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Início Curiosidades

Polonês de 16 anos lembra de pelo menos metade dos dias desde 2022 e supera 99% das pessoas em testes de memória autobiográfica

Por João Victor
28/09/2026
Em Curiosidades
Adolescente de olhos fechados junto à janela, como quem relembra

Adolescente de olhos fechados junto à janela, como quem relembra. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Um adolescente polonês de 16 anos, identificado apenas pelas iniciais KCL, consegue recordar o que aconteceu em pelo menos metade dos dias da própria vida desde agosto de 2022. O caso foi descrito por pesquisadores da Polônia, da França, da Itália e do Reino Unido na revista científica Cortex, em artigo publicado online em setembro de 2026, e é o primeiro registro documentado de HSAM (sigla em inglês para memória autobiográfica altamente superior) no país.

A memória autobiográfica extrema, também chamada de hipertimesia, é a capacidade de lembrar datas e episódios pessoais com detalhe fora do comum, sem truques de memorização. Nos testes de datas aplicados, KCL ficou acima de 99,57% da amostra de referência, segundo o artigo. O rapaz procurou o primeiro autor, o psicólogo Krystian Barzykowski, da Universidade Jaguelônica, em Cracóvia, no início de 2025, e a partir daí passou por uma bateria de avaliações.

O trabalho, assinado por Barzykowski, Valerio Santangelo (Universidade de Perugia), Lia Kvavilashvili (Universidade de Hertfordshire) e Chris Moulin (Université Grenoble Alpes), está disponível em acesso aberto no artigo da Cortex sobre o caso KCL, que sairá no volume 205 da revista, com data de dezembro de 2026.

Como a memória autobiográfica extrema foi posta à prova

Os pesquisadores usaram primeiro os questionários padronizados de triagem para HSAM. Em um deles, o Public Dates Quiz, o participante precisa associar datas a acontecimentos públicos. KCL acertou 51% das perguntas, resultado que o artigo da Cortex coloca a 3,84 desvios padrão acima da média. No Random Dates Quiz, em que a pessoa diz o que fez ou o que aconteceu em datas sorteadas, ele acertou 83%. Nos dois quizzes, 99,57% das pessoas da população de referência pontuaram abaixo dele.

A parte mais original do estudo mira outro fenômeno: as lembranças que surgem sem esforço, do nada, no meio de uma tarefa qualquer. No questionário sobre essas memórias involuntárias, o adolescente ficou acima de 99,14% da amostra de comparação, segundo os autores.

Depois veio um teste de laboratório. KCL fez uma tarefa de vigilância, monótona de propósito, com palavras soltas espalhadas pela tela e interrupções para perguntar em que ele estava pensando. Ele relatou 13 memórias autobiográficas involuntárias, o equivalente a 87% dos pensamentos que teve fora da tarefa. Um grupo de 36 voluntários, com idade média de 23 anos, relatou em média 5,25, de acordo com o artigo. Todas as sessões foram feitas a distância, com os pesquisadores acompanhando em tempo real.

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O detalhe que chamou a atenção dos autores: a mente de KCL não vagueia mais do que a dos outros. A quantidade total de pensamentos alheios à tarefa foi parecida com a do grupo de comparação. O que muda é o destino desses pensamentos, que se voltam com muito mais frequência para o passado dele.

Uma memória fora da curva, mas não um cérebro superior

Pesquisadora aplica teste a um adolescente num laboratório de psicologia
Pesquisadora aplica teste a um adolescente num laboratório de psicologia. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Nos testes de memória de trabalho, atenção e funções executivas, o jovem teve desempenho normal. O resumo do artigo é direto nesse ponto: a HSAM não se confunde com superioridade cognitiva geral. KCL também descreveu a experiência de lembrar de forma semelhante à da população em geral, embora avalie a própria memória como muito boa e confie mais na precisão das suas lembranças.

