O arrepio que muitas pessoas sentem ao ouvir sons como unha arranhando o quadro, talheres raspando no prato ou isopor sendo esfregado não é apenas incômodo. Esse fenômeno envolve uma combinação de acústica, memória, emoção e mecanismos de defesa do cérebro, ativando regiões ligadas à ameaça e ao estresse mesmo sem perigo real e revelando como nosso sistema nervoso foi moldado para reagir rapidamente a estímulos potencialmente danosos, como explica a pesquisa “Distinct neural circuits processing pleasant and unpleasant sounds: an fMRI-based approach”.
Como o som desagradável percorre o caminho até o cérebro
O caminho começa no ouvido: as ondas sonoras entram pelo canal auditivo, fazem vibrar o tímpano e são transmitidas pelos ossículos até a cóclea, no ouvido interno. Nessa estrutura, células sensoriais especializadas transformam as vibrações em sinais elétricos, que seguem pelo nervo auditivo até áreas específicas do cérebro, como o córtex auditivo, onde o som é reconhecido como mais agudo, grave, forte ou fraco.
Nos sons considerados desagradáveis, há características físicas marcantes. Em geral, concentram-se em uma faixa intermediária, muitas vezes entre 2.000 e 4.000 hertz, região em que o ouvido humano é especialmente sensível. Essa faixa inclui muitos gritos humanos, choros e sinais de alerta naturais, fazendo com que ruídos como unha no quadro “compitam” com sons biologicamente relevantes e acionem sistemas de atenção e vigilância no cérebro.
Por que o cérebro prefere sons organizados e previsíveis
Além das frequências, esses ruídos desagradáveis costumam ser irregulares, ásperos e imprevisíveis. O cérebro lida melhor com sons organizados, como fala ou música, em que há padrão e ritmo reconhecíveis. Quando o estímulo auditivo é caótico, a interpretação exige mais esforço, acionando áreas associadas a esforço cognitivo e vigilância.
Por isso, sons caóticos tendem a ser associados a algo potencialmente perturbador ou perigoso. Pesquisas em neurociência auditiva mostram que a falta de padrão interfere na sensação de controle sobre o ambiente, o que pode aumentar o desconforto emocional e intensificar reações automáticas, como o arrepio e a vontade de afastar-se da fonte sonora.
Para aprofundarmos e exemplificarmos o tema, trouxemos o vídeo do perfil @klondero:
@klondero Porque algumas pessoas só conseguem dormir com o ventilador ligado? 🧠 1. O cérebro gosta de previsibilidade O ruído branco é constante e repetitivo, o que ajuda o cérebro a “desligar” a vigilância. Sons irregulares (carros, passos, portas) ativam o estado de alerta; o ruído branco mascara esses sons, facilitando o sono profundo. 😌 2. Redução da ansiedade e da hiperatividade mental Pessoas mais ansiosas ou com pensamento acelerado se beneficiam porque o som contínuo: • diminui a ruminação mental • cria uma sensação de segurança • funciona quase como uma “âncora” para a mente Por isso, é muito comum em pessoas sensíveis ao ambiente. 👶 3. Memória afetiva e condicionamento Muitos associam esse som a: • infância (ventilador, rádio ligado, barulho da casa) • sensação de proteção Com o tempo, o cérebro aprende: “esse som = hora de dormir”. 👂 4. Sensibilidade auditiva Quem tem audição mais sensível percebe pequenos ruídos com facilidade. O ruído branco age como um campo sonoro neutro, impedindo microdespertares. 🧬 5. Efeito semelhante ao útero Curiosamente, o ambiente intrauterino não é silencioso — há sons contínuos do corpo da mãe. O ruído branco lembra esse padrão primitivo de segurança, o que acalma o sistema nervoso. #ventilador #ruido #dormir ♬ som original – Klondero
Por que ficamos arrepiados com certos sons
A resposta para por que ficamos arrepiados ao ouvir barulhos desagradáveis está ligada ao funcionamento da amígdala, estrutura pequena e profunda no cérebro, central na detecção de ameaça. Assim que o som chega às áreas auditivas, parte da informação é encaminhada rapidamente para a amígdala, mesmo antes de uma análise racional mais detalhada, em uma via rápida e pouco precisa.
A amígdala funciona como um “radar emocional”. Quando identifica um estímulo como potencialmente perigoso ou altamente aversivo, ela aciona o chamado sistema de defesa. Entre as reações possíveis estão arrepios na pele (piloereção), tensão muscular e sensação de desconforto intenso, preparando o corpo para interromper o som ou afastar-se da situação incômoda.
