Você fala “homem” e “omem” praticamente do mesmo jeito, mas apenas uma dessas formas é aceita pela ortografia atual. Isso acontece porque o H inicial de palavras como homem, hoje, hora, haver e honra sobreviveu mesmo depois de perder seu som, preservado principalmente pela etimologia e pela tradição escrita.
O H inicial normalmente não representa nenhum som
No português brasileiro atual, o H no começo de palavras como homem, hoje e hora não corresponde a um fonema próprio. Diferentemente do que acontece em idiomas nos quais essa letra pode representar uma aspiração, pronunciamos essas palavras como se a fala começasse diretamente pela vogal seguinte.
É por isso que retirar mentalmente a letra de “homem” praticamente não altera sua pronúncia. A diferença aparece na escrita: aprendemos desde cedo que a forma correta é com H, e a ausência da letra chama atenção porque contraria uma convenção ortográfica consolidada há gerações.

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A explicação está na história das palavras
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa determina que o H inicial seja usado, entre outras situações, por força da etimologia. O próprio texto apresenta como exemplos haver, hélice, hera, hoje, hora, homem e humor.
Homem, por exemplo, está relacionado ao latim homo, enquanto hora vem de hora. O detalhe curioso é que a presença histórica dessa letra permaneceu visível na grafia portuguesa mesmo depois de sua antiga aspiração desaparecer da pronúncia, fazendo do H uma espécie de marca da origem de determinadas palavras.
Português antigo também escreveu oje, aver e omem
A grafia com H nem sempre foi tão estável quanto parece hoje. Um registro do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, baseado na história do idioma, lembra que o português arcaico chegou a apresentar formas como “oje”, “aver” e “omem”, justamente sem a letra inicial.
Essas variantes mostram que a escrita portuguesa passou por períodos de oscilação. Durante séculos, conviviam tendências mais próximas da pronúncia real e outras preocupadas em aproximar a grafia das raízes latinas ou gregas, até que reformas e acordos passaram a estabelecer regras mais uniformes.
A reforma de 1911 retirou vários H que já não faziam sentido
Um momento decisivo ocorreu com a reforma ortográfica portuguesa de 1911. O Formulário Ortográfico de 1911 determinou a eliminação do H no interior de vocábulos portugueses quando ele não tivesse função, preservando-o basicamente em combinações como ch, lh e nh.
A mesma reforma, porém, decidiu conservar o H inicial etimológico, citando expressamente homem, humano, honra e hoje. Ao mesmo tempo, retirou letras consideradas incorretas em formas como “hontem”, “hir” e “hombro”, que passaram a ser escritas como ontem, ir e ombro.

Nem todo H antigo conseguiu sobreviver
A etimologia não funciona como uma regra completamente automática. O acordo atual admite palavras nas quais o H desapareceu porque a forma sem a letra ficou consagrada pelo uso. Um dos exemplos apresentados pelo próprio texto ortográfico é erva, que poderia ser relacionada historicamente a formas grafadas com H, mas hoje se escreve sem ele.
Há ainda situações em que o H desaparece quando uma palavra entra em uma composição aglutinada. Assim, humano mantém a letra, mas temos desumano e inumano; haver conserva o H, enquanto reaver não o utiliza. A ortografia combina, portanto, história, tradição e regras desenvolvidas ao longo do tempo.
Por que simplesmente não eliminar o H de homem e hora
Uma escrita totalmente fonética poderia sugerir formas como “omem”, “oje” e “ora”, já que o H não altera a pronúncia dessas palavras. Mas sistemas ortográficos não registram somente sons: eles também carregam história, relações entre palavras e convenções que permitem que milhões de falantes compartilhem um mesmo padrão escrito.
Eliminar esses H exigiria uma nova mudança ortográfica e substituiria grafias que já estão profundamente incorporadas à língua. Hoje, escrever homem, hoje, hora, haver e honra com H não significa reproduzir um som escondido; significa seguir uma convenção histórica que sobreviveu justamente porque a ortografia preserva marcas que a fala abandonou há muitos séculos.




