários ângulos, imaginando que aquele registro serviria apenas para conferir o trabalho.

A poda terminou em cobrança no portão

O serviço retirou seis ramos, todos acessados pelo quintal de Marcelo. Na tarde seguinte, Helena viu a copa menos cheia de um lado e disse que a árvore havia sido mutilada. Ela apresentou uma estimativa informal de R$ 4.800 para tratamento, nova avaliação e eventual remoção, cobrando o valor como dano material causado sem sua autorização.

Marcelo tentou mostrar as imagens e o alinhamento dos cortes com o muro, mas ouviu que ninguém poderia tocar na árvore sem consentimento. O profissional afirmou que não havia ultrapassado a divisa de terreno nem alcançado o tronco. Sem acordo, Marcelo abriu um protocolo no órgão ambiental municipal e começou a pesquisar o direito de vizinhança antes de responder à cobrança.

Fotos da divisa e dos cortes ajudam a provar os limites legais.
Fotos da divisa e dos cortes ajudam a provar os limites legais.

Até onde o vizinho pode cortar?

O artigo 1.283 do Código Civil, instituído pela Lei 10.406/2002, estabelece que raízes e ramos que ultrapassem a extrema do imóvel podem ser cortados pelo dono do terreno invadido. O limite é o plano vertical divisório, como se a linha da divisa subisse do solo. A regra pode ser consultada no texto oficial do Código Civil.

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Isso significa que Marcelo poderia retirar a parte dos galhos situada sobre seu terreno, mas não avançar com ferramentas para dentro do lote de Helena nem cortar junto ao tronco se ele estivesse além da linha. A permissão civil não autoriza poda destrutiva ou intervenção que comprometa a estabilidade da árvore. Regras ambientais municipais também podem exigir comunicação, autorização ou cuidado técnico.

O que deve ser provado na prática

A orientação oficial de Jundiaí admite a intervenção em galhos e raízes invasores até o limite do muro, desde que a poda não seja drástica nem comprometa a árvore. Marcelo anexou essa orientação ambiental do município de Jundiaí ao protocolo. Para sustentar qualquer lado da discussão, alguns registros são especialmente úteis:

  • Fotos e vídeos feitos antes, durante e depois do corte, mostrando a posição do muro, dos ramos e do tronco.
  • Planta, levantamento ou outro documento capaz de confirmar a localização da divisa quando ela não estiver claramente marcada.
  • Mensagens trocadas entre os vizinhos, pedidos anteriores de manutenção e respostas dadas sobre prazo ou recusa do serviço.
  • Nota ou recibo do profissional responsável, com descrição do trabalho executado e dos pontos em que os galhos foram cortados.
  • Laudo de engenheiro agrônomo, florestal ou outro profissional habilitado quando houver alegação de risco, mutilação ou perda da árvore.

Quando a conversa não resolve a disputa

Se o corte ultrapassar a linha, provocar morte da árvore ou gerar prejuízo comprovado, os artigos 186, 187 e 927 do Código Civil podem fundamentar pedido de reparação. Ainda assim, o dano material depende de prova do prejuízo e da ligação com a conduta do vizinho. Uma estimativa verbal, sozinha, não demonstra automaticamente o valor nem a responsabilidade.

  • O órgão ambiental municipal deve ser procurado para verificar licença, restrições locais, risco da árvore e possível infração ambiental.
  • Um centro de conciliação ou CEJUSC pode ajudar os vizinhos a formalizar solução sem começar imediatamente uma ação judicial.
  • A Defensoria Pública pode orientar quem atende aos critérios de assistência gratuita e não consegue contratar advogado.
  • Um advogado pode avaliar laudos, delimitação do terreno e eventual pedido de reparação quando o conflito exigir medida judicial.

A linha da divisa mudou o desfecho

A vistoria solicitada por Marcelo registrou que os cortes acompanhavam o alinhamento do muro e não indicavam, naquele momento, perda de estabilidade. Helena levou a árvore a uma avaliação técnica particular, que recomendou apenas acompanhamento e poda de equilíbrio futura, sem remoção. Diante dos documentos, ela retirou a cobrança de R$ 4.800 durante uma tentativa de conciliação.

Os dois combinaram que qualquer nova intervenção seria avisada com dez dias de antecedência e acompanhada por profissional habilitado. O caso mostrou que o artigo 1.283 define onde o corte pode chegar, mas não transforma a linha divisória em autorização para qualquer técnica. Quem enfrenta situação parecida deve registrar a invasão, consultar a regra ambiental da cidade e limitar o serviço ao próprio espaço.

Marcelo e Helena foram criados para esta narrativa e não correspondem a pessoas reais. A história reúne situações que se repetem entre vizinhos para mostrar como a poda costuma gerar conflito e qual limite a norma estabelece.

Tags: dano materialdireito de vizinhançadivisa de terrenopoda de árvore
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