Quais reações o sistema de defesa pode desencadear no corpo
Quando a amígdala interpreta o som como ameaça, outras áreas entram em ação, como o hipotálamo e o tronco encefálico, ativando respostas do sistema nervoso autônomo. Essas reações são automáticas e não dependem de decisão consciente, funcionando como um reflexo que, ao longo da evolução, ajudou o organismo a sobreviver em situações de risco real.
Entre as reações mais comuns disparadas pelo sistema de defesa diante de barulhos desagradáveis, destacam-se:
- aumento da tensão muscular em pescoço, ombros e mandíbula;
- liberação de hormônios do estresse, como adrenalina;
- aceleração dos batimentos cardíacos e da respiração;
- sensação de desconforto e urgência em escapar do estímulo;
- arrepios na pele (piloereção), típicos de frio ou medo intenso.
Como sons desagradáveis ativam o sistema de defesa
O sistema de defesa envolve várias estruturas cerebrais e corporais que colaboram para avaliar rapidamente o risco. Além da amígdala, o hipotálamo, o tronco encefálico e partes do córtex pré-frontal participam da detecção e modulação da resposta, permitindo que o organismo reaja com rapidez a possíveis ameaças mesmo antes da plena consciência do som.
- O som entra pelo ouvido e é processado inicialmente no córtex auditivo.
- Em paralelo, sinais seguem por uma via rápida para a amígdala.
- A amígdala compara o estímulo com memórias de perigo ou desconforto.
- Se o som é classificado como ameaçador ou altamente aversivo, o sistema de defesa é ativado.
- O corpo reage com arrepios, tensão, taquicardia e vontade de interromper o som.

Por que alguns sons incomodam mais do que outros
Nem todas as pessoas reagem da mesma forma a barulhos desagradáveis. Além da estrutura acústica do som e da sensibilidade da amígdala, entram em jogo fatores como história de vida, cultura e contexto. A exposição frequente a certo ruído pode levar à habituação, enquanto experiências negativas associadas podem amplificar a resposta emocional.
Estudos em neuroimagem mostram que, em indivíduos com maior sensibilidade sonora, áreas como amígdala, ínsula e córtex cingulado anterior apresentam ativação mais intensa diante desses estímulos. Essas regiões estão ligadas à percepção de dor, nojo, alerta e desconforto, fazendo com que ruídos como unha no quadro sejam processados quase como uma agressão sensorial, motivando afastamento imediato.
De que forma a expectativa influencia o arrepio diante de ruídos
A expectativa também modula fortemente a reação do organismo. Quando o barulho é inesperado ou ocorre em ambiente silencioso, a resposta costuma ser mais forte, pois o cérebro é pego de surpresa e interpreta o estímulo como mais ameaçador. Em contrapartida, quando se sabe que o ruído vai acontecer, parte do impacto é reduzida porque o cérebro se prepara com antecedência.
Ainda assim, a combinação de frequência aguda, aspereza e imprevisibilidade faz com que esses sons continuem entre os mais incômodos para o sistema auditivo humano. Alguns estudos recentes sugerem que pessoas mais ansiosas ou sob estresse crônico podem apresentar respostas ainda mais intensas, pois seu sistema de defesa já se encontra em estado de maior vigilância.
É possível reduzir o arrepio causado por sons desagradáveis
Embora a reação seja em grande parte automática, algumas estratégias podem atenuar o incômodo e modular a resposta do sistema de defesa. Técnicas simples do dia a dia ajudam a diminuir a ativação fisiológica e a reinterpretação do som, contribuindo para uma experiência menos aversiva, especialmente em contextos inevitáveis, como ambientes de trabalho barulhentos.
- evitar a exposição prolongada a sons sabidamente desagradáveis;
- usar protetores auriculares em ambientes com muito ruído irritante;
- treinar a atenção para outros estímulos, como a respiração, quando o som é inevitável;
- em alguns casos, associar o som a contextos neutros, reduzindo gradualmente a resposta emocional.
Essas medidas não eliminam completamente a ação da amígdala e do sistema de defesa, mas podem tornar o arrepio menos frequente ou menos intenso. Em síntese, o desconforto diante de barulhos como unha no quadro é um reflexo profundamente ligado à forma como o cérebro protege o organismo de possíveis ameaças, mesmo quando, na situação atual, o perigo é apenas um som incômodo.