A explicação proposta pela equipe é de funcionamento, não de anatomia. Para os autores, pessoas como KCL seriam mais sensíveis a pistas do ambiente, e o limiar para uma lembrança vir à tona seria mais baixo. Uma palavra, uma data ou um detalhe qualquer do ambiente bastariam para puxar um episódio que, na maioria das pessoas, ficaria quieto. O estudo não fez exames de imagem do cérebro, então não há base para atribuir a memória dele a esta ou àquela estrutura cerebral.

Esse padrão conversa com o que se acumulou desde o primeiro caso descrito, o de uma mulher identificada como “AJ”, publicado em 2006 na revista Neurocase por Elizabeth Parker, Larry Cahill e James McGaugh, que propuseram o nome síndrome hipertimésica. Em 2012, um grupo com 11 participantes, liderado por Aurora LePort na revista Neurobiology of Learning and Memory, mostrou que essas pessoas vão muito melhor em eventos com data, públicos ou pessoais, mas ficam no nível dos demais na maioria dos testes clássicos de memória. O laboratório de Craig Stark, na Universidade da Califórnia em Irvine, mantém uma página que resume essa linha de pesquisa.

A lembrança dos três meses não foi confirmada

KCL contou aos pesquisadores que tem memórias muito precoces, incluindo cenas de quando tinha cerca de três meses de vida. Os pais dele só confirmaram lembranças de 2010 e 2011, quando o menino tinha entre 1 e 2 anos. E o próprio artigo registra, entre as limitações, que a veracidade das memórias relatadas não foi checada de forma independente.

O relato esbarra na chamada amnésia infantil, o fenômeno amplamente aceito de que adultos e adolescentes quase não retêm lembranças dos primeiros anos de vida. As explicações mais aceitas apontam para um cérebro que, nos primeiros anos, ainda está amadurecendo as áreas que amarram cada episódio a um lugar e a um momento, e para a falta da linguagem que ajuda a guardar essas cenas. No maior levantamento sobre primeiras memórias, com 6.641 participantes, Shazia Akhtar e colegas relataram na Psychological Science, em 2018, que a idade média da primeira lembrança foi de 3,2 anos. Perto de 40% disseram lembrar de algo de quando tinham 2 anos ou menos, e os autores classificaram essas recordações como provavelmente fictícias, montadas a partir de fotos, conversas de família e fragmentos soltos.

Isso não significa que o adolescente esteja mentindo. Lembranças falsas costumam parecer tão reais quanto as verdadeiras para quem as tem, e a memória é reconstruída a cada vez que é acessada, tema que o CB Radar já abordou ao mostrar por que nossas lembranças mudam um pouco a cada vez que voltamos a elas. O estudo sobre KCL, vale dizer, não discute a amnésia infantil.

Lembrar muito não é o mesmo que lembrar certo, e o caso polonês mostra bem a distância entre as duas coisas.

Caso raro, mas não inédito entre adolescentes

Parte da repercussão internacional tratou KCL como o primeiro menor de idade com HSAM. Não é o que diz o artigo, e não é o que mostra a literatura: em 2025, Valentina La Corte, Pascale Piolino e Laurent Cohen descreveram na Neurocase o caso de “TL”, uma francesa de 17 anos com o mesmo perfil. O ineditismo de KCL é geográfico, por ser o primeiro caso documentado na Polônia.

Nesta apuração, não foi localizado nenhum caso brasileiro de hipertimesia descrito em revista científica. A maior lição do caso vale para qualquer pessoa: a memória autobiográfica é feita de lembranças que voltam sozinhas, disparadas por pistas do cotidiano, e é esse mecanismo que, em alguns poucos, parece funcionar com o volume no máximo. Quem gosta de pensar no assunto pode ler também como recontar as mesmas histórias na velhice ajuda a revisitar a própria vida, outro lado da relação entre memória e identidade.

Tags: hipertimesiaMemóriaNeurociênciaPolônia
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